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Acreditação hospitalar: o que é, os níveis da ONA e o que o selo não diz

Em 2015, um hospital brasileiro de grande porte recebeu a certificação de acreditação em seu nível mais alto. Quatorze meses depois, uma auditoria interna encontrou, na mesma instituição, uma taxa de infecção de corrente sanguínea em UTI acima do que a própria série histórica da casa registrava antes do processo de certificação.

Nada disso configura fraude, e o caso não é raro o bastante para ser anedota. É a consequência previsível de uma confusão que o setor inteiro carrega: acreditação avalia a existência e a consistência de um sistema de gestão. Ela não mede, e nunca se propôs a medir, se os resultados da assistência estão melhorando.

São duas perguntas diferentes, e a segunda é a que interessa ao paciente.

De onde veio a acreditação — e qual problema ela resolvia

A ideia nasce de uma constatação incômoda. Em 1917, o Colégio Americano de Cirurgiões formulou o que chamou de padrão mínimo hospitalar: cinco exigências básicas sobre organização do corpo clínico, registro dos prontuários e revisão dos resultados. Na primeira avaliação, feita em 692 hospitais de grande porte, apenas 89 cumpriam os cinco pontos. O relatório foi queimado na caldeira do hotel onde ocorreu a reunião, para evitar o constrangimento público das instituições reprovadas.

O problema que a acreditação foi criada para resolver era esse: variação descontrolada entre instituições. Dois hospitais na mesma cidade operavam com padrões incomparáveis, e não havia nenhum mecanismo externo capaz de dizer qual dos dois tinha um sistema minimamente organizado. A acreditação surge como uma resposta a esse vazio — um avaliador externo, com padrões públicos, verificando se existe um sistema.

No Brasil, a Organização Nacional de Acreditação (ONA) se estrutura no fim dos anos 1990 e publica seu manual próprio, hoje a referência nacional dominante. Instituições que buscam reconhecimento internacional recorrem a metodologias como a Joint Commission International ou o Qmentum, de origem canadense — cada uma com manual, ciclo e exigências próprias. O comparativo entre ONA e Joint Commission tem artigo dedicado; aqui interessa o que é comum às três.

Daí a definição que importa: acreditação hospitalar é um processo voluntário de avaliação externa e periódica, conduzido por uma instituição acreditadora, que verifica se os processos de uma organização de saúde atendem a padrões previamente publicados. Voluntário — não é fiscalização sanitária, que é obrigatória e tem outra natureza. Periódico — o selo tem validade e o ciclo recomeça. E de processos, não de desfechos.

Os três níveis da ONA

A metodologia brasileira é progressiva: cada nível exige o cumprimento integral do anterior. A lógica da progressão diz mais sobre o modelo do que a descrição de cada faixa.

Nível Nome O que a instituição precisa demonstrar Pergunta subjacente
1 Acreditado Segurança do paciente e conformidade com requisitos legais e sanitários; estrutura mínima para operar sem risco evitável É seguro?
2 Acreditado Pleno Processos organizados, documentados e integrados entre setores; gestão que articula as áreas em vez de silos É organizado?
3 Acreditado com Excelência Cultura de melhoria com resultados demonstrados e acompanhados ao longo do tempo Está melhorando?

A progressão é coerente com a lógica de qualquer sistema de gestão: não faz sentido buscar excelência antes de garantir segurança. A validade típica é de três anos, com avaliações de manutenção no intervalo — e é aqui que aparece o primeiro descompasso prático. Um ciclo trienal cria um ritmo natural de preparação intensa às vésperas da visita, seguida de relaxamento. O gráfico de esforço da maioria das instituições tem picos que coincidem, com precisão constrangedora, com o calendário do avaliador.

Vale notar o que o Nível 3 exige e o que ele não exige. Ele exige que a instituição demonstre resultados e uma cultura de melhoria — o que é substancialmente mais do que os níveis anteriores. Ele não exige, e não teria como exigir, que os resultados sejam bons em termos absolutos, nem que sejam melhores que os de outra instituição.

Como funciona o processo de certificação

O caminho é razoavelmente padronizado entre as metodologias, e conhecê-lo evita a surpresa mais comum: a de que a maior parte do trabalho está antes da visita, não durante.

Diagnóstico inicial. A instituição compara sua realidade com o manual da acreditadora e identifica as lacunas. Feito com honestidade, é a etapa mais valiosa do processo inteiro — é o único momento em que a organização olha para si mesma sem ninguém avaliando.

