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Gestão de reclamações: resolver o caso não é o mesmo que tratar a causa

Uma operação recebeu 2.800 reclamações em um ano e resolveu 71% delas individualmente, com tempo mediano de resposta de 4,2 dias. Os dois números eram apresentados mensalmente e considerados bons.

No mesmo período, 38% das reclamações de cada trimestre repetiam o motivo do trimestre anterior. A operação estava resolvendo bem os casos e recebendo os mesmos casos de novo.

Nenhuma das 2.800 tinha passado por análise de causa. O sistema fazia exatamente o que tinha sido desenhado para fazer — responder ao cliente — e nada do que ninguém tinha desenhado: descobrir por que ele precisou reclamar.

Os dados desta página descrevem uma situação-tipo construída para o argumento: os valores são coerentes entre si e não vêm de uma empresa específica.

Para que serve a gestão de reclamações

Ela existe para duas coisas ao mesmo tempo, e a maioria das operações só faz a primeira.

A primeira é resolver o caso: devolver ao cliente uma solução em prazo razoável, com clareza sobre o que aconteceu. É atendimento, é necessário, e é o que todo sistema de reclamação faz.

A segunda é usar a reclamação como dado de processo. Cada reclamação é um relato gratuito de uma falha, feito por alguém que se deu ao trabalho de escrever. Tratada como caso isolado, ela custa dinheiro e não devolve nada. Tratada como observação de um conjunto, ela é a fonte de informação mais barata que a operação tem sobre os próprios defeitos.

A diferença entre as duas é a mesma diferença entre corrigir um resultado e mudar o processo que o produz. Uma operação que só faz a primeira tem custo de atendimento crescente e proporção de insatisfação estável — foi o que os 38% de reincidência mediram.

O volume registrado não é o volume real

Antes de qualquer análise, um ajuste de leitura. A mesma operação pesquisou 400 clientes que haviam tido algum problema declarado: 22% deles registraram reclamação formal.

Isso significa que as 2.800 reclamações correspondiam a algo próximo de 12.700 clientes com problema — pouco mais de quatro vezes o volume visível. Quem não reclama não some: ele muda de fornecedor, comenta com outros ou simplesmente deixa de comprar, e essa saída aparece meses depois em outro indicador, sem causa aparente.

A implicação prática é sobre proporção, não sobre número absoluto. Uma queda no volume de reclamações pode significar melhoria do processo ou pode significar que os clientes desistiram de reclamar — e as duas coisas parecem iguais no painel. É por isso que volume de reclamação, sozinho, é um indicador ruim, e por que ele precisa ser lido junto com retenção e com a proporção de clientes que declaram problema.

Triagem: nem toda reclamação vira projeto

A pergunta operacional é o que fazer com cada uma, e ela tem três respostas possíveis.

Caso isolado. Resolve-se, registra-se o motivo e encerra. Vale quando o evento é raro, tem causa evidente e específica, e não se repete no histórico.

Sinal de concentração. Quando o mesmo motivo aparece com frequência acima do normal, ele deixa de ser caso e vira candidato a investigação. O critério não é impressão: é a série do motivo ao longo do tempo, e a distinção entre oscilação normal e sinal real é assunto de variação estatística.

Evento de alta gravidade. Independentemente da frequência, reclamações que envolvem risco, dano relevante ou exposição legal têm tratamento próprio e imediato — a raridade não reduz a consequência.

A maior parte das operações trata tudo como o primeiro tipo, e é aí que o custo se acumula: resolver individualmente 728 ocorrências do mesmo motivo custa 728 atendimentos.

A estratificação que muda a ação

As 2.800 reclamações foram classificadas por motivo. Seis motivos concentravam 74% do volume, e o maior deles sozinho respondia por 26% — 728 reclamações sobre prazo de entrega divergente do que havia sido informado na compra.

