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Competing Values Framework: os quatro tipos de cultura e o que o diagnóstico não resolve

O resultado do diagnóstico chega em um slide: a organização é 38% hierarquia, 27% mercado, 21% clã e 14% adhocracia. Ao lado, o perfil desejado, com os números invertidos. A conclusão é apresentada como plano: precisamos ser menos hierárquicos e mais inovadores. Todo mundo concorda. E então a reunião acaba.

O que aconteceu ali foi uma medição competente de uma coisa real. O que não aconteceu — e o modelo não pede que aconteça — é qualquer definição do que alguém vai fazer diferente na segunda-feira.

O que é o Competing Values Framework

O Competing Values Framework, ou modelo de valores competitivos, nasceu de um trabalho de Robert Quinn e John Rohrbaugh no início dos anos 1980. A pergunta original não era sobre cultura: era sobre eficácia organizacional. Os pesquisadores levantaram os critérios que estudiosos usavam para dizer se uma organização era eficaz e descobriram que eles se organizavam em dois eixos de tensão.

O primeiro eixo vai de flexibilidade a estabilidade e controle. O segundo vai de foco interno e integração a foco externo e diferenciação. São chamados de valores “competitivos” porque as pontas se opõem: a mesma organização não pode maximizar autonomia e padronização ao mesmo tempo, nem olhar prioritariamente para dentro e para fora simultaneamente.

Cruzando os dois eixos surgem quatro quadrantes. Kim Cameron e Robert Quinn os desenvolveram depois como tipos de cultura organizacional, e é nessa versão que o modelo se popularizou.

Quadrante Orientação O que valoriza Como o líder se comporta
Clã Flexível · interno Colaboração, desenvolvimento das pessoas, senso de família Mentor e facilitador
Adhocracia Flexível · externo Criação, experimentação, tolerância ao risco Empreendedor e visionário
Mercado Controle · externo Competição, metas, resultado mensurável Cobrador e produtor
Hierarquia Controle · interno Padronização, previsibilidade, eficiência de processo Coordenador e monitor

Nenhum quadrante é o certo. A tese do modelo é que toda organização tem os quatro em alguma proporção, e que o perfil adequado depende do que ela precisa entregar. Um pronto-socorro e uma startup de software não deveriam ter o mesmo desenho cultural.

Como o diagnóstico é feito: o OCAI

O instrumento associado ao modelo é o OCAI — Organizational Culture Assessment Instrument. São seis dimensões, cada uma com quatro afirmações correspondentes aos quatro quadrantes. O respondente distribui 100 pontos entre as quatro afirmações, duas vezes: uma para a cultura atual e outra para a desejada.

As seis dimensões avaliadas
Características dominantes da organização
Estilo de liderança
Gestão de pessoas
O que mantém a organização unida
Ênfase estratégica
Critério de sucesso

A saída é o gráfico de perfil: dois quadriláteros sobrepostos, o atual e o desejado, com a distância entre eles funcionando como diagnóstico visual do que precisa mudar. É simples de aplicar, roda em qualquer tamanho de organização e produz uma conversa que costuma ser boa.

Os três limites do instrumento

O primeiro é que o OCAI mede percepção, não comportamento. Ele registra como as pessoas descrevem a organização em um formulário, e a descrição sofre influência de tudo o que aconteceu nas últimas semanas — uma demissão recente, um resultado trimestral ruim, uma mudança de gestor. Isso não invalida a medida: só significa que ela oscila por razões que nada têm a ver com mudança cultural real.

O segundo é o problema dos dois pontos. Aplica-se o questionário, faz-se a intervenção, aplica-se de novo um ano depois, e a diferença é apresentada como efeito da intervenção. Mas duas medições isoladas não distinguem mudança de oscilação — qualquer indicador varia naturalmente, e comparar dois pontos é o jeito mais fácil de ver movimento onde só houve ruído. Um perfil que sai de 38% para 32% de hierarquia pode ser efeito do trabalho feito ou pode ser a mesma organização respondendo num mês diferente. Sem uma série ao longo do tempo, não há como saber — e praticamente nenhuma aplicação do OCAI produz série.

O terceiro é o mais consequente: o modelo descreve estados, não caminhos. Ele diz onde a organização está e onde quer estar. A distância entre os dois quadriláteros é apresentada como plano, mas é apenas uma diferença medida. “Sermos mais adhocráticos” não é uma ação — é a descrição de um resultado que alguém espera obter por meios que o modelo não fornece.

Cultura não muda por decisão

Aqui está o ponto que separa diagnosticar de mudar. Cultura é o conjunto de comportamentos que as pessoas repetem porque funcionam — ou porque acreditam que funcionam. Ninguém passa a colaborar mais porque o slide diz que a meta é o quadrante clã. As pessoas mudam de comportamento quando experimentam um jeito diferente de trabalhar e ele dá certo, de forma visível, no trabalho delas.

Isso inverte a ordem usual. Em vez de tentar mudar a cultura para depois melhorar os processos, muda-se um processo específico, em pequena escala, com quem faz o trabalho participando — e a mudança de cultura vem como consequência de ter funcionado. Uma equipe que testou uma alteração no seu próprio fluxo, previu o resultado, mediu e viu acertar, aprendeu duas coisas: a melhoria em si, e que vale a pena propor a próxima. Isso é adhocracia acontecendo, não sendo declarada.

