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Cultura da qualidade: o que é, como reconhecer e como desenvolver na prática

São 22h40 do dia 30. Na injeção de peças plásticas, a operadora do turno da noite separa três tampas com rebarba na borda e chama o supervisor. Faltam 1.800 peças para fechar o embarque do mês, e o caminhão sai às 6h. O supervisor olha as peças, olha o relógio e decide: “segue, a inspeção final pega”.

Na manhã seguinte, três pessoas descrevem a mesma fábrica. O gerente diz que ali qualidade é prioridade, e aponta o quadro na recepção. O supervisor diz que fechou o mês, como foi cobrado. A operadora não diz nada, mas aprendeu uma coisa que nenhum treinamento vai desfazer tão cedo: avisar não adianta. Os três estão sendo sinceros. E é por isso que o assunto é difícil.

O que é cultura da qualidade

Cultura da qualidade é o conjunto de comportamentos que a organização de fato recompensa, tolera e pune quando a qualidade entra em conflito com prazo, volume ou custo. A definição é propositalmente estreita. Enquanto não há conflito, toda empresa é a favor da qualidade, e nada se aprende observando. A cultura só fica visível no momento em que fazer o certo custa alguma coisa a alguém.

Isso a separa da política da qualidade, com a qual costuma ser confundida. A política é o que a empresa declara e promete; a cultura é o que acontece às 22h40. As duas podem coincidir, e o trabalho inteiro consiste em fazê-las coincidir. Mas a segunda não se altera editando a primeira. O mecanismo geral por trás disso, o sistema de consequências que ensina às pessoas o que realmente importa, vale para qualquer valor da empresa e está desenvolvido em cultura organizacional. Aqui interessa o recorte da qualidade.

Os três momentos em que a cultura aparece

Dá para reconhecer a cultura da qualidade de uma operação sem pesquisa de clima e sem consultoria. Basta observar o que acontece em três situações que se repetem toda semana.

A primeira é quando alguém vê um problema. A pergunta é se avisar tem custo pessoal. Quem aponta um defeito ganha fama de quem atrapalha? Precisa preencher sozinho um formulário de duas páginas? Ouve que “sempre foi assim”? Onde avisar custa caro, as pessoas param de avisar, e a gestão passa a acreditar que os problemas diminuíram.

A segunda é quando avisar exige parar. Aqui a pergunta é quem tem autoridade para interromper a produção e o que acontece com a meta de quem interrompe. O andon existe para dar essa autoridade a quem está no posto, mas a corda só é puxada onde puxá-la não derruba o resultado do turno. Se a parada conta contra o supervisor, ele vai fazer o que o supervisor das 22h40 fez, e não por falta de caráter.

A terceira é quando o problema chega ao cliente. A reunião que se segue procura uma pessoa ou procura o ponto do processo que deixou o defeito passar? Onde se procura a pessoa, a lição aprendida por todos os outros é esconder melhor da próxima vez.

Como medir: o indicador que o quadro da recepção não mostra (situação-tipo construída para este texto)

Cultura parece coisa impossível de medir, e por isso costuma ser tratada com campanha. Mas existe um indicador simples, que quase toda empresa já tem os dados para calcular: quem detecta as não conformidades. Pegue os registros de um período e classifique cada um pela origem da detecção: quem opera o processo, a inspeção final ou o cliente.

Na fábrica das 22h40, os doze meses anteriores tinham 412 não conformidades registradas. Dessas, 31 foram abertas por operadores, 268 pela inspeção final e 113 vieram de reclamação de cliente. Em proporção: 7,5%, 65% e 27,4%. O retrato é o de uma operação em que quem está mais perto do defeito quase nunca fala, e em que mais de um quarto dos problemas só aparece depois de embarcado. Esse é o indicador de processo da cultura: ele mostra se o comportamento declarado na política está acontecendo de fato.

A fábrica mudou três regras, uma de cada vez. Lote segregado por suspeita deixou de contar contra a meta de volume do turno. A primeira resposta do líder a um aviso passou a ser padronizada: agradecer e ir ver a peça no posto. E quem avisou passou a receber retorno, em até dois dias, sobre o que foi feito com o aviso. Nos nove meses seguintes, a proporção de não conformidades abertas por operadores foi de 7%, 9%, 8%, 12%, 15%, 19%, 22%, 26% e 29%. São seis altas consecutivas a partir do terceiro mês, mais que as cinco que o Modelo de Melhoria pede para tratar uma sequência como tendência e não como acaso. No mesmo período, a fatia detectada pelo cliente caiu mês a mês, de 27% para 11%, sem voltar ao patamar anterior.

Há um detalhe que assusta quem não está preparado: o total de registros subiu, de cerca de 34 para mais de 50 por mês. A operação não piorou. Ela passou a enxergar o que antes ia embora no caminhão. Gestor que comemora a queda no número de não conformidades, sem olhar quem as detecta, pode estar comemorando o silêncio.

Como desenvolver a cultura da qualidade: o que muda comportamento e o que não muda

O que não muda comportamento é conhecido, porque é o que mais se faz: campanha de conscientização, cartaz, palestra motivacional, semana temática, revisão do texto da política. Nada disso é prejudicial. Só não toca no que ensinou a operadora a ficar quieta, que foi uma decisão tomada na frente dela, numa noite de fechamento.