Preparação. É onde o tempo se concentra: entre doze e vinte e quatro meses na maioria dos casos. Mapeamento e descrição de processos, elaboração ou revisão de protocolos, definição de indicadores, treinamento das equipes, ajustes de estrutura física quando necessário. Instituições que tratam essa fase como produção de documentos chegam ao fim com um acervo grande e pouca mudança real na assistência.

Contratação e agendamento. A instituição contrata uma certificadora credenciada pela acreditadora e agenda a visita.

Avaliação. Uma equipe multiprofissional passa alguns dias na instituição. O método combina análise documental, entrevistas com profissionais de todos os níveis e observação direta — incluindo rastreamento da trajetória de pacientes reais pelos setores. A entrevista com o técnico de enfermagem do plantão da noite costuma revelar mais do que o manual da qualidade.

Resultado e ciclo de manutenção. O relatório aponta conformidades e não-conformidades. Concedido o certificado, começa o ciclo de manutenção — que é onde o valor se ganha ou se perde.

Sobre custo, a faixa varia demais com porte, complexidade e metodologia para que um número aqui seja útil. O que se pode afirmar com segurança é a proporção: o custo da certificadora costuma ser a menor parte. A maior está nas horas de equipe consumidas na preparação — e essas horas saem de algum lugar, geralmente do tempo que a instituição teria para trabalhar em problemas que já conhece.

Por que o selo e a melhoria não são a mesma coisa

Aqui está o ponto que separa uma instituição que usa a acreditação de uma que é usada por ela.

Melhoria tem uma definição operacional precisa: impacto positivo, relevante e duradouro produzido por mudanças realizadas de forma intencional, verificado por indicadores ao longo do tempo. Cada elemento dessa frase é uma exigência. Duradouro exclui o ganho que evapora quando a atenção sai. Verificado por indicadores ao longo do tempo exclui a impressão de que as coisas vão melhor.

A acreditação verifica que existe um sistema. É uma verificação valiosa e difícil de obter por outros meios. Mas nem toda mudança é melhoria — e implantar um sistema de gestão da qualidade é uma mudança grande, cara e perfeitamente capaz de não produzir melhoria nenhuma nos desfechos.

Três mecanismos explicam a distância entre uma coisa e outra.

O documento no lugar da prática. Escrever um protocolo é rápido; conseguir que ele seja seguido no plantão de domingo é o trabalho real. A acreditação verifica a existência do protocolo e, por amostragem, a adesão — mas amostragem em semana de visita mede a semana de visita. A distância entre o protocolo escrito e o protocolo praticado é o problema central da segurança do paciente, e nenhum selo o resolve por si.

O indicador que não é lido. A acreditação exige que a instituição acompanhe indicadores. Não exige — porque não teria como — que eles sejam lidos corretamente. Um painel com dezenas de números comparados mês a mês satisfaz a exigência formal e produz decisões ruins todo mês, porque dois pontos não distinguem oscilação normal de mudança real. O critério de escolha e de leitura dos indicadores é uma competência à parte, e a certificação não a confere.

O ciclo de esforço. A preparação mobiliza a instituição, e a energia é real. Concedido o selo, ela dispersa. Trinta meses depois, mobiliza de novo. O resultado é uma serra em vez de uma tendência — e uma serra, lida em gráfico de tendência, mostra exatamente o que aconteceu: nada de duradouro.

Nada disso é argumento contra a acreditação. É argumento contra tratá-la como se fosse o objetivo. Os padrões da ONA foram construídos com competência acumulada e apontam para lugares onde problemas de fato se escondem. Uma instituição que passa pelo processo com honestidade sai dele conhecendo a si mesma melhor do que entrou.

A diferença está na pergunta que a organização faz. “O que precisamos ter pronto até a visita?” leva a um resultado. “Que problema da nossa assistência este padrão está tentando evitar?” leva a outro. As duas perguntas produzem o mesmo certificado.

O que sustenta a acreditação entre um ciclo e outro

A resposta é conhecida e não é nova: um método de melhoria funcionando na rotina, independente do calendário do avaliador.

Um método assim responde a três perguntas antes de qualquer mudança — o que se quer alcançar, como se saberá se a mudança é melhoria, e que mudanças testar. Depois, testa em pequena escala antes de implantar: um leito, um turno, uma ala. Compara o resultado com a predição registrada antes. E acompanha o indicador ao longo do tempo, não contra o mês anterior. É o ciclo PDSA, dentro do Modelo de Melhoria, base do trabalho de instituições como o IHI e da melhoria em saúde como campo.

