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Kiichiro Toyoda: quem foi o fundador da Toyota e o que ele criou

Em junho de 1950, o homem que havia fundado a Toyota Motor treze anos antes renunciou à presidência da empresa. A companhia estava à beira da falência, tinha acabado de demitir cerca de dois mil trabalhadores depois de uma greve longa, e ele havia prometido publicamente que isso não aconteceria. A renúncia foi o preço que cobrou de si mesmo por não ter cumprido a promessa.

Kiichiro Toyoda tinha, àquela altura, formulado o conceito que se tornaria a espinha dorsal da manufatura moderna. Havia escrito sobre ele, batizado, defendido internamente e tentado aplicar por mais de uma década. E a empresa quase quebrou mesmo assim.

Essa distância — entre ter o conceito certo e conseguir fazê-lo funcionar — é a parte da história que interessa a quem trabalha com melhoria de processos.

Kiichiro não é Sakichi

A confusão mais comum neste assunto é entre pai e filho, e ela vale a pena desfazer logo porque os dois construíram coisas diferentes.

Sakichi Toyoda (1867-1930) foi o inventor: teares, patentes, e o mecanismo de parada automática que interrompia a máquina ao detectar o rompimento de um fio. Dele vieram o princípio que a Toyota chamaria de jidoka e o método de perguntar sucessivamente por que um problema aconteceu. A trajetória dele está em Sakichi Toyoda, e o conceito propriamente dito em jidoka — aqui eles aparecem só como herança.

Kiichiro Toyoda (1894-1952) foi o filho que transformou uma fabricante de teares numa montadora de automóveis. Formou-se em engenharia mecânica pela Universidade Imperial de Tóquio em 1920 e entrou na empresa da família num momento em que ninguém no Japão fabricava carros em escala.

A ponte entre as duas histórias é financeira e concreta: em 1929, a Toyoda vendeu à britânica Platt Brothers os direitos de patente do tear automático por cerca de cem mil libras. Foi esse dinheiro que Sakichi destinou ao filho para investigar se havia futuro em automóveis.

Da fábrica de teares à Toyota Motor

Kiichiro passou os anos seguintes viajando — Estados Unidos, Europa — visitando fábricas e estudando o método que Ford havia consolidado. Voltou com uma conclusão desconfortável: copiar a produção em massa americana não funcionaria no Japão.

O motivo era de escala e de capital. O mercado japonês da época era pequeno e fragmentado, exigindo variedade em volumes baixos, exatamente o oposto do que a linha de Ford fazia bem. E a empresa não tinha dinheiro para financiar os estoques enormes que aquele modelo pressupunha.

Em 1933, ele criou uma divisão automotiva dentro da fabricante de teares. O primeiro protótipo saiu em 1935 e o primeiro sedã, o modelo AA, em 1936. Em agosto de 1937 a divisão virou empresa independente — e mudou de nome. Toyoda virou Toyota: escrito em katakana, o novo nome usava oito traços, número associado à prosperidade no Japão, e tinha a vantagem de separar a marca do sobrenome da família. A história da empresa daí em diante está em origem da Toyota.

O just in time nasceu de uma restrição, não de uma teoria

É aqui que Kiichiro entra na história da melhoria de processos.

Sem capital para manter estoques, ele inverteu a lógica de abastecimento vigente. Em vez de cada etapa produzir o máximo que conseguisse e empurrar o resultado adiante, cada etapa produziria apenas o que a etapa seguinte precisasse, no momento em que precisasse. Ele chamou isso de just in time — a expressão é dele, cunhada nos anos 1930.

Repare no que esse arranjo faz e no que ele exige. Ele elimina a necessidade de financiar montanhas de peças paradas. Em troca, expõe imediatamente qualquer problema: se uma etapa falha, não há estoque amortecendo, e a linha inteira sente. Estoque, nessa leitura, não é um recurso — é um colchão que esconde os defeitos do processo.

A ideia era correta e a empresa não conseguiu executá-la. Fornecedores não entregavam com a regularidade necessária, a qualidade interna variava demais para operar sem folga, e a economia japonesa do pós-guerra tornou tudo mais difícil. A crise de 1949-1950 veio dessa combinação, e com ela a greve, as demissões e a renúncia.

Doze anos entre o conceito e o sistema

Kiichiro morreu em março de 1952, aos 57 anos, de hemorragia cerebral, pouco antes de retornar à presidência da empresa. Não viu o just in time funcionando.

O que faltava não era mais convicção nem mais divulgação interna. Faltavam os mecanismos: uma forma de sinalizar a necessidade entre etapas sem depender de programação central, uma disciplina de parar a linha quando algo saísse errado, tempos de troca de ferramenta curtos o bastante para produzir lotes pequenos sem inviabilizar o custo, e fornecedores estruturados para entregar com frequência. Cada um desses mecanismos levou anos para ser construído, testado e ajustado — e foi Taiichi Ohno quem os construiu, ao longo das décadas de 1950 e 1960, dando origem ao Sistema Toyota de Produção.

