Em 1999, o Institute of Medicine dos Estados Unidos publicou um relatório com um número que mudou a conversa sobre qualidade assistencial no mundo inteiro: entre 44 mil e 98 mil americanos morriam por ano em hospitais em decorrência de erros evitáveis. O documento se chamava To Err Is Human.
O número era chocante, mas o que ele revelava não era ignorância clínica. A literatura já descrevia como prevenir a maior parte daquelas mortes. O conhecimento existia, estava publicado, era ensinado — e não chegava de forma confiável à beira do leito.
Esse é o problema que o Institute for Healthcare Improvement foi criado para atacar, e é por isso que ele não é uma instituição de pesquisa no sentido usual.
O que o IHI é, pelo que ele faz
O Institute for Healthcare Improvement é uma organização sem fins lucrativos, sediada em Boston, dedicada a melhorar a saúde e a assistência em escala mundial. Ele se define pela função: não produzir conhecimento novo sobre o que funciona, mas fazer com que aquilo que já se sabe que funciona aconteça de maneira confiável, em todo turno e em todo serviço.
Sua origem está no trabalho de Donald Berwick e colegas no fim dos anos 1980, no National Demonstration Project, que testou uma hipótese então incomum: os métodos de melhoria desenvolvidos na indústria poderiam ser aplicados à assistência à saúde. O instituto se constituiu formalmente em 1991.
Quatro linhas de atuação organizam o que ele produz.
Campanhas em larga escala. A mais conhecida é a campanha 100.000 Vidas, lançada em 2004, que mobilizou milhares de hospitais americanos em torno de um conjunto reduzido de intervenções com evidência estabelecida. A lógica não era descobrir o que fazer — era conseguir adesão confiável ao que já se sabia. Dela nasceram os bundles, pacotes de poucas medidas aplicadas juntas e verificadas como conjunto, hoje adotados mundialmente na prevenção de infecções relacionadas à assistência.
Publicações técnicas abertas. Os white papers da série Innovation, disponíveis gratuitamente, documentam métodos de disseminação, desenho de sistemas e condução de projetos. É material técnico de uso direto, não literatura acadêmica de circulação restrita.
Formação. A IHI Open School oferece cursos de ciência da melhoria e segurança do paciente para estudantes e profissionais, com capítulos em instituições de ensino de vários países — inclusive no Brasil.
Formulações conceituais. A mais influente é o Triple Aim, proposto em 2008: melhorar a experiência do cuidado, melhorar a saúde da população e reduzir o custo per capita são objetivos que precisam avançar juntos. A proposição é menos óbvia do que parece — ela afirma que ganho em um dos eixos obtido às custas dos outros dois não é melhoria do sistema, e essa formulação reorganizou a discussão sobre desempenho em saúde na década seguinte.
O método que o instituto adotou
O IHI não formulou seu próprio método. Adotou e difundiu o Modelo de Melhoria, desenvolvido por Langley, Nolan e colaboradores na Associates in Process Improvement — com suas três questões fundamentais e os ciclos PDSA de teste em pequena escala.
Essa escolha explica muita coisa sobre o instituto. Um método que exige declarar o objetivo com número, definir os indicadores antes de mudar e testar com um paciente antes de implantar no hospital inteiro é um método construído para a pergunta de execução, não para a pergunta de descoberta. É a diferença entre saber que o checklist funciona e conseguir que ele seja preenchido às três da manhã de domingo — que é onde a assistência real acontece.
O campo que se organizou em torno dessa pergunta tem nome, história e literatura própria, e está descrito em melhoria em saúde. O IHI é sua principal instituição de referência, não sua origem teórica.
Um caso que mostra a lógica
O Cincinnati Children’s Hospital Medical Center decidiu, em 2005, aplicar as lições da campanha 100.000 Vidas — concebida para pacientes adultos — à sua unidade de terapia intensiva pediátrica. As duas principais causas de mortalidade evitável ali eram pneumonia associada à ventilação mecânica e infecção de corrente sanguínea associada a cateter.
A equipe declarou objetivos com número e prazo: reduzir em 50% a taxa de PAVM, que partia de 5,6 por mil dias de ventilação, e sustentar o resultado por pelo menos dois trimestres; levar a taxa de infecção por cateter a valor igual ou inferior a 1,0 por mil dias de cateter central até junho de 2007. Adaptou os bundles do IHI à população pediátrica e organizou o trabalho como projeto colaborativo entre as três unidades de terapia intensiva da instituição.
O que interessa aqui não é o resultado clínico, mas o desenho. A instituição não inventou intervenções: adaptou pacotes cuja eficácia já estava demonstrada em outras organizações. O trabalho foi de execução confiável e verificação por indicadores acompanhados ao longo do tempo. É esse o padrão que o instituto difunde, e o caso está documentado em Modelo de Melhoria, entre os estudos de caso do livro.