O que muda comportamento é alterar a consequência. Comece pelo custo de avisar: simplifique o registro, tire a parada por qualidade da conta de quem parou, faça o líder ir ao posto em vez de chamar a pessoa à sala. Deming colocou isso entre os seus 14 pontos com uma formulação curta, afastar o medo, e a colocou ali porque sem ela nenhum dos outros funciona: quem tem medo não relata, e quem não relata fornece dados errados para todas as decisões seguintes.

Depois, feche o ciclo. Aviso que some num sistema ensina que avisar é inútil, com a mesma eficiência de uma bronca. E, por fim, dê à liderança o preparo técnico para separar o que é da pessoa do que é do processo. Essa separação não é questão de opinião: exige ler a variação do processo e conduzir uma análise de causa com dados, que é o trabalho para o qual um Green Belt é formado. Sem essa competência por perto, a reunião sobre a reclamação do cliente termina sempre no mesmo lugar, que é um nome.

Uma observação sobre ritmo: mude uma regra por vez e acompanhe o indicador de origem da detecção. Cultura responde devagar, e quem muda tudo no mesmo mês nunca descobre o que fez o operador voltar a falar.

Onde a cultura da qualidade encosta em outros assuntos

Três vizinhos aparecem sempre que este tema é discutido, e cada um tem território próprio. O sistema formal, com seus princípios, responsabilidades e ordem de implantação, é assunto de gestão da qualidade; a cultura é o que decide se esse sistema funciona ou apenas existe. A condição que permite a alguém falar sem medo de retaliação tem nome, construto e forma de medir, e está em segurança psicológica. E o critério para responder a um erro sem cair nem na punição automática nem na impunidade é o tema de cultura justa.

O erro da próxima segunda-feira

Quem termina de ler sobre cultura da qualidade costuma sair com vontade de lançar alguma coisa: um programa, um lema, um evento. É o erro mais provável da próxima segunda-feira, e o mais barato de evitar. Em vez disso, peça os registros de não conformidade dos últimos meses e classifique cada um por quem detectou. Leva uma tarde, não exige orçamento e mostra onde a sua operação está entre o quadro da recepção e as 22h40.

Na fábrica do exemplo, outro dia 30 chegou oito meses depois, com outro lote suspeito perto da meia-noite. A operadora segregou as peças sem chamar ninguém, porque a regra já era essa. O caminhão saiu com o embarque incompleto e o cliente foi avisado às 7h. Ninguém fez discurso sobre qualidade naquela manhã. Não precisava.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi o indicador de origem da detecção como medida de processo da cultura da qualidade e a leitura da série no tempo.


O que acontece às 22h40 é decidido muito antes, pelo modo como líderes e analistas aprenderam a olhar para um processo. O White Belt gratuito da EDTI é onde esse modo de olhar começa a ser construído.

Perguntas frequentes

O que é cultura da qualidade?

É o conjunto de comportamentos que a organização de fato recompensa, tolera e pune quando a qualidade entra em conflito com prazo, volume ou custo. Ela se revela nas decisões tomadas sob pressão, não nos documentos. Por isso duas empresas com a mesma certificação podem ter culturas da qualidade opostas.

Qual a diferença entre cultura da qualidade e gestão da qualidade?

Gestão da qualidade é o sistema formal: política, procedimentos, responsabilidades, indicadores, auditorias. Cultura da qualidade é o comportamento real das pessoas diante desse sistema. A gestão pode ser implantada por projeto; a cultura só muda quando mudam as consequências de avisar, de parar e de errar.

Como implementar a cultura da qualidade em uma empresa?

Reduzindo o custo pessoal de apontar problemas, dando autoridade real para interromper o processo, fechando o ciclo com quem avisou e preparando a liderança para analisar o processo antes de procurar culpados. Mude uma regra por vez e acompanhe um indicador, para saber o que funcionou.

Como medir a cultura da qualidade?

Um indicador prático é a origem da detecção das não conformidades: a proporção aberta por quem opera o processo, pela inspeção final e pelo cliente, acompanhada mês a mês. Quanto maior a parcela detectada na origem, mais a cultura declarada está sendo praticada. Pesquisas de percepção complementam, mas não substituem, esse dado.

Quais são os pilares da cultura da qualidade?

As listas variam, mas convergem para quatro: liderança que responde bem a más notícias, autoridade para parar diante de um problema, tratamento do erro voltado ao processo e decisões baseadas em dados lidos no tempo. Foco no cliente e padronização aparecem em muitas listas, mas pertencem mais ao sistema de gestão do que à cultura.

Cultura da qualidade é assunto só da área de qualidade?

Não, e esse é um dos sinais de maturidade. Quem decide se um problema é relatado ou escondido é o supervisor de produção, o comprador, o líder de logística. Por isso a formação em melhoria faz sentido fora do departamento da qualidade: os cursos da EDTI, a começar pelo White Belt gratuito, são frequentados por profissionais de produção, administrativo, saúde e serviços.

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