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Cadeia de valor: como montar a da sua empresa, com exemplo

Uma diretoria decide cortar 15% do custo administrativo. Sem uma cadeia de valor desenhada, a conversa acontece por centro de custo: cada área apresenta suas planilhas, a maior apanha primeiro, e a decisão sai em duas reuniões. Seis meses depois o custo voltou, distribuído em horas extras e retrabalho que ninguém somou.

Com a cadeia desenhada, a mesma conversa muda de eixo. Em vez de perguntar quanto cada área custa, pergunta-se o que cada atividade adiciona ao produto que o cliente compra — e quais atividades existem só para consertar o que outra atividade fez errado. As duas conversas terminam em corte. A diferença é que a segunda sabe o que está cortando.

A cadeia de valor nasceu para essa pergunta. Michael Porter a apresentou em Competitive Advantage, em 1985, num contexto específico: as empresas comparavam custos umas com as outras em blocos grandes demais para explicar por que uma ganhava da outra. Comparar “custo administrativo” de duas concorrentes não diz nada. Porter propôs quebrar a empresa em atividades discretas, cada uma com seu custo e sua contribuição, e olhar a vantagem competitiva como resultado de como essas atividades se ligam — não de nenhuma delas isoladamente.

As atividades primárias e as de apoio

Porter separou o trabalho da empresa em dois grupos. As atividades primárias são as que tocam diretamente o produto ou serviço no caminho até o cliente. São cinco. A logística interna recebe, armazena e distribui os insumos. As operações transformam esses insumos no produto. A logística externa armazena e entrega ao cliente. Marketing e vendas criam o meio pelo qual o cliente compra. E o serviço mantém o valor depois da venda — instalação, suporte, peças, garantia.

As atividades de apoio são quatro e sustentam as primárias. A infraestrutura reúne direção, finanças, jurídico, planejamento e qualidade. A gestão de pessoas recruta, treina e remunera. O desenvolvimento de tecnologia vai muito além de TI: inclui método, engenharia de produto e melhoria de processo. E a aquisição é a função de comprar — separada de propósito da logística interna, porque comprar mal e receber bem são problemas distintos.

O que sobra depois de todas elas é a margem. Não é uma décima atividade: é a diferença entre o que o cliente paga e o que custou fazer tudo o que está acima. A margem é onde a cadeia entrega o veredito.

Vale corrigir duas leituras comuns. A primeira é achar que atividade de apoio significa atividade secundária: em uma empresa de software, o desenvolvimento de tecnologia é onde a vantagem inteira mora, ainda que esteja no grupo de apoio. A segunda é achar que a lista de nove é obrigatória. Ela é um ponto de partida de 1985, pensado para indústria; um hospital, uma escola ou uma operação logística vão desdobrar algumas e fundir outras.

Um exemplo curto: uma indústria de embalagens

Considere uma fábrica de embalagens de médio porte — situação-tipo, montada para ilustrar o raciocínio. Ao desenhar a cadeia, a equipe lista as cinco primárias e descobre que o serviço pós-venda, que ninguém considerava uma atividade, consome três pessoas em tempo integral resolvendo divergências de especificação.

Nenhuma dessas três pessoas está no centro de custo de produção. Elas aparecem no administrativo, e por isso eram candidatas naturais ao corte da abertura. A cadeia mostra outra coisa: elas existem porque a atividade de aquisição compra bobinas com variação de gramatura maior do que as operações conseguem absorver. Cortar as três pessoas não elimina o problema; transfere a divergência para o cliente.

Esse é o padrão que a cadeia de valor revela e que a leitura por centro de custo esconde: uma atividade cara costuma ser o sintoma de outra atividade barata demais. As ligações entre atividades — Porter as chamava de elos — são onde a vantagem competitiva se ganha ou se perde, e são invisíveis em qualquer estrutura que olhe as áreas separadamente.

Como montar a sua

O desenho em si leva algumas horas e não exige ferramenta. Liste as cinco atividades primárias na sequência em que o trabalho acontece na sua operação, renomeando o que fizer sentido. Abaixo de cada uma, escreva as atividades reais, com os nomes que as pessoas usam — não os nomes do organograma. Faça o mesmo com as quatro de apoio, marcando quais primárias cada uma sustenta.

Depois vem a parte que a maioria pula. Para cada atividade listada, responda duas perguntas: o cliente pagaria por isso se soubesse que existe? e essa atividade existe por causa de uma falha em outra? A primeira separa valor de custo. A segunda encontra os elos. Uma atividade que responde “não” à primeira e “sim” à segunda não é candidata a otimização — é candidata a desaparecer, junto com a causa que a criou.

Por último, marque onde você não tem número. Quase sempre a empresa sabe o custo das operações e não sabe o custo do serviço, do retrabalho ou da aquisição mal feita. Essas lacunas valem mais que o diagrama pronto, porque indicam onde a decisão vem sendo tomada no escuro.

