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Gerenciamento de riscos: o que é e por que a matriz não basta

“Esse risco estava na matriz. Amarelo, probabilidade baixa, plano de resposta: acompanhar.” Foi o que a gerente do projeto de ampliação de uma linha de envase respondeu quando a diretoria perguntou por que a partida tinha atrasado cinco semanas. O molde da máquina nova chegou 34 dias depois da data combinada com o fornecedor.

A matriz estava certa pelo manual: o risco tinha sido identificado, classificado, colocado na cor certa e assinado na reunião de abertura. O problema não foi falta de gerenciamento de riscos no papel. Foi que o número que sustentava a cor (probabilidade de 10% de atraso) tinha sido estimado na reunião, e ninguém voltou a olhar para ele.

O que é gerenciamento de riscos

Gerenciamento de riscos é o processo contínuo de identificar o que pode afetar um objetivo, avaliar a chance e o efeito de cada evento e decidir o que fazer antes que ele aconteça. A palavra que mais pesa na definição é “contínuo”: risco não é uma lista fechada no início do projeto, é uma estimativa que muda conforme os dados chegam.

Etapa (ISO 31000:2018) Pergunta que responde Erro comum
Escopo, contexto e critérios Qual objetivo está em jogo e que nível de risco aceitamos? Pular e começar pela lista de riscos
Identificação O que pode acontecer, e por quê? Listar só o que a equipe já viu acontecer
Análise Com que probabilidade e com que efeito? Estimar a probabilidade na reunião, sem dado
Avaliação Isso está acima do que aceitamos? Cor da matriz decidida por consenso
Tratamento Evitar, reduzir, transferir ou aceitar? “Acompanhar” sem dizer o quê nem com que número
Monitoramento e análise crítica A estimativa continua valendo? A matriz não é aberta depois da abertura
Comunicação, consulta, registro e relato Quem precisa saber, e onde fica a evidência? O registro existe, mas ninguém decide com ele

A tabela segue a estrutura do processo descrito na ISO 31000:2018, a diretriz internacional de gestão de riscos. O detalhamento da norma, com princípios e estrutura, está na página da ISO 31000; aqui o foco é a decisão de quem gerencia um projeto ou uma operação.

Dois gerentes, o mesmo fornecedor

Numa outra unidade da mesma empresa, um segundo gerente montava um projeto parecido, com o mesmo fornecedor de moldes e seis entregas críticas no cronograma. Ele colocou o mesmo risco na matriz, mas antes de escolher a cor foi buscar o histórico de pedidos: 48 entregas desse fornecedor nos 12 meses anteriores, 11 atrasadas. Proporção de atraso: 22,9%, mais que o dobro dos 10% da outra matriz.

A diferença parece pequena até virar a pergunta que interessa ao projeto: qual a chance de pelo menos uma das seis entregas atrasar? Com 10% por entrega, a conta dá 1 − 0,9⁶ = 47%. Com os 22,9% medidos, dá 1 − 0,771⁶ = 79%. O risco que a primeira matriz chamava de baixo era, na prática, quase certo de acontecer pelo menos uma vez no projeto. Os atrasos do histórico tinham média de 19 dias, o que bastava para empurrar a partida.

Com esse número, o tratamento deixou de ser “acompanhar”. O segundo gerente antecipou em três semanas os dois pedidos que estavam no caminho crítico, qualificou um segundo fornecedor para um deles e definiu um indicador simples: a proporção mensal de entregas atrasadas do fornecedor, num gráfico ao longo do tempo, revisado na reunião do projeto. A predição registrada foi “no máximo uma entrega crítica atrasada, absorvida pela folga”.

Gerenciamento de riscos: conceito e definição completa

O que é gestão de riscos, então? O conceito de gestão de riscos que sai desse caso é mais preciso que o da maioria dos manuais. Risco é o efeito da incerteza sobre um objetivo. Gerenciar riscos é tratar essa incerteza como uma variável que se mede, e não como um rótulo que se dá. A probabilidade de um evento não é uma opinião sobre o fornecedor; é uma proporção que o processo do fornecedor produz, e que muda com o tempo.

