A fábrica fechou o ano com 14 acidentes com afastamento, contra 19 no ano anterior. A diretoria comemorou a queda de 26%, o técnico de segurança recebeu o reconhecimento e a campanha “Zero Acidente” foi renovada. Só que as horas trabalhadas também tinham caído: a empresa perdeu um turno inteiro em março. Recalculado pelas horas de exposição, o risco por hora trabalhada era praticamente o mesmo. E, no ano seguinte, com o turno de volta, os acidentes voltaram a 20.
O número absoluto de acidentes engana quem gerencia segurança, e engana nos dois sentidos: esconde melhoria real quando a empresa cresce e inventa melhoria quando ela encolhe. Este artigo explica o que a lei considera acidente de trabalho, os tipos, o que fazer quando ele acontece e a CAT. Depois, entra no que decide se a empresa vai ter menos acidentes no ano que vem: como medir direito e onde agir. No meio do texto há uma calculadora de taxa de frequência e de gravidade para você usar com os seus números.
O que é acidente de trabalho?
Acidente de trabalho é o que acontece pelo exercício do trabalho a serviço da empresa e provoca lesão corporal ou perturbação funcional que cause morte, perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. A definição é da Lei 8.213/1991, artigo 19, e vale para o trabalhador com carteira assinada, o trabalhador avulso e o segurado especial. A lei equipara ao acidente típico a doença ocupacional e o acidente de trajeto, e é isso que faz o conceito jurídico ser bem mais largo do que a imagem de alguém se machucando na máquina.
Tipos de acidente de trabalho
Tipo
O que é
Exemplo
Acidente típico
Evento súbito durante a atividade de trabalho
Corte na mão na guilhotina; queda da escada no almoxarifado
Acidente de trajeto
Ocorre no percurso entre a casa e o trabalho, em qualquer meio de locomoção
Queda de moto a caminho do turno
Doença profissional
Produzida pelo exercício de atividade peculiar a determinada função
Perda auditiva induzida por ruído em operador de prensa
Doença do trabalho
Adquirida em função das condições especiais em que o trabalho é realizado
Lesão por esforço repetitivo em linha de montagem sem rodízio
Equiparados
Situações que a lei trata como acidente: agressão no local de trabalho, contaminação acidental, acidente em viagem a serviço
Técnico de manutenção acidentado no cliente
O que fazer quando acontece um acidente de trabalho
1. Atendimento imediato. Socorro ao acidentado e isolamento da área, para que ninguém mais se exponha e para que as condições do local sejam preservadas para a investigação.
2. Comunicação e CAT. A empresa emite a Comunicação de Acidente de Trabalho até o primeiro dia útil seguinte ao acidente, e imediatamente em caso de morte. Se a empresa não emitir, podem emitir o próprio trabalhador, seus dependentes, o sindicato, o médico que o atendeu ou a autoridade pública. A emissão é feita pelo eSocial e vale para todos os casos, com ou sem afastamento.
3. Afastamento e INSS. Os primeiros quinze dias de afastamento são pagos pela empresa; a partir do décimo sexto, o trabalhador passa ao auxílio por incapacidade temporária acidentário. Depois da alta, ele tem estabilidade de doze meses no emprego.
4. Investigação. Em até poucos dias, enquanto as evidências existem, a equipe reconstrói o que aconteceu e, principalmente, por que as barreiras não funcionaram. É a etapa que decide se o próximo caso vai acontecer, e é também a mais apressada na maioria das empresas. O passo a passo está em investigação de acidentes.
Por que o número de acidentes engana
Volte à fábrica da abertura. Catorze acidentes com menos horas de exposição e dezenove com mais horas não são comparáveis. O número absoluto mistura duas coisas: o risco do processo e o tamanho da exposição. Para separar, a NBR 14280 define dois indicadores padronizados por milhão de horas trabalhadas, o que permite comparar anos, unidades e empresas de tamanhos diferentes.
A taxa de frequência conta quantos acidentes aconteceram a cada milhão de horas-homem de exposição. A taxa de gravidade conta quantos dias foram perdidos (e debitados, nos casos de morte ou incapacidade permanente) a cada milhão de horas. A primeira diz se os acidentes estão acontecendo mais ou menos; a segunda, se estão mais ou menos graves. Uma empresa pode reduzir a frequência e aumentar a gravidade no mesmo ano, e só o par mostra isso.
Calculadora de taxa de frequência e taxa de gravidade (NBR 14280)
Com os números da abertura, a diferença aparece: 14 acidentes em 1,15 milhão de horas dão taxa de frequência de 12,2; os 19 do ano anterior, em 1,52 milhão de horas, davam 12,5. A “queda de 26%” era uma queda de 2%, dentro da variação que qualquer processo estável produz de um ano para o outro. A campanha foi comemorada por um resultado que não existia.