Vale nomear a distinção com precisão, porque ela é frequentemente apagada. Kiichiro formulou o just in time e definiu o princípio. Ohno implementou, e a implementação exigiu inventar coisas que o princípio não continha. São contribuições diferentes, e nenhuma das duas substitui a outra.

O que essa história ensina sobre melhoria

O padrão que a trajetória de Kiichiro revela se repete em qualquer organização, com qualquer método.

Uma diretriz correta é anunciada, documentada e comunicada. Todos concordam com ela. Meses depois, o comportamento no chão de fábrica continua o mesmo — não por má vontade, mas porque a diretriz descrevia um destino sem construir o caminho. Documentar um princípio e implementá-lo são trabalhos de naturezas diferentes, e o segundo é ordens de magnitude mais lento que o primeiro.

Foi o que aconteceu na Toyota entre 1938 e 1950. O conceito estava certo, escrito e defendido pelo presidente da empresa. O sistema que o sustentaria ainda não existia — e enquanto não existiu, a diretriz produziu tensão em vez de resultado.

A lição prática é sobre sequência. Antes de anunciar um princípio, vale perguntar quais mecanismos precisam existir para que ele seja executável, e construí-los um a um, testando cada um em pequena escala antes de exigir que a operação inteira funcione do jeito novo. É essa disciplina — testar antes de implantar, e verificar se a mudança de fato melhorou o indicador — que estrutura o trabalho de melhoria e é o núcleo da formação Green Belt.

De Kiichiro em diante

A contribuição de Kiichiro Toyoda tem limite claro, e reconhecê-lo é o que dá a ele o crédito certo. Ele viu que o modelo de produção em massa não serviria ao contexto japonês, formulou a alternativa e sustentou a aposta até o ponto em que ela lhe custou o cargo.

Daqui em diante, o problema deixa de ser dele. Transformar o princípio em prática cotidiana foi trabalho de outra geração, com outras ferramentas, e resultou no conjunto de práticas que hoje se estuda sob o nome de toyotismo. Quem quiser entender por que a Toyota conseguiu o que conseguiu precisa das duas metades da história — e a segunda metade não é uma nota de rodapé da primeira.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi separar a formulação de um princípio de produção da construção dos mecanismos que o tornam executável.


Entender por que um princípio correto leva anos para virar prática é o começo do raciocínio de melhoria. O White Belt gratuito da EDTI apresenta esse raciocínio em poucas horas, sem custo.

Perguntas frequentes sobre Kiichiro Toyoda

Quem foi Kiichiro Toyoda?

Engenheiro mecânico japonês (1894-1952), filho de Sakichi Toyoda e fundador da Toyota Motor Corporation em 1937. Foi ele quem converteu a fabricante de teares da família numa montadora de automóveis e quem formulou o conceito de just in time.

Qual a diferença entre Kiichiro e Sakichi Toyoda?

Sakichi foi o pai, inventor de teares, autor do mecanismo de parada automática que originou o jidoka e do método de perguntar por quê sucessivamente. Kiichiro foi o filho, engenheiro, que fundou a divisão automotiva e criou o just in time. São contribuições distintas, em gerações e setores diferentes.

Por que a Toyoda passou a se chamar Toyota?

Na criação da empresa automotiva, em 1937, adotou-se a grafia Toyota em katakana, que usa oito traços — número associado à prosperidade no Japão. A mudança também separou a marca do sobrenome da família, distinguindo o negócio de automóveis da fabricante de teares.

Kiichiro Toyoda criou o Sistema Toyota de Produção?

Não. Ele formulou o just in time, que é um dos pilares do sistema, mas não chegou a implementá-lo em operação estável. O Sistema Toyota de Produção como conjunto articulado de práticas foi construído por Taiichi Ohno ao longo das décadas de 1950 e 1960, depois da morte de Kiichiro.

Por que ele renunciou à presidência da Toyota?

Em 1950, após uma crise financeira grave e uma greve prolongada, a empresa demitiu cerca de dois mil trabalhadores — contrariando o compromisso público que Kiichiro havia assumido de não fazer demissões. Ele renunciou assumindo responsabilidade pessoal pelo descumprimento.

Qual o erro mais comum ao falar do just in time de Kiichiro Toyoda?

Tratar a formulação do conceito como se fosse a sua implementação. Kiichiro definiu o princípio nos anos 1930 e a Toyota levou mais duas décadas para construir os mecanismos que o tornaram executável. Confundir as duas coisas leva à expectativa de que anunciar um método basta para adotá-lo — o erro que a própria história da empresa desmente.

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