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Joseph Juran: a trilogia da qualidade e o desperdício que ninguém trata

Quatro vírgula dois por cento de refugo apareceu no relatório de uma fábrica de embalagens todos os meses, por três anos seguidos, sem nunca gerar uma única reunião. O número não chamava atenção por um motivo simples: ele estava dentro do orçado. O planejamento anual já previa perda de material nessa ordem, a meta era “manter”, e manter era exatamente o que a operação fazia — com competência. Em 180.000 unidades por mês, esses 4,2% são 7.560 peças descartadas; a R$ 3,10 por peça, R$ 23.436 por mês e R$ 281.232 por ano. O custo existia desde o primeiro dia. A conta só apareceu quando alguém somou.

Joseph Juran passou a carreira nomeando essa situação. Ele chamou de desperdício crônico: a perda que o processo produz de forma estável, previsível e aceita, porque foi embutida no plano antes de qualquer um começar a medir. E foi para separar o trabalho de manter do trabalho de mudar de patamar que ele propôs a formulação pela qual é mais lembrado.

A trilogia de Juran: três processos, não três etapas

A trilogia não é uma sequência que se percorre uma vez. São três processos gerenciais distintos, que acontecem ao mesmo tempo na mesma empresa, com donos, ritmos e critérios de sucesso diferentes. Confundi-los é a origem da maior parte das discussões improdutivas sobre qualidade.

Processo O que faz Pergunta que responde Resultado esperado
Planejamento da qualidade Projeta o produto e o processo capazes de atender quem vai usar O que o cliente precisa e como vamos entregar isso? Um processo que nasce capaz — e com um nível de perda já embutido
Controle da qualidade Mantém o processo no patamar em que ele foi entregue Estamos onde deveríamos estar hoje? Estabilidade: desvios são detectados e corrigidos
Melhoria da qualidade Muda o patamar do processo, projeto a projeto Por que o nível normal é este — e como chegamos a outro? Um novo patamar, verificado no tempo

A consequência prática dessa separação é dura: um sistema de controle impecável nunca vai produzir melhoria. Controle é o mecanismo que devolve o processo ao lugar de onde ele saiu — e o lugar de onde ele saiu é justamente o que precisa mudar. Uma empresa pode operar anos com auditorias em dia, não conformidades tratadas, indicadores estáveis e desperdício crônico intacto. Não por falha de execução: por definição do que o controle faz.

Quem foi Joseph Juran

Joseph Moses Juran (1904-2008) nasceu na Romênia e emigrou para os Estados Unidos ainda criança. Entrou na Western Electric em 1924, no departamento de inspeção da fábrica de Hawthorne — a mesma planta que daria nome aos experimentos sobre produtividade e comportamento, e o mesmo ambiente onde Walter Shewhart desenvolvia o controle estatístico. Juran foi engenheiro, executivo, professor e consultor, e escreveu em 1951 o Quality Control Handbook, o manual que o levou ao Japão em 1954 a convite da JUSE. Fundou o Juran Institute em 1979 e continuou publicando até depois dos 90 anos.

Enquanto Deming construiu uma teoria de gestão a partir da variação e do sistema, Juran atacou o problema pelo lado da administração: qualidade como conjunto de processos gerenciáveis, com orçamento, prioridade e responsável. É a diferença de temperamento que explica por que os dois se complementam tão bem e são citados juntos com tanta frequência entre os gurus da qualidade.

Crônico e esporádico: por que o pico rouba a atenção

Juran separou os problemas de qualidade em dois tipos com tratamentos opostos. O pico esporádico é o desvio súbito: a máquina que saiu de ajuste, o lote de matéria-prima fora de especificação, o dia em que o percentual de erro triplicou. Ele é visível, gera urgência e é resolvido por ação corretiva — voltar ao normal. O desperdício crônico é o próprio normal: ele não gera alarme porque nunca destoa da série. Nenhuma ação corretiva o alcança, porque não há nada de errado acontecendo. Está tudo funcionando como projetado.

A leitura estatística dessa mesma distinção — causas especiais que produzem sinais e causas comuns que produzem o patamar — está desenvolvida em página própria; Juran chegou ao mesmo par por outro caminho, o do custo. O ponto que interessa aqui é gerencial: as duas categorias competem por atenção, e a urgente sempre vence a cara. Empresas gastam o ano inteiro apagando picos e terminam dezembro no mesmo patamar em que começaram janeiro.

O princípio de Pareto — e a correção que o próprio Juran fez

Foi Juran quem batizou de “princípio de Pareto” a observação de que uma minoria das causas responde pela maioria das perdas, tomando emprestado o nome do economista italiano que estudara a distribuição de renda. A expressão que ele cunhou — “poucos vitais e muitos triviais” — virou vocabulário universal da qualidade. Menos conhecida é a correção que ele publicou depois: reconheceu que a atribuição do nome havia sido imprecisa e que “triviais” era um adjetivo ruim, porque a maioria dos itens não é desprezível, apenas menos concentrada. Passou a defender “poucos vitais e muitos úteis“.