Leitura Antes Depois de 8 meses
Reclamações sobre prazo divergente 728/ano 121/ano
Total de reclamações 2.800/ano 2.190/ano
Reincidência de motivo entre trimestres 38% 24%

A causa não estava no atendimento nem na logística. O prazo exibido no site era uma estimativa fixa que não considerava a região de entrega, e para parte do país ele era sistematicamente otimista. Corrigido o cálculo, o motivo caiu 83,4%.

Repare no que aconteceu com o indicador de atendimento nesse período: ele piorou ligeiramente, porque o time passou tempo em análise em vez de em resposta. O indicador que interessava melhorou — e uma operação que só olha o primeiro teria interrompido o trabalho no segundo mês.

O que fazer com o motivo concentrado

Encontrar a concentração é metade. A outra metade é não parar no sintoma.

A classificação por motivo descreve o que o cliente sentiu — “prazo errado”, “produto com defeito”, “cobrança indevida”. Ela não diz por que aconteceu, e agir sobre a classificação leva a soluções cosméticas: mudar o texto da mensagem, treinar o atendente, criar um canal a mais.

Do motivo até a causa há um percurso, e ele tem método. Organizar as causas possíveis antes de escolher onde agir é o trabalho do diagrama de Ishikawa, e a correção, quando envolve definir quem faz o quê e quando, é assunto de padronização.

Uma verificação simples separa a solução real da cosmética: se a ação proposta for treinar, comunicar melhor ou criar um alerta, pergunte o que muda no processo quando a atenção diminuir. Se a resposta for “nada”, a ação não sobrevive ao segundo trimestre.

Os indicadores que vale acompanhar

Proporção por motivo, em série. É o indicador que aponta onde agir. Volume total esconde a concentração e oscila com sazonalidade e com volume de vendas.

Reincidência de motivo entre períodos. Mede se a organização está aprendendo. Reincidência alta com resolução rápida é a assinatura exata do sistema descrito neste texto.

Proporção de reclamações com causa identificada e ação concluída. É o indicador de processo do próprio sistema de gestão de reclamações, e quase nunca existe.

Tempo até a primeira resposta e até a resolução. Importam para o cliente e não dizem nada sobre o processo. Acompanhe, e não use como indicador principal.

E uma advertência sobre metas: colocar meta de redução no volume total de reclamações cria incentivo direto para dificultar o registro. Sobre os efeitos colaterais de perseguir números de satisfação, vale ler os perigos da satisfação do cliente.

Tabela de triagem

Tabela de triagem — o que fazer com esta reclamação

Use por motivo, não por reclamação individual. A triagem acontece sobre o conjunto do período.

Pergunte Seu caso Encaminhamento
1. Gravidade
Envolve risco à pessoa, dano relevante ou exposição legal? Se sim: tratamento imediato, independente da frequência
2. Concentração
Quantas reclamações deste motivo no período?
Que proporção do total isso representa? Acima de 10%: candidato forte a projeto
O motivo apareceu nos períodos anteriores? Se sim, em três períodos: é processo, não é caso
A série do motivo mostra sinal, ou é oscilação? Sem série, não decida pela impressão do mês
3. Se for para investigação
Causa provável, em uma frase Não repita o motivo aqui
A ação proposta é treinar, comunicar ou alertar? Se sim: o que acontece quando a atenção cair?
Indicador que vai mostrar se funcionou, e faixa esperada Sem isso, não há como fechar
Responsável e prazo
4. Fechamento
O motivo reapareceu nos dois períodos seguintes? Se sim, a causa era outra — reabra

Escola EDTI · escolaedti.com.br · Explicação completa: escolaedti.com.br/gestao-de-reclamacoes/

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Onde este assunto termina

Como ouvir o cliente antes de ele reclamar — entrevista, pesquisa, observação em uso — é assunto de como ouvir a voz do cliente. Reclamação é a captura mais barata e a mais enviesada: só chega quem se incomodou o bastante para escrever.

O julgamento que o cliente faz sobre a qualidade, e por que ele pode ser ruim mesmo com conformidade alta, está em qualidade percebida.

