As reclamações do maior cliente da fábrica de embalagens eram sempre as mesmas: atraso. Em um trimestre, 34 reclamações, e 62% delas diziam respeito a prazo de entrega. A diretoria decidiu atacar o atraso, montou um projeto e começou a discutir estoque de segurança e turno extra.
Antes de gastar, alguém foi olhar os dados de entrega. A empresa entregava no prazo 94% dos pedidos, um número bom para o setor. O problema estava em outro lugar: dos pedidos atrasados, só 18% tinham sido avisados antes. Nos outros, o cliente descobria o atraso quando o caminhão não chegava, com a linha de produção dele parada esperando. O cliente dizia “atraso”. O que ele precisava era previsibilidade.
Ouvir a voz do cliente é isso: separar o que o cliente diz do que ele precisa, e as duas coisas do que ele faz. Sem essa separação, a empresa atende à reclamação e erra o problema.
O que é a voz do cliente
Voz do cliente, ou VOC, na sigla em inglês, é o conjunto de informações sobre as necessidades, expectativas e percepções de quem recebe o produto ou serviço, coletadas de forma estruturada para orientar decisões de melhoria e de projeto. A palavra que importa na definição é estruturada: a voz do cliente não é a soma das opiniões que chegam por acaso, e sim informação coletada com método, de fontes escolhidas, sobre perguntas definidas antes.
O cliente pode ser externo, quem compra, ou interno, a área seguinte no processo. A lógica é a mesma nos dois casos. Um almoxarifado que abastece a produção tem a produção como cliente, e as necessidades dela precisam ser ouvidas com o mesmo rigor que as de quem paga a nota fiscal.
As quatro fontes, e a que quase ninguém usa
As fontes da voz do cliente podem ser organizadas em duas dimensões: quem toma a iniciativa, o cliente ou a empresa, e o tipo de informação, o que o cliente diz ou o que o cliente faz.
Reclamações e chamados. Chegam sem esforço, e por isso são a fonte mais usada. O problema é o viés: só reclama quem está insatisfeito o bastante para se dar ao trabalho, e a reclamação vem na linguagem do cliente, que descreve o sintoma e raramente a causa. É a fonte do caso da abertura. O tratamento sistemático dessa fonte está em gestão de reclamações.
Pesquisas e entrevistas. A empresa pergunta, e o resultado depende de como pergunta. Uma pesquisa de satisfação com nota média de 7,8 diz pouco sobre o que fazer; uma entrevista bem conduzida com cinco clientes pode dizer muito. Os limites das métricas de satisfação estão em os perigos da satisfação do cliente, e o indicador mais popular dessa família, o NPS, tem os mesmos cuidados.
Devoluções, cancelamentos e dados de uso. O que o cliente faz, e não o que ele diz. Quem cancela, em que momento, depois de quê; que produto volta, com que defeito; que parte do serviço é usada e qual é ignorada. Essa fonte não tem o viés da reclamação nem o da pergunta mal feita, e costuma estar nos sistemas da empresa sem que ninguém a trate como voz do cliente.
Observação direta. Ver o cliente usando o produto ou recebendo o serviço, no lugar onde isso acontece. É a fonte mais trabalhosa e a mais reveladora, porque mostra necessidades que o cliente não sabe expressar. É a mesma lógica do gemba, aplicada ao lado de fora da empresa.
A maioria das empresas usa só a linha de cima: o que o cliente diz, espontaneamente ou quando perguntado. A linha de baixo, o que ele faz, fica de fora, e é justamente a que corrige os vieses da primeira.
O caso das embalagens, completo (situação-tipo construída para este texto)
A empresa cruzou as fontes. As reclamações diziam atraso. Os dados de entrega diziam 94% no prazo. A visita ao cliente, na linha de produção dele, mostrou o que faltava: quando um pedido atrasava sem aviso, a linha parava, e o custo para o cliente era muito maior que o próprio atraso. Quando o atraso era avisado com dois dias de antecedência, o cliente reprogramava e o impacto era pequeno.
A mudança testada não foi reduzir atrasos, que já eram poucos. Foi avisar todo atraso previsto com pelo menos 48 horas de antecedência, a partir de uma checagem diária da carteira de pedidos. A proporção de pedidos entregues no prazo continuou praticamente a mesma. As reclamações sobre prazo, no trimestre seguinte, caíram de 21 para 9.
O estoque de segurança e o turno extra, que estavam sendo discutidos, teriam custado caro e atacado o problema errado. A reclamação dizia uma coisa; a necessidade era outra.
