A busca pela perfeição não é um conceito moderno. No entanto, a forma como as organizações compreendem e gerenciam a qualidade sofreu transformações drásticas ao longo dos séculos. Para um profissional que almeja a certificação Black Belt, entender essa evolução histórica não é apenas uma curiosidade acadêmica, mas uma necessidade estratégica. O domínio das metodologias atuais exige o reconhecimento de que o discurso “sempre fiz assim e deu certo” já não garante a sobrevivência no cenário competitivo atual.
Neste artigo, exploraremos as grandes transições da qualidade, analisando como saímos da era dos artesãos para chegar à robustez estatística do Lean Seis Sigma.
1. A Era dos Artesãos (Antes de 1750)
Antes da Revolução Industrial, a qualidade era uma responsabilidade individual. O artesão controlava todo o sistema de produção, desde a matéria-prima até a entrega final. O foco era atender à definição de qualidade do cliente de forma personalizada, resultando em mercadorias únicas. Embora a qualidade fosse alta, o custo era igualmente elevado e a escala de produção, mínima.
2. A Era da Produção e a Revolução Industrial (1750 – 1950)
Com a transição para a produção por máquinas, o mundo viu um impacto fantástico na redução de custos. No entanto, a qualidade tornou-se secundária. O controle era realizado por meio de inspeções massivas ao final da linha, e a estrutura gerencial tornou-se robusta, mas fragmentada por barreiras departamentais.
O Taylorismo (1875)
Frederick Taylor introduziu a “Administração Científica”, dividindo o trabalho em pequenas unidades de processamento. O foco era a eficiência e a produtividade em processos complexos, mas a separação entre quem “planejava” e quem “executava” criou novos desafios para a gestão da qualidade.
O Fordismo (1900 – 1930)
Henry Ford revolucionou a indústria com o conceito de linha de montagem. Ele introduziu sistemas à prova de erros e intensificou a inspeção, mas o aumento da velocidade de produção também escalou os problemas de qualidade, evidenciando que a inspeção final não era o método mais eficaz para garantir a conformidade.
3. O Surgimento do Controle Estatístico: A Era Shewhart (1930)
Um dos marcos mais importantes para o Lean Seis Sigma ocorreu na década de 1930 com Walter Shewhart. Trabalhando na Bell Telephones, Shewhart compreendeu que os problemas de qualidade estavam intrinsecamente ligados à variação nos processos.
Ele propôs uma divisão fundamental nas causas de variação:
- Causas Comuns: Inerentes ao sistema.
- Causas Especiais: Eventos esporádicos que desestabilizam o processo.
Shewhart desenvolveu o gráfico de controle, uma ferramenta vital para identificar essas variações, e o ciclo de Shewhart, que promovia o uso do método científico para solucionar problemas. Paralelamente, Ronald Fisher contribuía com técnicas de análise de dados e experimentos na agricultura, que seriam fundamentais para o futuro Seis Sigma.
4. A Era do Gerenciamento da Qualidade (1950 – Atualidade)
Após a Segunda Guerra Mundial, o cenário mudou. W. Edwards Deming, discípulo de Shewhart, foi ao Japão para auxiliar na reconstrução do país
a potência competitiva. Ishikawa, por exemplo, introduziu o diagrama de causa e efeito, democratizando o acesso às ferramentas de análise.
Nesta era, a qualidade deixou de ser apenas uma verificação técnica para se tornar um modelo de gestão estratégica. Nos anos 70, os produtos japoneses começaram a dominar o mercado ocidental pela combinação de alta qualidade e preços competitivos, forçando o Ocidente a repensar seus currículos de engenharia e gestão.
5. O Nascimento do Lean e do Seis Sigma (1980 – 1990)
Entre as décadas de 80 e 90, ocorreram as maiores transformações.
- Seis Sigma: A Motorola propôs o desafio de aumentar a qualidade de forma exponencial, focando na redução de defeitos para uma meta de 3,4 defeitos por milhão de oportunidades. O foco aqui era a análise de dados e técnicas estatísticas para tomada de decisão.
- Lean Manufacturing: Originado do Sistema Toyota de Produção (TPS), o Lean focava no mapeamento de processos, eliminação de desperdícios e desenvolvimento de uma cultura de melhoria contínua. O termo foi popularizado pelo livro “A Máquina que Mudou o Mundo”.
6. A Convergência: Lean Seis Sigma
Na década de 1990, pesquisadores e consultores notaram que as duas metodologias possuíam o mesmo objetivo final: realizar melhorias profundas dentro das organizações. O nascimento do Lean Seis Sigma permitiu a integração das ferramentas de mapeamento e fluxo do Lean com a precisão estatística do Seis Sigma.
Essa união foi potencializada pelo lançamento do livro “Modelo de Melhoria”, que integrou métodos e ferramentas em uma abordagem robusta e eficaz. O Lean Seis Sigma moderno utiliza o roteiro DMAIC (Define, Measure, Analyze, Improve, Control) como um guia seguro para estruturar projetos, garantindo que tenham início, meio e fim com resultados comprovados por dados.
Por que o Black Belt deve dominar essa história?
A evolução da qualidade nos ensina que o progresso é fruto da aplicação do conhecimento científico sobre o sistema. Como Black Belts, somos os guardiões desse conhecimento. O sucesso de um projeto de melhoria depende do equilíbrio entre o conhecimento específico do processo e o conhecimento da ciência da melhoria, que envolve psicologia, visão sistêmica, entendimento de variação e teoria do conhecimento.Hoje, a qualidade não é apenas sobre não ter erros; é sobre criar valor para o cliente, reduzir custos e encontrar soluções inovadoras para sobreviver em um mercado globalizado.