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Cases de projetos de melhoria na saúde: o que os grandes programas brasileiros ensinam

Quando um hospital decide melhorar um indicador assistencial, a primeira reação costuma ser procurar quem já fez. É uma busca legítima e quase sempre frustrante: o que se encontra são resultados finais, números de antes e depois, e raramente o que interessa, que é como aqueles números foram obtidos.

Os programas brasileiros de melhoria em saúde de maior alcance têm em comum algo que não aparece nos slides de resultado. Não foram grandes projetos conduzidos por especialistas externos. Foram muitos hospitais testando mudanças pequenas ao mesmo tempo, medindo o mesmo indicador da mesma forma e trocando o que aprendiam. É esse arranjo, e não a ferramenta, que explica o resultado.

O modelo que sustenta esses programas

O formato se chama colaborativo de melhoria, e foi desenvolvido a partir do trabalho do Institute for Healthcare Improvement. A lógica é simples de descrever e exigente de executar.

Como funciona um colaborativo de melhoriaQuatro etapas que se repetem: encontro de aprendizado com equipes de vários hospitais, período de ação em que cada hospital testa mudanças em ciclos pequenos, medição mensal do mesmo indicador com a mesma definição, e troca do que funcionou entre as equipes.Encontro de aprendizadoequipes de vários hospitais, mesmo problema, mesmométodoPeríodo de açãocada hospital testa mudanças na própria realidade, emciclos pequenosMedição mensal comumtodos medem o mesmo indicador, com a mesma definição,no tempoTroca do que funcionouo que deu certo em um vira teste no outro; o que falhoutambém ensina
Figura 1. O ciclo de um colaborativo de melhoria. As duas etapas em destaque são as que acontecem dentro de cada hospital, entre um encontro e outro.

Repare no que está em destaque. O encontro presencial e a troca final são a parte visível, e são também a menos determinante. O que produz resultado é o que acontece entre os encontros: equipes testando mudanças em escala pequena na própria unidade, com ciclos PDSA, e medindo o indicador todo mês com a mesma definição que os outros hospitais usam.

Essa exigência de medição comum é o que permite comparar e aprender em rede. Sem definição operacional idêntica, cada hospital mede uma coisa diferente e a comparação não significa nada, por mais bonito que fique o painel consolidado.

Parto Adequado: mudar o que se considera normal

O projeto Parto Adequado nasceu de um problema de saúde pública brasileiro: a proporção altíssima de partos por cesárea, especialmente na saúde suplementar. A referência internacional mudou ao longo dos anos, e a Organização Mundial da Saúde passou a afirmar que proporções acima de cerca de 10% não se associam a redução de mortalidade materna e neonatal, deixando de recomendar uma faixa ideal fixa.

O programa reuniu hospitais dispostos a aumentar a proporção de partos vaginais sem piorar os desfechos, o que é a parte difícil: qualquer indicador de processo pode ser melhorado às custas de segurança, e em obstetrícia isso seria inaceitável. Por isso o acompanhamento incluía desde o início indicadores de equilíbrio, para garantir que a mudança na via de parto não estivesse produzindo dano.

O que os hospitais participantes testaram não foi uma medida única, e sim um conjunto de mudanças no modelo de assistência: ambiência do parto, presença de acompanhante, uso de métodos não farmacológicos para alívio da dor, revisão dos critérios de indicação de cesárea, e mudança na forma como a gestante é informada e participa da decisão. Cada hospital testou o que fazia sentido na própria realidade, e o colaborativo espalhou o que funcionava.

Saúde em Nossas Mãos: reduzir infecção em UTI, em rede

O segundo programa atacou infecções associadas à assistência em unidades de terapia intensiva, principalmente as relacionadas a cateter central, ventilação mecânica e cateter vesical. Também organizado como colaborativo, envolveu dezenas de hospitais públicos brasileiros, com apoio técnico e medição padronizada.

A estrutura da intervenção segue o que a literatura de segurança consolidou: pacotes de práticas para inserção e manutenção de dispositivos, com verificação de adesão. Mas o ponto que costuma passar despercebido é outro. O que diferencia os serviços que sustentaram o ganho dos que voltaram ao patamar anterior não foi a adoção do pacote: foi a medição contínua da adesão e do resultado, lida no tempo.

É exatamente aí que entra a leitura correta dos dados. Um mês com mais infecções não é necessariamente piora, e um mês sem nenhuma não é vitória. A carta de controle aplicada à taxa de infecção é o que separa oscilação normal de mudança real, e evita tanto a comemoração precipitada quanto a investigação inútil.