Do que o cliente diz ao que dá para medir
A voz do cliente só serve para melhorar processo quando é traduzida em algo mensurável. “Entrega confiável” é uma necessidade; “proporção de atrasos avisados com 48 horas de antecedência” é um requisito com definição operacional, que pode virar indicador e meta. Essa tradução, da fala do cliente à necessidade e da necessidade ao requisito crítico para a qualidade, é feita de forma sistemática pela árvore de requisitos críticos, e os requisitos resultantes são os CTQs do projeto.
Nem todo requisito pesa igual na satisfação. Alguns são obrigatórios e só aparecem quando faltam; outros aumentam a satisfação à medida que melhoram; outros encantam quando existem e não fazem falta quando não existem. Essa classificação é o modelo Kano, e ajuda a decidir onde investir. No caso das embalagens, o aviso de atraso era um requisito obrigatório: ninguém elogiava quando existia, e a ausência gerava a reclamação.
Quando a voz do cliente orienta o projeto de um produto ou serviço novo, a tradução vai um passo além, relacionando cada requisito às características técnicas que o entregam, que é o que faz o QFD.
Os erros mais comuns
Tratar a reclamação como diagnóstico. A reclamação é sintoma na linguagem do cliente, e a causa quase sempre está em outro lugar.
Perguntar o que o cliente quer e aceitar a resposta literal. Clientes descrevem soluções que conhecem, não necessidades. Pedir “entrega mais rápida” pode significar “entrega previsível”.
Resumir tudo numa nota média. Uma média de satisfação esconde grupos de clientes com necessidades opostas. Separar por tipo de cliente, por produto e por canal, com estratificação, costuma revelar mais que qualquer média.
Ouvir uma vez e parar. Necessidades mudam, e a voz do cliente precisa ser acompanhada no tempo como qualquer outro indicador de processo.
Coletar a voz do cliente com método, traduzi-la em requisito mensurável e usá-la para escolher o que melhorar é o começo de qualquer projeto bem conduzido, e é por onde a formação Green Belt começa a fase de definição.
A fábrica de embalagens não precisou entregar mais rápido. Precisou avisar antes. Descobriu isso quando parou de ler só as reclamações e foi olhar o que acontecia na linha do cliente.
Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a distinção entre o que o cliente diz, o que ele precisa e o que ele faz, e a tradução da voz do cliente em requisito mensurável.
Ouvir o cliente com método é o primeiro passo de qualquer melhoria que importa para quem recebe o resultado. O White Belt gratuito da EDTI cobre essa base, com definição de problema, indicadores e dados no tempo.
Perguntas frequentes
O que é voz do cliente?
É o conjunto de informações sobre necessidades, expectativas e percepções de quem recebe um produto ou serviço, coletadas de forma estruturada para orientar melhorias e projetos. O cliente pode ser externo ou interno, como a área seguinte no processo.
Quais são as fontes da voz do cliente?
Reclamações e chamados, pesquisas e entrevistas, dados de devolução, cancelamento e uso, e observação direta. As duas primeiras mostram o que o cliente diz; as duas últimas, o que ele faz. Usar só as primeiras é o erro mais comum.
Como coletar a voz do cliente?
Definindo antes as perguntas que se quer responder, escolhendo fontes que se complementem e cruzando o que o cliente diz com o que ele faz. Entrevistas em profundidade com poucos clientes e observação no local de uso costumam revelar mais que pesquisas amplas com perguntas genéricas.
Qual a diferença entre voz do cliente e pesquisa de satisfação?
A pesquisa de satisfação é uma das fontes da voz do cliente, e mede percepção. A voz do cliente é mais ampla: inclui necessidades não expressas, comportamento real e requisitos que só aparecem quando faltam.
Como transformar a voz do cliente em requisitos?
Traduzindo a fala do cliente em necessidade, e a necessidade em requisito mensurável, com definição operacional e meta. A árvore de requisitos críticos organiza esse desdobramento, e o resultado são os CTQs, os requisitos críticos para a qualidade.
O que é cliente interno?
É a área ou pessoa que recebe o resultado do trabalho de outra dentro da mesma organização, como a produção em relação ao almoxarifado. As necessidades do cliente interno precisam ser ouvidas com o mesmo método usado para o cliente externo.
Com que frequência ouvir o cliente?
De forma contínua, acompanhando indicadores ao longo do tempo, e com levantamentos mais profundos sempre que um projeto de melhoria ou de produto novo começa. Necessidades mudam, e uma escuta feita uma única vez envelhece rápido.
O que significa VOC? Pesquisei e até o momento não consegui identificar o que sgnifica… Agradeço retorno,
Com os melhores cumprimentos,
Simone Sarges
Voice of Customer – Voz do Cliente