Às 7h40 a equipe de manutenção assinou a APR da troca do redutor da esteira 3. O formulário estava completo: seis perigos listados, severidade e probabilidade marcadas, assinatura do técnico de segurança. Em quatro das seis linhas, a medida de controle era “usar EPI” ou “atenção redobrada”. Às 9h15 um mecânico prendeu a mão entre a correia e o tambor. A esteira tinha sido desligada no painel, mas não bloqueada, e alguém da produção religou para escoar o material parado.
A APR não estava errada no papel. Ela só não previa o que aconteceu, porque foi preenchida na sala, a partir do modelo do ano anterior, e não no lugar onde o trabalho seria feito. A planta tinha emitido 312 APRs naquele ano, com tempo médio de preenchimento de seis minutos. O número que importava, quantas das medidas listadas estavam de fato no local quando o trabalho começou, ninguém media.
O que é APR (análise preliminar de risco)?
A análise preliminar de risco (APR) é o levantamento feito antes de uma atividade para identificar os perigos de cada etapa, estimar o risco e definir as medidas de controle que precisam estar no local antes de o trabalho começar. Ela serve para decidir se o trabalho pode ser executado, em que condições e com quais barreiras.
Definida pelo que resolve, a APR responde a uma pergunta só: o que pode dar errado nesta tarefa, aqui e hoje, e o que vai impedir que dê? Ela nasceu na indústria militar e aeroespacial norte-americana, como Preliminary Hazard Analysis, para avaliar sistemas ainda em projeto. Na indústria brasileira ganhou uso operacional: tarefa não rotineira, manutenção, trabalho em altura, espaço confinado, intervenção em máquina. Normas como a NR-35 exigem análise de risco antes do trabalho em altura, e muitas empresas adotam a APR como o formato dessa análise.
| Coluna da APR | O que registrar | Sinal de APR fraca |
|---|---|---|
| Etapa | Cada passo da tarefa, na ordem em que será feito | Uma linha só: “troca do redutor” |
| Perigo | A fonte de dano: energia, altura, peso, produto químico, ponto de esmagamento | “Risco de acidente” |
| Consequência | O dano possível, em linguagem concreta | Campo em branco |
| Severidade × probabilidade | Nota de 1 a 3 em cada; o produto classifica o risco | Todas as linhas com a mesma nota |
| Medida de controle | A barreira, pela hierarquia de controles | “Usar EPI”, “atenção” |
| Conferência no local | Quem confere, como e quando, antes do início | Coluna inexistente |
APR e PGR: a diferença que mais confunde
A confusão mais comum é tratar a APR como se fosse o inventário de riscos da empresa. O PGR da NR-1 é o programa: inventário dos riscos de todas as atividades, avaliação e plano de ação com prazo. A APR é a análise de uma atividade, num local, num dia. O PGR diz que a manutenção de esteiras tem risco de aprisionamento. A APR da troca do redutor diz que, nesta esteira, hoje, o bloqueio será feito no painel 3B, com cadeado do executante, e que o líder vai testar a partida antes do primeiro parafuso.
Quando as duas coisas se misturam, a APR vira cópia do inventário, genérica o bastante para servir a qualquer tarefa e, por isso mesmo, inútil para esta. O mapa de risco é a terceira peça, a representação visual dos riscos de cada área; não substitui nenhuma das duas. Depois da APR vem a permissão de trabalho, o documento que libera a execução quando as medidas estão conferidas.
Como fazer uma APR passo a passo
1. Divida a tarefa em etapas, no local e com quem vai executar. A troca do redutor tem pelo menos cinco: isolar a área, desenergizar e bloquear, desmontar a proteção, trocar o redutor, testar e liberar. Quem executa enxerga etapas que o técnico de segurança, na sala, não enxerga.
2. Para cada etapa, liste os perigos. Pergunte por energia (elétrica, mecânica, pneumática, gravitacional), por peso, por altura, por ponto de esmagamento e por interferência de outras pessoas. No caso da abertura, o perigo que faltou foi justamente o último: outra equipe com acesso ao painel.
3. Estime severidade e probabilidade. Uma escala de 1 a 3 em cada eixo basta. O produto vai de 1 a 9; a partir de 6, a tarefa não começa sem uma medida de engenharia ou de eliminação.
4. Escolha as medidas pela hierarquia de controles. Eliminar o perigo, substituir, isolar por engenharia, controlar por procedimento e, por último, EPI. Uma APR em que a maioria das medidas é EPI ou “atenção” está dizendo que ninguém pensou em barreira.
5. Diga como cada medida será conferida antes de começar. “Bloqueio com cadeado” vira “bloqueio com cadeado do executante no painel 3B, teste de partida feito pelo líder, conferido às 7h50”. É essa coluna que transforma o formulário em barreira.
6. Pare e refaça se algo mudar. Peça diferente, equipe nova, chuva, outra frente de trabalho ao lado: a APR vale para as condições em que foi feita.
Modelo de APR para preencher
Clique nas células para editar. Depois, baixe em CSV (abre no Excel) ou imprima para levar ao local.