Por isso o gerenciamento dos riscos tem duas metades. A primeira é a avaliação: identificar, analisar e classificar. A segunda é a que costuma faltar: o monitoramento de riscos, ou monitorização de risco, como se diz em Portugal, que reabre a estimativa sempre que chega dado novo. Avaliação e gerenciamento de riscos sem a segunda metade produzem um documento correto no dia em que foi feito e cada vez menos verdadeiro a partir dali.

O risco também pode ser positivo. Uma entrega que chega antes, um preço de insumo que cai, uma equipe que aprende mais rápido do que o previsto. A ISO 31000 trata essas incertezas favoráveis como oportunidades, com a mesma lógica: estimar, decidir e acompanhar.

Processos de gerenciamento de risco: como fazer

Na prática, os processos de gerenciamento de risco cabem em cinco passos que qualquer equipe consegue repetir:

  1. Escrever o objetivo e o critério. “Partida da linha até 30/03, com até 5% de variação no orçamento.” Sem isso, não se sabe o que é um risco relevante.
  2. Identificar com quem conhece o processo. Brainstorming, histórico de projetos anteriores, lições aprendidas e a pergunta “o que fez o último projeto atrasar?”.
  3. Estimar probabilidade e impacto com dado sempre que existir. Histórico de entregas, de falhas de equipamento, de rotatividade. A matriz de risco organiza o resultado; ela não substitui a estimativa.
  4. Escolher a resposta e o indicador. Evitar, reduzir, transferir ou aceitar, sempre com uma medida que diga se a resposta está funcionando.
  5. Monitorar em ritmo fixo. O risco volta à pauta com o indicador atualizado; o que mudou de patamar muda de cor.

Plano de gerenciamento de riscos

O plano de gerenciamento de riscos é o documento que registra esses cinco passos para um projeto: critérios de aceitação, responsáveis, frequência de revisão, a lista de riscos com estimativa e resposta, e os indicadores de acompanhamento. Na gestão de projetos, ele costuma ser um anexo do plano do projeto; o que separa um plano útil de um protocolo é a última coluna, a do indicador, ter dado novo a cada revisão.

Controle de riscos em projetos e medidas de controle de risco

Controle de risco é o conjunto de ações que reduzem a chance ou o efeito de um evento. As medidas de controle de risco mais usadas em projetos são quatro: evitar (mudar o plano para que o evento não possa ocorrer, como trocar a tecnologia), reduzir (antecipar pedido, criar folga, testar antes), transferir (seguro, cláusula contratual, terceirização) e aceitar (com reserva de contingência e gatilho definido).

Resposta Exemplo no caso do molde Indicador que diz se funcionou
Reduzir Pedido antecipado em 3 semanas Folga restante no caminho crítico
Evitar Segundo fornecedor qualificado Proporção de pedidos com alternativa pronta
Transferir Multa contratual por atraso Custo de atraso recuperado
Aceitar Reserva de 10 dias no cronograma Dias de reserva consumidos

O controle de riscos em projetos falha, quase sempre, na mesma etapa: a resposta é escolhida e nunca medida. “Acompanhar o fornecedor” não é controle; controle é saber, todo mês, se a proporção de atrasos dele está no patamar de 23% ou mudou. Para isso, o instrumento certo é um gráfico ao longo do tempo com limites calculados, como a carta de controle, que separa a oscilação normal de uma mudança real de patamar.

Importância do gerenciamento de riscos

Por que é a gestão de risco tão importante? Porque a maior parte das surpresas de um projeto não é surpresa: estava no histórico. A importância do gerenciamento de riscos está em trocar a reação pela decisão antecipada, enquanto ainda há opções baratas (antecipar um pedido custa pouco; acelerar uma obra parada custa muito). Para a organização, o efeito acumulado aparece no portfólio de projetos: menos projetos atrasados ao mesmo tempo, menos recurso deslocado às pressas de um para outro.

Diferenças entre gestão de riscos e gerenciamento de riscos

No uso corrente em português, os dois termos aparecem como sinônimos. Quando se faz distinção, gestão de riscos é o sistema da organização (política, estrutura, papéis, apetite a risco), e gerenciamento de riscos é o processo aplicado a um projeto, área ou operação. A gestão de risco corporativo (em inglês, ERM) olha a carteira inteira de riscos da empresa: estratégicos, financeiros, operacionais e de conformidade. O gerenciamento de riscos de um projeto é uma das peças que alimentam essa carteira. Gerência de riscos é outra forma de dizer a mesma função.