Por isso o diagnóstico do CVF é mais útil como ponto de partida do que como plano. Se ele aponta excesso de hierarquia num processo que precisa de resposta rápida, a pergunta seguinte não é “como ser menos hierárquicos”, e sim “qual decisão específica hoje sobe três níveis sem precisar, e o que acontece se testarmos delegá-la por seis semanas?”. A primeira pergunta gera workshop. A segunda gera evidência. Como conduzir uma mudança organizacional de ponta a ponta é assunto próprio, tratado em gestão de mudanças — o que interessa aqui é que o retrato, sozinho, não conduz nada.

Onde o modelo se encaixa

O CVF pertence a uma linhagem clara. Henri Fayol descreveu a organização pela sua estrutura de autoridade; o CVF a descreve pelos seus valores dominantes. Os dois avançaram no mesmo sentido — dar linguagem para falar da organização — e pararam no mesmo lugar: nenhum deles pergunta se o trabalho, do jeito que está desenhado, é capaz de produzir o resultado esperado.

A tradição que W. Edwards Deming abriu faz essa pergunta primeiro. Ela trata a organização como sistema cujo comportamento pode ser observado ao longo do tempo, e trata cada mudança como uma hipótese a testar, com previsão registrada antes. Não é uma alternativa ao diagnóstico de cultura: é o que vem depois dele, e o que dá ao diagnóstico alguma chance de virar resultado.

Quem conduz melhoria com método — um Green Belt, por exemplo — aprende cedo que mudar não é melhorar. Uma reorganização acontece: no dia seguinte o organograma, o discurso e o slide estão diferentes. Se aquilo foi melhoria, só o indicador ao longo do tempo pode dizer — e a maior parte dos programas de transformação cultural nunca chega a ser verificada dessa forma, porque a entrega foi definida como o programa, não como o resultado. É a mesma lógica que sustenta a prática de Lean Six Sigma: o que não foi medido antes e depois não pode ser chamado de ganho.

Vale usar o CVF?

Vale, desde que ele seja tratado como o que é: um instrumento de conversa estruturada sobre valores, que dá vocabulário comum a um grupo que antes discutia cultura por impressões soltas. Isso não é pouco.

O que não vale é tratar o gráfico de perfil como diagnóstico causal. Ele não explica por que a organização está onde está, não indica o que fazer e não mede o efeito de nada — porque mede percepção em um instante, e o que muda organizações é comportamento observado ao longo do tempo. Use o retrato para escolher onde olhar. Use outro método para descobrir o que fazer.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Foco da revisão: a diferença entre medir percepção em dois pontos e observar comportamento ao longo do tempo — e por que retrato de cultura não é plano de mudança.


Se você quer o método que transforma um diagnóstico em mudança verificada — hipótese, teste em pequena escala e leitura do resultado ao longo do tempo —, é o que a certificação White Belt da EDTI, que é gratuita, ensina do começo ao fim.

Perguntas frequentes

O que é o Competing Values Framework?

É um modelo criado por Robert Quinn e John Rohrbaugh que organiza a eficácia organizacional em dois eixos de tensão — flexibilidade contra controle e foco interno contra externo. O cruzamento gera quatro tipos de cultura: clã, adhocracia, mercado e hierarquia.

Quais são os quatro tipos de cultura organizacional do modelo?

Clã, orientado a colaboração e desenvolvimento de pessoas; adhocracia, orientado a criação e experimentação; mercado, orientado a competição e resultado; e hierarquia, orientado a padronização e previsibilidade. Toda organização apresenta os quatro em alguma proporção.

O que é o OCAI?

É o questionário associado ao modelo. Avalia seis dimensões — características dominantes, liderança, gestão de pessoas, o que une a organização, ênfase estratégica e critério de sucesso —, com o respondente distribuindo 100 pontos entre quatro afirmações em cada uma, para a cultura atual e para a desejada.

Qual quadrante é o melhor?

Nenhum. O modelo não estabelece um tipo ideal: o perfil adequado depende do que a organização precisa entregar e do ambiente em que opera. Uma operação que exige previsibilidade absoluta e uma que depende de inovação constante não deveriam ter o mesmo desenho.

Qual a limitação do Competing Values Framework?

Ele descreve estados, não caminhos. Mostra onde a cultura está e onde a liderança gostaria que estivesse, mas não oferece nenhum mecanismo para ir de um ponto ao outro. Além disso, mede percepção em um instante — e comparar duas aplicações do questionário não distingue mudança real de oscilação normal.

Como mudar a cultura de uma organização?

Pela via oposta à intuitiva: não se muda a cultura para depois melhorar os processos. Muda-se um processo específico, em pequena escala, com quem executa participando, verifica-se se funcionou e repete-se. A cultura muda como consequência de as pessoas experimentarem um jeito diferente de trabalhar dando certo. É esse ciclo — prever, testar, medir, decidir — que a formação Green Belt da EDTI ensina a conduzir.

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