APR — Atividade: troca do redutor da esteira 3 · Local: expedição · Data:
| Etapa | Perigo | Consequência | S (1-3) | P (1-3) | Risco (S×P) | Medida de controle | Responsável | Conferida no local (quem/hora) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Desenergizar e bloquear | Partida inesperada da esteira | Aprisionamento da mão | 3 | 2 | 6 | Cadeado do executante no painel 3B + teste de partida | Líder de manutenção | |
| Desmontar a proteção | Peça de 18 kg | Lesão lombar, esmagamento do pé | 2 | 2 | 4 | Talha manual; dois executantes | Executante | |
Executantes: · Aprovação:
Exemplo: a APR da esteira 3, refeita
Depois do acidente, a planta mudou duas coisas e mediu uma. A APR passou a ser preenchida no local, com o executante, e ganhou a coluna de conferência. A troca do redutor saiu com cinco etapas e onze perigos, três deles com risco 6 ou mais, todos com medida de engenharia: bloqueio com cadeado individual, talha para a peça de 18 kg, isolamento físico da área com corrente. O tempo de preenchimento subiu de 6 para 18 minutos.
A mudança medida foi outra. O técnico de segurança passou a sortear 20 APRs por semana e conferir no campo quantas das medidas listadas estavam realmente no lugar quando o trabalho começou. Nas quatro primeiras semanas, a proporção ficou em torno de 58%. Entre a 11ª e a 20ª semana, estabilizou perto de 91%, e não houve aprisionamento nos seis meses seguintes.
Essa proporção só diz alguma coisa lida semana a semana, num gráfico de tendência: uma semana boa isolada não prova nada. Separar oscilação normal de mudança de patamar com um gráfico de controle para proporções é uma das competências da formação Green Belt, e é ela que impede a planta de comemorar a semana de 95% e se assustar com a de 84%, quando as duas são o mesmo processo.
Por que a APR assinada não protege ninguém
Preencher a APR é documentar. Proteger é a medida estar no local quando a mão entra na máquina. Entre um e outro existe uma distância que o formulário esconde, porque o papel assinado parece prova de controle. A planta da abertura tinha 312 provas desse tipo e nenhuma medida do que acontecia no campo.
O indicador de processo da APR não é quantas foram emitidas nem quanto tempo levam. É a proporção de medidas presentes no local na conferência de campo. Se esse número não existe, a empresa não sabe se tem barreira ou só formulário.
Até onde a APR leva
A APR leva até o início do trabalho: identifica, decide e confere. Daqui em diante, o que mostra se ela funcionou é o que aconteceu de fato, e isso é território de outros instrumentos. O quase acidente é o sinal de que uma barreira falhou sem dano; a investigação de acidentes pergunta por que a medida prevista não estava lá. Uma APR bem feita alimenta as duas, e as duas devolvem perigos que a próxima APR precisa listar.
Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi transformar a APR de formulário em barreira conferida no local, com um indicador de processo lido no tempo.
Uma APR que funciona depende menos do formulário e mais de pensar a tarefa como um processo: etapas, falhas possíveis, barreiras e a evidência de que elas estão no lugar. É o raciocínio que o curso White Belt da Escola EDTI apresenta de forma estruturada, como primeiro passo para quem quer melhorar processos com método, inclusive os de segurança.
Perguntas frequentes
Quem deve elaborar a APR?
A equipe que vai executar a tarefa, com o líder e, quando necessário, o técnico de segurança. Quem executa conhece as etapas e os perigos do local; o técnico garante a avaliação e a escolha das barreiras.
Qual a diferença entre APR e análise de risco da NR-35?
A NR-35 exige análise de risco antes de todo trabalho em altura, mas não impõe um formulário. A APR é um dos formatos mais usados para cumprir essa exigência, desde que trate os itens específicos do trabalho em altura, como ancoragem, condições climáticas e resgate.
A APR precisa ser feita toda vez que a tarefa se repete?
Tarefas rotineiras costumam ser cobertas por procedimento e pelo inventário do PGR. A APR é indicada para atividade não rotineira, ou para atividade rotineira em condição diferente: outro local, outra equipe, equipamento novo, interferência de outra frente.
Como classificar o risco na APR?
Uma matriz de severidade por probabilidade, de 1 a 3 em cada eixo, já separa o que é aceitável do que exige barreira antes de começar. Mais importante que a escala é a regra de decisão: a partir de qual nota a tarefa não começa sem medida de engenharia.
Qual a diferença entre APR e permissão de trabalho?
A APR analisa os perigos e define as medidas. A permissão de trabalho autoriza a execução depois de conferido que essas medidas estão no local, com assinatura de quem libera e prazo de validade.
A APR é suficiente sozinha?
Não. Ela é a barreira antes da tarefa, e só funciona ligada ao PGR, à conferência de campo e ao aprendizado com quase acidentes. Ler a proporção de medidas presentes no local ao longo do tempo é o que mostra se o sistema protege, e é esse tipo de leitura que a Escola EDTI ensina a partir do White Belt.