Da cadeia para a decisão: o que fazer com o desenho

A cadeia de valor é uma anatomia. Ela mostra as partes e as ligações num instante do tempo — e é aí que quase todo mundo para, com o diagrama impresso na parede da sala de reunião.

O passo seguinte exige outro tipo de instrumento. Se a pergunta é onde o fluxo perde tempo entre uma atividade e outra, o caminho é o mapeamento do fluxo de valor, que acrescenta tempos, estoques e esperas ao que a cadeia mostra em estrutura. Se a pergunta é que categorias de perda estão consumindo capacidade, o vocabulário dos desperdícios nomeia o que o desenho apenas insinua. E quando uma dessas atividades vira alvo de intervenção, o roteiro que estrutura a intervenção — definir, medir, analisar, melhorar e controlar — é o DMAIC.

Duas fronteiras que costumam confundir. A cadeia produtiva descreve os elos entre empresas diferentes de um setor, do insumo ao consumidor; a cadeia de valor descreve as atividades dentro de uma empresa. E as cinco forças, do mesmo autor, olham para fora — a estrutura do setor —, enquanto a cadeia olha para dentro.

Há um ponto em que a cadeia de valor engana com frequência, e é o motivo pelo qual ela precisa de um método atrás. Redesenhar a cadeia — terceirizar uma atividade, fundir duas, trazer uma de volta para casa — é uma mudança grande, visível, fácil de anunciar. Se ela melhorou alguma coisa é uma pergunta diferente, e só se responde acompanhando indicadores ao longo do tempo, antes e depois, com previsão registrada antes da mudança. É a distinção entre mudança e melhoria, e ela é o conteúdo central de formações como o Green Belt, em que o desenho do sistema é sempre ponto de partida e nunca conclusão.

Vale acrescentar que a cadeia envelhece. Ela foi desenhada para um produto, um cliente e uma tecnologia; quando qualquer um dos três muda, o desenho vira ficção. Empresas que tratam a cadeia como artefato de melhoria contínua a revisitam quando algo muda. As que a tratam como entregável de consultoria a revisitam quando contratam a próxima.

O diagrama não decide nada

A cadeia de valor não diz o que cortar. Ela diz onde olhar — e essa é toda a sua utilidade.

Quem espera dela uma resposta acaba com um quadro bonito e a mesma decisão de antes, tomada pelos mesmos critérios de centro de custo. Quem a usa como lente descobre que a atividade mais cara raramente é o problema, que os elos entre atividades explicam mais do que as atividades em si, e que a pergunta útil não é quanto cada parte custa, mas o que aconteceria com o todo se ela mudasse. Essa segunda pergunta não se responde no papel.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Revisão com foco na distinção entre cadeia de valor, cadeia produtiva e mapeamento do fluxo de valor.

Se você quer entender o método que transforma um desenho de sistema em melhoria verificada por dados, o White Belt gratuito da EDTI apresenta a base — as três questões fundamentais, a diferença entre mudança e melhoria e o ciclo PDSA — em poucas horas e sem custo.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre cadeia de valor e cadeia produtiva?

A cadeia de valor descreve as atividades dentro de uma única empresa e como elas se ligam para gerar margem. A cadeia produtiva descreve os elos entre empresas diferentes de um setor, do insumo até o consumidor final. Os nomes são parecidos e a unidade de análise é oposta: uma olha para dentro, a outra para a rede.

Cadeia de valor e VSM são a mesma coisa?

Não. A cadeia de valor de Porter é uma classificação estrutural das atividades da empresa, sem dimensão de tempo. O mapeamento do fluxo de valor acrescenta tempos de processamento, esperas e estoques a um fluxo específico. Muita gente usa “fluxo de valor” para os dois, e a confusão faz a empresa desenhar a estrutura quando queria enxergar o tempo.

As nove atividades de Porter servem para empresas de serviço?

Servem como ponto de partida, com adaptação. A separação entre logística interna, operações e logística externa faz pouco sentido num escritório de advocacia ou num hospital, onde a sequência é outra. O que se preserva é a lógica: separar o que toca o cliente do que sustenta quem toca, e procurar valor nas ligações.

A cadeia de valor serve para reduzir custo?

Serve para decidir onde reduzir com menos risco de transferir o custo para outro lugar. Ela costuma mostrar que atividades caras existem para compensar falhas de atividades baratas — e nesses casos cortar a cara sem corrigir a causa devolve o custo com juros, em retrabalho ou em perda de cliente.

Com que frequência a cadeia de valor deve ser revisada?

Quando muda o produto, o cliente ou a tecnologia que sustenta alguma atividade — não em intervalo fixo. Uma cadeia desenhada e nunca revisitada descreve uma empresa que já não existe, e é justamente esse tipo de artefato desatualizado que a Escola EDTI trabalha para transformar em decisão verificável, olhando indicadores no tempo em vez de fotografias isoladas.

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