O IHI e o Brasil
A influência chega ao país por três caminhos. Instituições brasileiras participam de programas e colaborativas internacionais; a Open School tem capítulos em escolas médicas e de enfermagem daqui; e profissionais brasileiros integram o corpo docente do instituto.
O Prof. Dr. Ademir J. Petenate — fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974 — é faculty do IHI. Ele coordenou a tradução brasileira de Modelo de Melhoria, publicada em 2011, e o trabalho que desenvolveu na Unicamp influenciou a definição operacional de melhoria publicada por Langley e colaboradores, reconhecimento documentado pelos próprios autores nas notas do livro.
O nome da EDTI vem desse mesmo corpo de método: Entender, Desenvolver, Testar, Implementar — as quatro fases do roteiro proposto por Langley.
Onde o IHI se diferencia da acreditação
Vale um contraste com a instituição que profissionais de saúde encontram com mais frequência no dia a dia. A acreditação hospitalar avalia: um agente externo verifica se a organização atende a padrões publicados, e concede ou não um certificado. É um mecanismo de verificação, com ciclo definido e resultado binário.
O IHI não avalia nem certifica instituições. Difunde método, forma pessoas e organiza esforços coletivos. Uma organização não é aprovada pelo IHI — ela adota, ou não, um modo de trabalhar.
A diferença tem consequência prática. Acreditação sem método de melhoria produz conformidade documentada com desfechos estáveis, que é a armadilha mais comum do setor. Método sem verificação externa produz esforço difuso sem padrão de referência. As duas coisas resolvem problemas distintos, e nenhuma substitui a outra.
| IHI | Acreditadora | |
|---|---|---|
| Natureza | Organização sem fins lucrativos de método e formação | Instituição avaliadora |
| O que entrega | Método, campanhas, publicações, cursos | Certificação com validade definida |
| Relação com a instituição | Adesão voluntária a um modo de trabalhar | Avaliação periódica contra padrões |
| Pergunta que responde | Como fazer o que já se sabe acontecer sempre? | Existe um sistema de gestão consistente? |
Por que uma instituição precisou existir para isso
O relatório de 1999 não revelou que faltava conhecimento clínico. Revelou que conhecimento publicado, ensinado e disponível não se converte sozinho em prática confiável — e que essa conversão é um problema técnico próprio, com métodos próprios, que ninguém estava tratando como tal.
É por isso que o IHI existe, e é por isso que segurança do paciente deixou de ser assunto de comitê e virou campo de trabalho. Escrever o protocolo é a parte barata. O que separa uma instituição que sabe de uma instituição que faz é método de implementação verificada — e essa distância, mais do que qualquer descoberta científica, é onde estão as mortes que o relatório contou.
Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.
Nesta revisão, o foco foi a delimitação do IHI como instituição de método e formação, distinta de órgãos avaliadores e certificadores.
A Escola EDTI ensina o mesmo corpo de método difundido pelo IHI — o Modelo de Melhoria de Langley, com ciclos PDSA e verificação por indicadores no tempo. A certificação White Belt em Lean Seis Sigma é gratuita e apresenta os fundamentos. Para quem conduz projetos de melhoria em serviços de saúde, a formação Green Belt é o passo seguinte.
Perguntas frequentes sobre o IHI
O que significa a sigla IHI?
IHI é a sigla de Institute for Healthcare Improvement, organização sem fins lucrativos sediada em Boston, nos Estados Unidos, dedicada à melhoria da saúde e da assistência em escala global.
O que o IHI faz?
Difunde métodos de melhoria aplicados à assistência por quatro vias: campanhas de larga escala envolvendo múltiplas instituições, publicações técnicas de acesso aberto, formação por meio da IHI Open School e formulação de conceitos orientadores, como o Triple Aim.
O que é o Triple Aim?
É a proposição de que três objetivos devem ser perseguidos simultaneamente: melhorar a experiência do cuidado, melhorar a saúde da população e reduzir o custo per capita. Sua força está em afirmar que avanço em um eixo obtido às custas dos outros não configura melhoria do sistema.
O IHI certifica hospitais?
Não. O IHI não é órgão acreditador nem certificador de instituições. Difunde método, publica material técnico e forma profissionais. A certificação de organizações de saúde é feita por instituições acreditadoras, que operam com outra lógica e outro objetivo.
O que é a IHI Open School?
É a plataforma de formação do instituto, voltada a estudantes e profissionais de saúde, com cursos em ciência da melhoria, segurança do paciente e liderança. Possui capítulos em instituições de ensino de diversos países, incluindo o Brasil.
Como estudar os métodos difundidos pelo IHI no Brasil?
O corpo de método é o Modelo de Melhoria, disponível em português desde 2011. Formações em Lean Seis Sigma e melhoria contínua cobrem a mesma base de variação, medição e teste. O White Belt gratuito da EDTI é um ponto de entrada sem custo, com exercícios aplicados.