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Experimento das contas vermelhas de Deming: o que ele prova sobre gestão

Contam que um gerente, depois de assistir a uma demonstração das contas vermelhas num seminário, levantou a mão e disse, muito sério: “Mas o Sérgio, o terceiro da fila, claramente tem mais jeito com a pá”. O instrutor pediu que ele olhasse de novo o quadro. O Sérgio tinha tirado 9 contas vermelhas no primeiro dia e 14 no segundo. No terceiro, 7. “Ele melhorou”, insistiu o gerente. O caso é ilustrativo, mas quem já conduziu o experimento conhece a cena: mesmo sabendo que tudo é sorteio, a plateia continua procurando o melhor e o pior operário.

É exatamente esse reflexo que o experimento foi criado para mostrar.

Como funciona o experimento das contas vermelhas

O experimento das contas vermelhas (red bead experiment) é uma demonstração que W. Edwards Deming fazia em seus seminários de quatro dias. Numa caixa há 4.000 contas misturadas: 3.200 brancas e 800 vermelhas, ou seja, 20% vermelhas. As brancas representam o produto bom; as vermelhas, o defeito. A gerência quer zero vermelhas.

  1. Seis voluntários da plateia são contratados como “operários dispostos”; outros fazem o papel de inspetores, inspetor-chefe e registrador.
  2. Cada operário mergulha uma pá com 50 furos na caixa, tira uma amostra de 50 contas e a leva aos inspetores, que contam as vermelhas.
  3. O resultado de cada um é escrito no quadro, por dia. O “supervisor” (o próprio Deming) elogia quem tirou poucas vermelhas, repreende quem tirou muitas, cria metas, slogans e incentivos, demite os piores e mantém os melhores.
  4. Depois de três ou quatro dias de “produção”, os resultados são analisados.

O que os números mostram

Com 20% de vermelhas e 50 contas por pá, o número esperado é 10 vermelhas por amostra. O resultado de cada operário oscila em torno disso, quase sempre entre 4 e 16, sem que nada que ele faça mude o resultado. A pá, a caixa e a proporção de vermelhas são definidas pela gerência. Os operários não têm como melhorar.

Contas vermelhas por pá de seis operários em três dias, todas dentro dos limites de 3 a 17 em torno da média 10
Simulação ilustrativa de 18 pás (seis operários em três dias). Os limites de controle, de cerca de 1,5 e 18,5, vêm da distribuição binomial com 20% de vermelhas e 50 contas por pá (média 10, mais ou menos três desvios-padrão de 2,83). Toda a diferença entre os operários é variação de causa comum.

Quando os pontos são colocados num gráfico de controle, todos ficam dentro dos limites. Isso quer dizer que a diferença entre o “melhor” e o “pior” operário é variação de causa comum: produzida pelo sistema, não pelas pessoas. Premiar, punir, demitir e trocar operários não muda nada, porque nada disso muda a caixa.

O que o experimento prova sobre gestão

O resultado é do sistema. Se 20% das contas são vermelhas, o processo produz em média 20% de defeito, com quem estiver na pá. Para mudar o resultado, é preciso mudar a caixa: o fornecedor, a especificação, o método. Isso é responsabilidade da gestão, uma das ideias centrais do Sistema de Conhecimento Profundo.

Meta sem método é decoração. A meta de zero vermelhas não muda a proporção da caixa. Deming usava o experimento para mostrar por que criticava metas numéricas e slogans, temas que aparecem nos 14 pontos de Deming.

Ranking de pessoas no mesmo sistema é sorteio. O “funcionário do mês” do quadro de contas vermelhas é escolhido pelo acaso. Isso vale para muitos rankings de vendas, de produtividade e de atendimento no mundo real, quando todos trabalham no mesmo processo.

Reagir a cada ponto piora as coisas. Se o supervisor muda o método do operário a cada pá ruim, ele introduz mais variação. Esse erro tem nome, tampering, e é o assunto do funil de Deming, a outra demonstração clássica dele.

Onde o experimento aparece no trabalho real

Uma central de atendimento que premia o atendente com menor tempo médio da semana, uma rede de lojas que chama o gerente da pior loja do mês para explicar a queda, um hospital que cobra a equipe do plantão com mais quedas de paciente: em todos esses casos, a pergunta do experimento vale. A diferença é maior do que o sistema produz sozinho? Para responder, a ferramenta é a carta de controle, que separa variação de causa comum de causa especial, explicada em profundidade no texto sobre variação estatística.

O experimento tem uma graça amarga: qualquer pessoa entende o mecanismo em dez minutos, e a mesma pessoa volta ao escritório e continua ranqueando operários. A pá é fácil de explicar. Difícil é mudar o hábito de gestão de culpar quem segura a pá. É para isso que serve o método, e é por isso que o raciocínio aparece logo no começo da formação, do White Belt à aplicação em projeto no Green Belt.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi a leitura do experimento como gráfico de controle e a consequência para rankings de desempenho.


Para aprender a distinguir causa comum de causa especial nos indicadores do seu trabalho, o próximo passo é o curso gratuito White Belt da Escola EDTI.

Perguntas frequentes sobre o experimento das contas vermelhas

Quantas contas vermelhas há no experimento de Deming?

Na versão clássica, 800 vermelhas entre 4.000 contas, ou 20%. A pá tem 50 furos, e o número esperado por amostra é 10.

Qual o objetivo do experimento das contas vermelhas?

Mostrar que, quando o resultado é produzido pelo sistema, recompensar ou punir pessoas não muda nada, e que a melhoria exige mudar o sistema.

Quem participa do experimento?

Seis operários, dois inspetores, um inspetor-chefe, um registrador e o supervisor, que no seminário original era o próprio Deming.

Qual a relação entre o experimento e o gráfico de controle?

Os resultados por pá, plotados num gráfico de controle, ficam todos dentro dos limites: é a demonstração visual de variação de causa comum.

Qual a diferença entre o experimento das contas vermelhas e o funil de Deming?

As contas vermelhas mostram que culpar pessoas não melhora um sistema estável; o funil mostra que ajustar o processo a cada resultado aumenta a variação (tampering).

O que estudar depois do experimento das contas vermelhas?

Variação de causa comum e especial, carta de controle e o ciclo PDSA para testar mudanças no sistema. São a base do curso gratuito White Belt da Escola EDTI.

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