Uma instituição que opera assim chega à visita de acreditação com evidência que não foi produzida para a visita. E chega com uma vantagem menos óbvia: os padrões deixam de ser lista de tarefas e viram diagnóstico, porque a organização já sabe onde seus próprios problemas estão. Esse é o modo de trabalho que sustenta o lean healthcare e, de forma mais ampla, a gestão da qualidade em saúde.

O que continua acontecendo enquanto o selo está na parede

Uma instituição pode manter a acreditação por três ciclos consecutivos e, durante os nove anos, ter a mesma taxa de queda, a mesma taxa de infecção e o mesmo tempo de permanência do primeiro dia. Nada nas regras impede isso. O selo atesta que existe um sistema de gestão consistente — e um sistema consistente é perfeitamente capaz de produzir consistentemente os mesmos resultados.

O que continua acontecendo, nesse cenário, não aparece em lugar nenhum. São as infecções que teriam sido evitadas, as quedas que não precisariam ter ocorrido, os dias de internação que não seriam necessários. Não geram não-conformidade, não aparecem no relatório do avaliador e não impedem a renovação. Aparecem apenas na série histórica dos indicadores — se alguém a estiver lendo como série.

É a diferença entre uma instituição que sabe onde está e uma que sabe que está certificada. As duas têm o mesmo selo na parede.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi a distinção entre conformidade a padrões de gestão e melhoria verificada de resultados assistenciais.


A EDTI foi fundada pelo Prof. Dr. Ademir J. Petenate — professor da Unicamp desde 1974, faculty do IHI (Institute for Healthcare Improvement) e coordenador da tradução brasileira de Modelo de Melhoria. A certificação White Belt em Lean Seis Sigma é gratuita e cobre os fundamentos de variação e medição que sustentam um sistema de qualidade entre um ciclo de acreditação e outro. Para quem conduz projetos de melhoria na instituição, a formação Green Belt é o passo seguinte.

Perguntas frequentes sobre acreditação hospitalar

O que é acreditação hospitalar?

É um processo voluntário de avaliação externa e periódica, conduzido por uma instituição acreditadora, que verifica se os processos de uma organização de saúde atendem a padrões previamente publicados. Diferente da fiscalização sanitária, que é obrigatória, a acreditação é buscada pela própria instituição e tem validade determinada.

Quais são os níveis de acreditação da ONA?

São três, progressivos: Nível 1 (Acreditado) foca em segurança do paciente e conformidade legal; Nível 2 (Acreditado Pleno) exige processos organizados e integrados entre setores; Nível 3 (Acreditado com Excelência) exige cultura de melhoria com resultados demonstrados ao longo do tempo. Cada nível pressupõe o cumprimento integral do anterior.

Quanto tempo leva para conseguir a acreditação hospitalar?

Na maioria dos casos, entre doze e vinte e quatro meses desde o diagnóstico inicial até a visita de avaliação, dependendo do porte da instituição e da distância entre a prática atual e os padrões. A preparação concentra a maior parte do esforço; a visita em si dura poucos dias.

Acreditação hospitalar é obrigatória?

Não. É um processo voluntário. As exigências obrigatórias de funcionamento são de natureza sanitária e regulatória, fiscalizadas por outros órgãos. Muitas operadoras de saúde e editais de contratação, porém, valorizam ou exigem a acreditação em suas negociações, o que a torna praticamente necessária em certos mercados.

Qual a diferença entre acreditação e certificação ISO?

A ISO 9001 certifica um sistema de gestão da qualidade aplicável a qualquer setor. A acreditação hospitalar usa manuais específicos para serviços de saúde, com padrões voltados à segurança do paciente e à assistência. Uma instituição pode ter as duas; elas avaliam coisas diferentes.

Ter acreditação significa que o hospital é melhor?

Significa que o hospital tem um sistema de gestão avaliado como consistente com padrões publicados — o que é relevante e não é trivial de obter. Não significa, por si, que os desfechos assistenciais estejam melhorando: essa é uma verificação diferente, que depende de acompanhar indicadores ao longo do tempo. As duas coisas coincidem quando a instituição usa o processo como diagnóstico e não como meta.

Como manter a acreditação depois de conquistá-la?

O padrão que funciona é ter um método de melhoria rodando na rotina, independente do calendário de avaliação: objetivos declarados, mudanças testadas em pequena escala, indicadores acompanhados em série. Instituições que só mobilizam esforço às vésperas da visita produzem uma serra de desempenho em vez de uma tendência. O White Belt gratuito da EDTI apresenta essa base de método.

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