O que os cases não mostram

Apresentações de resultado comprimem meses em dois slides, e isso esconde três coisas que quem vai repetir precisa saber. A primeira é o tempo: em programas desse porte, os primeiros ciclos raramente produzem efeito visível no indicador, e a curva só se move depois que várias mudanças pequenas se acumulam.

A segunda são as tentativas que não funcionaram. Cada mudança adotada no fim costuma ter atrás de si outras que foram testadas e descartadas, e é justamente por terem sido testadas em escala pequena que o descarte saiu barato. A terceira é a variação entre serviços: num colaborativo com dezenas de hospitais, os resultados não são iguais, e entender por que alguns avançaram mais é parte do aprendizado da rede. A aplicação estruturada desse raciocínio no ambiente hospitalar é o que se chama de Lean Healthcare.

O que um hospital pode levar desses cases

Comece pelo indicador, com definição escrita. Antes de qualquer mudança, defina o que será medido, como, por quem e com que frequência. Nos dois programas, a padronização da medição veio antes da intervenção, e foi o que tornou o aprendizado comparável entre serviços.

Teste em escala pequena antes de mudar o protocolo. Uma ala, um turno, um grupo de pacientes. Mudança implantada de uma vez em toda a instituição não permite aprender e, em ambiente assistencial, aumenta risco desnecessariamente.

Declare o indicador de equilíbrio. No Parto Adequado, os desfechos maternos e neonatais; em fluxo, a reinternação; em tempo de permanência, a segurança da alta. Sem esse segundo número, é impossível distinguir melhoria de troca de problema.

Não confunda adesão com resultado. Medir que o pacote foi aplicado em 90% dos casos é indicador de processo, e é essencial. Ele não substitui o indicador de resultado, que é a infecção em si. Os dois andam juntos, como mostram os indicadores de segurança do paciente.

Aprenda em rede, mesmo sem colaborativo formal. Duas unidades do mesmo hospital, testando a mesma mudança e comparando resultados com a mesma definição, já reproduzem boa parte do mecanismo.

Por que o método é o mesmo fora da saúde

Nenhum dos dois programas usou uma ferramenta exclusiva da saúde. Usaram o Modelo de Melhoria: o que queremos realizar, como saberemos que uma mudança é uma melhoria, e que mudanças podemos fazer. O que muda em relação a um projeto industrial é o custo do erro e o vocabulário, não o raciocínio.

Essa é a base que o Prof. Dr. Ademir J. Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974, trouxe para o Brasil e leva ao ambiente hospitalar como faculty do Institute for Healthcare Improvement. Ele coordenou a tradução brasileira de Modelo de Melhoria, e o trabalho desenvolvido por ele na Unicamp influenciou a definição operacional de melhoria publicada por Langley e colegas.

Para quem quer conduzir um projeto assim no próprio serviço, o caminho passa por dominar o método antes da ferramenta: delimitar o problema, definir indicador com precisão, testar mudança em escala pequena e ler a série no tempo. É o que a formação Green Belt na saúde desenvolve, e exemplos de recortes de projeto que funcionam estão em exemplos de projeto Green Belt.

Os cases impressionam pelos números finais. O que vale copiar é o que veio antes deles.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi o mecanismo dos colaborativos de melhoria e a atualização da referência internacional sobre proporção de cesáreas.


O que sustenta um case é o método por trás dele: indicador definido, mudança testada e resultado lido no tempo. O White Belt gratuito da EDTI cobre essa base, e o curso de Lean Healthcare aplica o raciocínio aos indicadores assistenciais.

Perguntas frequentes

O que é um colaborativo de melhoria na saúde?

É um arranjo em que vários serviços trabalham o mesmo problema ao mesmo tempo, com método comum e medição padronizada, alternando encontros de aprendizado com períodos em que cada equipe testa mudanças na própria realidade. O aprendizado de um serviço vira teste no outro.

Quais são os principais programas brasileiros de melhoria na saúde?

Dois dos mais conhecidos são o Parto Adequado, voltado a aumentar a proporção de partos vaginais sem piorar desfechos, e o Saúde em Nossas Mãos, voltado a reduzir infecções associadas à assistência em unidades de terapia intensiva. Os dois foram organizados como colaborativos, com dezenas de hospitais.

Por que a medição padronizada é tão importante nesses programas?

Porque sem definição operacional idêntica cada serviço mede uma coisa diferente, e a comparação perde sentido. A padronização é o que permite que um hospital aprenda com o resultado do outro e que a rede identifique o que de fato funciona.

Como começar um projeto de melhoria no meu serviço?

Escolhendo um indicador que já é acompanhado, escrevendo a definição de como ele é medido, levantando a linha de base em série no tempo e testando uma única mudança em uma unidade ou turno antes de estender. E declarando, desde o início, o indicador de equilíbrio que não pode piorar.

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