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Lesão por pressão: estágios, prevenção e por que a incidência não cai com o protocolo

Um mês com uma lesão por pressão nova, outro com cinco. Na UTI adulto de 20 leitos de um hospital geral, a coordenação de enfermagem comemorava o primeiro e cobrava a equipe no segundo, todos os meses, havia dois anos. O protocolo de prevenção tinha sido revisado, a escala de Braden estava no prontuário eletrônico, a auditoria de registros dava 94% de conformidade. E a incidência, somada no fim do ano, era a mesma do ano anterior: 29 lesões novas em cerca de 7 mil pacientes-dia.

O que é lesão por pressão

Lesão por pressão (LPP) é um dano localizado na pele e/ou no tecido mole subjacente, geralmente sobre uma proeminência óssea ou relacionado ao uso de dispositivo médico, resultante de pressão intensa ou prolongada, combinada ou não com cisalhamento. A definição é do National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP), que em 2016 trocou o termo “úlcera por pressão” por “lesão por pressão”, porque o dano começa antes de a pele se abrir. No Brasil, a prevenção é um dos protocolos básicos do Programa Nacional de Segurança do Paciente, publicado pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa em 2013.

É um evento adverso em grande parte evitável, e por isso a incidência de LPP é um dos indicadores de segurança do paciente mais usados em acreditação e na gestão de enfermagem.

Estágios da lesão por pressão

Classificação (NPIAP 2016) O que se vê
Estágio 1 Pele íntegra com eritema que não embranquece ao toque
Estágio 2 Perda da pele em espessura parcial, com exposição da derme; leito rosado, úmido, sem esfacelo
Estágio 3 Perda da pele em espessura total; gordura visível, sem exposição de fáscia, músculo, tendão ou osso
Estágio 4 Perda total da pele e do tecido, com exposição de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso
Não classificável Perda total encoberta por esfacelo ou escara, que impede avaliar a profundidade
Tissular profunda Área persistente vermelho-escura, marrom ou púrpura, com pele íntegra ou não

A mesma classificação vale para as lesões relacionadas a dispositivo médico, como sonda, máscara, cânula ou tala. As lesões em mucosa não são estadiadas.

Como prevenir lesão por pressão: o que o protocolo pede

O protocolo de 2013 organiza a prevenção em seis etapas: avaliação de risco na admissão, com uma escala validada como a escala de Braden; reavaliação diária; inspeção diária da pele; manejo da umidade; nutrição e hidratação; e minimização da pressão, com mudança de decúbito programada e superfícies de redistribuição. Nenhuma dessas etapas é controversa, e quase todo hospital as tem escritas. O que separa os hospitais que reduzem a incidência dos que não reduzem está em outro lugar.

Por que a incidência não cai apesar do protocolo

A UTI do exemplo media o indicador certo: a densidade de incidência, calculada como lesões novas adquiridas na internação ÷ pacientes-dia × 1.000. A média dos 12 meses era 4,2 por 1.000 pacientes-dia. Com cerca de 580 pacientes-dia por mês, um gráfico de controle para taxas, o gráfico U, põe o limite superior em 12,2 por 1.000, ou 7 lesões num mês. Todos os meses de dois anos estavam dentro dos limites. O mês com uma lesão e o mês com cinco eram o mesmo processo: comemorar um e cobrar o outro era reagir ao acaso. É a mesma leitura que a carta de controle da taxa de infecção faz para IRAS.

Processo estável num nível alto não muda com cobrança; muda com mudança no sistema. A coordenação fez então o que a auditoria de registros não fazia: foi observar à beira do leito. A Braden estava aplicada na admissão em 94% dos pacientes, como dizia a auditoria. Mas a reavaliação diária acontecia em 38%, e a mudança de decúbito registrada “a cada 2 horas” em 91% dos prontuários foi observada, no horário, em 54% das checagens. O protocolo estava documentado. Não estava implementado.