Gerenciamento de riscos na segurança do trabalho

Na segurança do trabalho, o gerenciamento de riscos de segurança tem nome e regra própria: o Programa de Gerenciamento de Riscos, exigido pela NR-1. Quem procura gerência de riscos em segurança do trabalho encontra o que precisa no artigo sobre o PGR; a lógica é a mesma desta página, aplicada a perigos ocupacionais e com inventário de riscos obrigatório.

Ferramentas que se conectam ao gerenciamento de riscos

Cada ferramenta responde a uma parte do processo. A análise preliminar de risco é a primeira varredura, antes de uma atividade nova. O mapa de risco mostra os riscos no espaço físico, para quem trabalha no local. O FMEA desce ao nível de cada modo de falha de um processo ou produto e é a ferramenta mais usada em projetos de melhoria. Nos projetos conduzidos por um Black Belt, o FMEA e o plano de controle são justamente o ponto em que a análise de risco vira rotina de processo, e não documento do projeto.

O que aconteceu com os dois projetos

No projeto do segundo gerente, uma das seis entregas críticas atrasou, 8 dias, e foi absorvida pela antecipação: a partida saiu na data. Ao longo dos seis meses, a proporção mensal de atrasos do fornecedor ficou entre 18% e 27%, sem sinal de mudança de patamar. A predição se confirmou, e o indicador mostrou que o risco nunca tinha sido baixo.

No projeto da primeira gerente, a matriz não estava errada no formato. Estava errada no número, e o formato escondia isso. O próximo projeto dela começou pelo histórico de entregas, e o risco do molde abriu vermelho. A frase da diretoria mudou de “por que atrasou?” para “o que fizemos com o vermelho?”, que é a única pergunta que um gerenciamento de riscos bem feito permite responder antes do fato.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a probabilidade de risco como proporção medida no tempo, e não como cor escolhida em reunião.


Estimar risco com dado e acompanhá-lo em gráfico de controle é método, não intuição. A certificação Green Belt da Escola EDTI ensina esse método dentro de um projeto conduzido do início ao fim.

Perguntas frequentes

O que é gerenciamento de riscos em poucas palavras?

É o processo contínuo de identificar o que pode afetar um objetivo, estimar probabilidade e impacto, escolher uma resposta e acompanhar se a estimativa continua valendo. A parte contínua, o monitoramento, é a que mais falta na prática.

Quais são as etapas do gerenciamento de riscos?

Pela ISO 31000:2018: estabelecer escopo, contexto e critérios; identificar, analisar e avaliar os riscos; tratá-los; monitorar e analisar criticamente; e, em todas as etapas, comunicar, consultar, registrar e relatar.

Qual a diferença entre risco e problema?

Risco é um evento incerto que ainda não aconteceu; problema é o que já aconteceu e precisa de solução. O gerenciamento de riscos existe para que menos riscos virem problemas, e o histórico de problemas é a melhor fonte para estimar riscos.

O que é monitoramento de riscos?

É a revisão periódica de cada risco com dado atualizado: a probabilidade estimada continua a mesma? a resposta está funcionando? Um gráfico ao longo do tempo do indicador do risco mostra se houve mudança de patamar ou só oscilação normal.

Quem é responsável pelo gerenciamento de riscos de um projeto?

O gerente do projeto coordena o processo, mas cada risco precisa de um responsável que acompanhe o indicador e acione a resposta. O patrocinador decide sobre os riscos que passam do nível aceito.

Matriz de risco é suficiente?

Não. A matriz organiza e comunica a avaliação, mas a qualidade dela depende da estimativa de probabilidade e impacto que está por trás de cada célula, e essa estimativa precisa ser revista conforme os dados chegam.

Qual a diferença entre saber gerenciar riscos e saber melhorar processos?

Gerenciar riscos é antecipar o que pode dar errado num objetivo; melhorar processos é mudar o sistema que produz esses eventos, como o processo de entrega de um fornecedor. As duas competências usam o mesmo raciocínio estatístico, e a formação Green Belt da Escola EDTI trabalha as duas dentro do mesmo método.

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