Há um segundo cuidado. Acidente com afastamento é evento raro: numa operação média, um por mês ou menos. Com tão poucos pontos, dois casos a mais ou a menos parecem tendência. Por isso a leitura certa é mês a mês num gráfico no tempo, e não o total do ano contra o total do ano anterior; e é por isso que os indicadores mais úteis para o dia a dia são os que acontecem com mais frequência, como os quase-acidentes e os acidentes sem afastamento, que mostram onde o risco está antes de alguém se machucar. A proporção entre eles é o que a pirâmide de Heinrich tentou descrever, com os limites que o artigo sobre ela discute.
Figura 1. O mesmo par de anos lido pelo número absoluto e pela taxa de frequência: a queda desaparece quando se divide pelas horas de exposição.
Onde agir para reduzir acidentes de trabalho
A resposta mais comum a um acidente é a mais fraca: treinar de novo, advertir quem não usava o equipamento, reforçar a campanha. Essas ações atuam na pessoa, e a maior parte dos acidentes nasce de condições do processo que continuam lá depois da advertência: a máquina sem proteção, o layout que obriga a atravessar o corredor da empilhadeira, a meta que empurra o operador a pular a etapa de bloqueio. A distinção entre o que a pessoa fez e o que o processo permitiu é o centro do artigo sobre ato inseguro e condição insegura.
A ordem de eficácia das medidas é conhecida e está na NR-1: eliminar o risco, substituir, controlar com proteção coletiva, organizar o trabalho e, por último, proteger a pessoa com equipamento individual. Os cinco níveis e o motivo pelo qual as empresas costumam começar pelo último estão na hierarquia de controles; a diferença prática entre proteção coletiva e individual, e por que o EPI entregue não derruba o número, está em EPI e EPC.
E cada mudança deve ser tratada como teste, não como solução declarada. Uma proteção instalada numa máquina, com predição escrita (“os cortes na linha de guilhotina caem de 11 para menos de 4 em doze meses”) e acompanhamento mensal, gera conhecimento; uma campanha sem predição gera só a sensação de que algo foi feito. É o mesmo ciclo de teste e verificação que a formação Green Belt ensina para defeitos de produto, aplicado aqui ao processo que produz acidentes.
O custo de continuar medindo pelo total do ano
A empresa que mede segurança pelo total anual de acidentes vai comemorar anos de variação favorável e punir anos de variação desfavorável, sem que nada no processo tenha mudado em nenhum dos dois. Vai trocar o técnico de segurança depois de um ano ruim, renovar a campanha depois de um ano bom, e continuar com a mesma taxa de frequência por uma década. O custo não aparece no relatório: são os acidentes que continuam acontecendo porque a organização acha que já está melhorando, e as melhorias reais que ninguém reconhece porque coincidiram com um ano de mais horas trabalhadas.
Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi separar o número absoluto de acidentes do risco por hora trabalhada, e mostrar por que a leitura no tempo muda a decisão sobre onde agir.
Para aprender a ler indicadores no tempo e distinguir variação normal de mudança real, antes da próxima campanha de segurança, comece pelo curso White Belt gratuito da EDTI.
Perguntas frequentes
O que é considerado acidente de trabalho?
É o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa e provoca lesão ou perturbação funcional que cause morte ou redução da capacidade para o trabalho (Lei 8.213/1991, art. 19). A lei equipara a ele o acidente de trajeto, as doenças profissionais e do trabalho e situações como agressão no local de trabalho.
Quais são os tipos de acidente de trabalho?
Acidente típico, acidente de trajeto, doença profissional, doença do trabalho e os casos equiparados pela lei. Todos exigem emissão de CAT, com ou sem afastamento.
Qual o prazo para emitir a CAT?
Até o primeiro dia útil seguinte ao acidente, e imediatamente em caso de morte. Se a empresa não emitir, podem emitir o trabalhador, os dependentes, o sindicato, o médico ou a autoridade pública.
Quem se acidenta no trajeto tem direito a estabilidade?
Sim, desde que o afastamento ultrapasse quinze dias e haja concessão do benefício acidentário: a estabilidade é de doze meses após a alta, como no acidente típico.
Como calcular a taxa de frequência de acidentes?
Multiplique o número de acidentes com afastamento por um milhão e divida pelas horas-homem trabalhadas no período (NBR 14280). A taxa de gravidade usa os dias perdidos e debitados no lugar do número de acidentes. A calculadora deste artigo faz as duas contas.
Qual o erro mais comum na gestão de acidentes de trabalho?
Comparar o total do ano com o do ano anterior e agir sobre a pessoa, e não sobre a condição do processo. Medir por hora trabalhada, ler mês a mês e testar cada mudança com predição é o que a formação em melhoria de processos da EDTI ensina a fazer com qualquer indicador, inclusive os de segurança.