A construção do gráfico, o critério de corte e a leitura passo a passo estão em gráfico de Pareto — aqui interessa a origem do conceito e o que ele autoriza como decisão: priorizar é escolher onde a perda está concentrada, não distribuir esforço igualmente por todas as causas listadas na reunião.

“Adequação ao uso”: quem decide o que é qualidade

Juran definiu qualidade como adequação ao uso. A definição parece inofensiva até se perceber quem ela coloca no comando: não é a especificação interna, não é a norma, não é a área técnica — é o uso real que a pessoa faz do produto ou serviço. Um produto pode cumprir 100% das especificações e ser inadequado; pode ficar fora de uma tolerância cosmética e servir perfeitamente.

Daí vem a consequência que ainda incomoda: o que a empresa chama de defeito precisa ser derivado do uso, não do desenho. Um back-office financeiro que processava 2.400 faturas por mês com 6,5% de retrabalho tinha 156 faturas refeitas mensalmente, a 22 minutos cada — 57,2 horas de trabalho reprocessado por mês, dentro do orçado e fora de qualquer relatório de não conformidade. Depois de um projeto que atacou a origem do erro no cadastro, o percentual caiu para 2,5%: 60 faturas, 22 horas. A liberação de 35,2 horas por mês não veio de esforço adicional, e sim de deixar de produzir trabalho que nunca deveria existir.

O que a trilogia não resolve sozinha

Juran deixou claro que a melhoria acontece projeto a projeto, com problema definido, equipe designada e prazo — nunca por exortação. O que a trilogia não entrega é o método para conduzir cada um desses projetos: como formular a hipótese, como testar em escala pequena antes de implantar, como saber se o resultado se sustentou ou apenas oscilou. Essa é a lacuna que o Modelo de Melhoria preenche, e é onde a formação técnica entra — o repertório estatístico e de método que uma certificação Green Belt desenvolve existe exatamente para conduzir esse tipo de projeto até o fim.

Sem isso, o risco é conhecido e tem nome dentro do Lean Six Sigma: a empresa muda o processo, comemora o mês seguinte e volta ao patamar anterior sem que ninguém perceba, porque a comparação foi feita entre dois pontos e não ao longo de uma série. Mudança e melhoria não são a mesma coisa — melhoria é a mudança cujo efeito positivo se mantém e é verificado por indicadores no tempo.

Três perguntas resolvem o diagnóstico na sua área hoje. Qual foi o último projeto de melhoria — não de correção — concluído nos últimos doze meses? Qual é o percentual de perda que ninguém discute porque já está no orçamento? E se alguém perguntasse o custo anual desse percentual, quanto tempo levaria para você responder com um número?


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi separar o que a trilogia de Juran resolve do que exige método científico de melhoria.


Se a distinção entre controlar e melhorar fez sentido, a certificação White Belt gratuita da EDTI é o primeiro contato estruturado com esse raciocínio.

Perguntas frequentes

Quem foi Joseph Juran?

Joseph Moses Juran (1904-2008) foi engenheiro e consultor de gestão, um dos nomes centrais do movimento da qualidade no século XX. Começou na Western Electric em 1924, publicou o Quality Control Handbook em 1951 e passou a ensinar no Japão a partir de 1954. Fundou o Juran Institute em 1979 e viveu até os 103 anos.

O que é a trilogia de Juran?

São três processos gerenciais distintos: planejamento da qualidade, controle da qualidade e melhoria da qualidade. O planejamento projeta o processo, o controle o mantém no patamar entregue e a melhoria muda esse patamar. Tratá-los como fases de uma sequência é o erro mais comum na aplicação.

Qual a diferença entre Juran e Deming?

Deming partiu da variação e da teoria de sistemas para propor uma filosofia de gestão; Juran partiu da administração e organizou a qualidade em processos gerenciáveis, com custo e prioridade. As duas abordagens não competem — descrevem o mesmo problema por ângulos diferentes e frequentemente aparecem combinadas em programas de melhoria.

O que significa “poucos vitais e muitos triviais”?

É a formulação de Juran para o princípio de Pareto: uma minoria das causas concentra a maior parte das perdas. O próprio Juran depois corrigiu o segundo termo para “muitos úteis”, por considerar que “triviais” sugeria que o restante podia ser ignorado.

O que é desperdício crônico?

É a perda que o processo produz de forma estável e previsível, prevista no planejamento e aceita como normal. Como não destoa da série, não aciona nenhum mecanismo de controle — só sai do lugar com um projeto de melhoria que ataque a causa do patamar.

O que Juran quis dizer com “adequação ao uso”?

Que qualidade se define pelo uso real que o cliente faz do produto ou serviço, não pela especificação interna. Isso desloca o critério de julgamento para fora da área técnica e obriga a empresa a derivar suas definições de defeito do uso, e não do desenho.

A trilogia de Juran é suficiente sozinha?

Ela organiza o problema com precisão, mas não descreve como conduzir cada projeto de melhoria: formular a hipótese, testar em escala reduzida, verificar se o ganho se sustentou. É essa parte que o Modelo de Melhoria e o ciclo PDSA operacionalizam — e é o que a Escola EDTI ensina desde a certificação White Belt gratuita até a formação Green Belt e Black Belt.

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