E o desfecho da insatisfação não tratada — a saída silenciosa, que é a maioria — está em perda de clientes. É lá que aparece o custo dos 78% que tiveram problema e nunca escreveram.

O que continua acontecendo sem tratar a causa

Sem análise de causa, o custo do atendimento cresce com o volume de vendas, porque a proporção de clientes que precisa reclamar não muda. Uma operação que dobra de tamanho dobra a equipe de atendimento, e o indicador de qualidade percebida fica onde estava.

Há um segundo custo, que aparece depois e é difícil de rastrear. Cada motivo recorrente e não tratado ensina a uma parcela dos clientes que aquele problema é característica da empresa, não incidente. Essa conclusão não gera reclamação — gera a saída silenciosa que aparece meses adiante como queda de recompra, sem causa aparente no relatório de nenhuma área.

Estratificar as reclamações do último ano por motivo é trabalho de algumas horas sobre dado que já existe, e costuma revelar que dois ou três motivos respondem pela maior parte do volume. É o diagnóstico mais barato disponível em qualquer operação — e o menos feito, porque o sistema foi desenhado para responder ao cliente, e responder ao cliente parece ser suficiente.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a leitura do volume registrado como amostra enviesada e a reincidência de motivo como indicador de aprendizado.

Transformar reclamação recorrente em causa identificada, mudança testada e ganho verificado no tempo é o que a formação Green Belt da EDTI desenvolve em projeto real. Para conhecer a lógica do método antes, a certificação White Belt é gratuita.

Perguntas frequentes

O que é gestão de reclamações?

É o processo que vai do registro da reclamação até a verificação de que a causa foi tratada. Ele tem duas entregas: resolver o caso para o cliente e usar o conjunto das reclamações como dado sobre falhas do processo. A segunda é a que costuma faltar.

Qual a diferença entre atender e gerir reclamações?

Atender resolve o caso individual. Gerir olha o conjunto, identifica concentração por motivo, investiga a causa e verifica se ela foi eliminada. Uma operação pode ter atendimento excelente e gestão inexistente — o sinal disso é reincidência alta com tempo de resposta baixo.

Toda reclamação deve virar projeto?

Não. A maioria é caso isolado e se encerra no atendimento. Vira investigação quando o motivo se concentra acima do normal, quando reaparece em períodos consecutivos, ou quando envolve risco relevante — nesse último caso independentemente da frequência.

Redução no número de reclamações é bom sinal?

Nem sempre. Pode significar processo melhor ou pode significar que registrar ficou mais difícil e os clientes desistiram. Por isso volume total não serve como indicador principal, e por isso meta de redução sobre ele costuma produzir subnotificação em vez de melhoria.

Quantos clientes insatisfeitos realmente reclamam?

Uma minoria, e a proporção varia muito por setor e por facilidade do canal. Vale medir na sua operação, perguntando a uma amostra de clientes que tiveram problema se eles registraram reclamação — o número resultante é o fator pelo qual você multiplica o volume visível para estimar o real.

Qual o melhor indicador de reclamações?

A proporção por motivo lida em série, para saber onde agir, e a reincidência de motivo entre períodos, para saber se a organização está aprendendo. Tempo de resposta importa para o cliente e não diz nada sobre o processo que gerou a reclamação.

Como responder uma reclamação sem piorar a situação?

Reconhecendo o problema em vez de justificá-lo, dando prazo que o processo cumpre e informando quando algo muda. E resolvendo na primeira interação sempre que possível — cada transferência de canal ou de atendente acrescenta um motivo novo de insatisfação ao que já existia.

Por onde começar a organizar a gestão de reclamações?

Pegue as reclamações dos últimos doze meses, classifique por motivo com uma lista curta e conte. Se dois ou três motivos concentrarem mais da metade do volume — o que costuma acontecer —, você tem o primeiro projeto definido em algumas horas, usando dado que já estava no sistema.

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