A causa principal apareceu na observação do plantão noturno: o relógio de decúbito ficava no posto de enfermagem, e quem estava no leito não sabia quando o paciente tinha sido virado pela última vez. A equipe testou uma mudança só, em 6 dos 20 leitos, por 4 semanas: um cartão de decúbito preso à cabeceira, com o horário e a posição anotados por quem fez a mudança, e a reavaliação da Braden incluída na passagem de plantão. A predição escrita antes era de mudança de decúbito no horário em mais de 80% das checagens observadas. Deu 86%. O teste foi levado aos 20 leitos, e nos 9 meses seguintes a incidência ficou abaixo da média antiga em todos os meses, com média de 1,9 por 1.000 pacientes-dia. Oito pontos seguidos abaixo da linha central já são sinal de mudança real; nove não deixam dúvida.

Calculadora: incidência de lesão por pressão no mês



Como medir a lesão por pressão sem se enganar

  • Conte só as adquiridas na internação. Lesão presente na admissão entra no registro, não no indicador da unidade. Misturar as duas faz a incidência subir quando o pronto-socorro recebe pacientes mais graves.
  • Use pacientes-dia no denominador. Uma unidade com mais permanência expõe mais dias ao risco; dividir por internações esconde isso.
  • Leia no tempo, com limites. Mês contra mês não diz se o processo mudou. O gráfico mês a mês diz, e o artigo sobre indicadores de enfermagem mostra como montar o painel da unidade.
  • Meça também o processo. Reavaliação diária da Braden e mudança de decúbito no horário são indicadores de processo: mostram a causa semanas antes de a lesão aparecer.
  • Notifique toda lesão nova. A notificação de incidentes alimenta o indicador e a análise; lesão que não é notificada some do número e continua no paciente.

O erro que a próxima auditoria vai repetir

A auditoria de prontuário vai continuar dando mais de 90% de conformidade, porque ela mede o registro, e o registro é a parte mais fácil de cumprir. Se a unidade usar esse número para dizer que o protocolo funciona, vai atribuir a lesão seguinte ao paciente grave ou ao plantão ruim, e mais um ano vai passar com a incidência no mesmo lugar. A pergunta que muda o resultado é outra: o que acontece à beira do leito às 3 da manhã, e quem sabe quando o paciente foi virado pela última vez. Separar o que está escrito do que está sendo feito é o centro da formação Green Belt aplicada a qualquer processo, e da formação em melhoria para a saúde.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a leitura da densidade de incidência num gráfico U e a diferença entre protocolo documentado e protocolo executado.


Para aprender a medir eventos adversos no tempo, testar uma mudança por vez e sustentar o resultado na unidade, conheça o curso de Lean Healthcare da EDTI ou comece pelo Introdução ao Lean Healthcare, gratuito.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre úlcera por pressão e lesão por pressão?

É o mesmo agravo. O NPIAP trocou o nome em 2016 porque “úlcera” sugeria pele aberta, e o estágio 1 e a lesão tissular profunda acontecem com a pele íntegra. No Brasil, “lesão por pressão” é o termo adotado pela enfermagem desde então.

Como calcular a incidência de lesão por pressão?

Densidade de incidência = número de lesões por pressão novas adquiridas na internação no período ÷ pacientes-dia no mesmo período × 1.000. O resultado é expresso por 1.000 pacientes-dia e deve ser acompanhado mês a mês.

Qual escala avalia o risco de lesão por pressão?

A mais usada no Brasil é a escala de Braden, que pontua de 6 a 23 em seis itens: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição e fricção/cisalhamento. Quanto menor o escore, maior o risco; em geral, 18 ou menos já indica risco.

De quanto em quanto tempo mudar o decúbito?

O intervalo de 2 horas é o mais citado, mas o protocolo pede frequência individualizada pelo risco, pela superfície usada e pela condição da pele. O que mais falha na prática não é o intervalo escolhido; é saber, no leito, quando foi a última mudança.

Quais são os estágios da lesão por pressão?

Estágios 1 a 4, conforme a profundidade, mais duas categorias: não classificável, quando esfacelo ou escara impedem ver a profundidade, e lesão tissular profunda. As lesões relacionadas a dispositivo médico usam a mesma classificação.

Onde aprender a reduzir eventos adversos com método?

A Escola EDTI ensina gestores de saúde a medir eventos adversos no tempo, separar variação comum de causa especial e testar mudanças em pequena escala antes de expandir. O Introdução ao Lean Healthcare é gratuito e é o ponto de partida.

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