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O sistema just in time aplicado ao abastecimento do hospital

Você já viu esse gráfico. O hospital fecha um projeto de logística, o estoque central cai de 38 para 26 dias de cobertura, o resultado é apresentado na reunião de diretoria, e todo mundo comemora um corte de quase um terço. Dois anos depois, alguém puxa o mesmo indicador para uma auditoria de rotina: 41 dias. Mais estoque do que antes do projeto.

O que aconteceu no meio não está em relatório nenhum, porque aconteceu dentro das gavetas. Durante o projeto, o percentual de itens em falta no momento do pedido subiu de 4% para 11%. As unidades reagiram como qualquer equipe reage quando não pode contar com o abastecimento: passaram a guardar material. Na auditoria, seis unidades tinham 1.240 itens fora do sistema — o equivalente a nove dias de consumo, invisíveis para quem planeja a compra.

Refaça a conta do projeto original com esse número: os 26 dias visíveis mais os 9 escondidos dão 35 dias reais contra 38 antes. O ganho não foi de doze dias. Foi de três — e veio acompanhado de um sistema de reposição em que ninguém mais confia.

Por que o estoque paralelo é o indicador mais honesto do hospital

O material guardado na unidade é frequentemente tratado como indisciplina, e resolvido por circular interna proibindo a prática. Ele não é indisciplina: é uma resposta racional a um sistema de reposição que falha de forma imprevisível. A enfermeira que esconde vinte cateteres está fazendo gestão de risco com a informação que tem, e ela está certa dentro do sistema em que trabalha — o custo de faltar material no meio de um procedimento é incomparavelmente maior que o custo de guardar.

Isso torna o estoque paralelo a medida operacional mais direta da confiança no abastecimento. Quando ele cresce, o sistema formal está falhando, independentemente do que os indicadores oficiais mostrem. Quando ele desaparece sozinho, sem proibição nenhuma, o abastecimento passou a ser confiável. É por isso que proibir o estoque paralelo antes de corrigir a reposição só produz um efeito garantido: ele fica mais bem escondido.

Aqui está a distância entre o que está implementado e o que está documentado. A política de reposição existe, está aprovada e descreve um fluxo que funcionaria. O sistema que realmente abastece o hospital é outro, e ele é feito de gavetas, favores entre unidades e telefonemas para a farmácia. Nenhum projeto de melhoria funciona enquanto o mapa usado for o documento, e não o fluxo real.

O que o just in time realmente exige

Aplicado ao abastecimento hospitalar, o just in time significa que o material chega à unidade na quantidade necessária, no momento em que vai ser usado — não porque o estoque foi cortado por meta, mas porque o intervalo entre o consumo e a reposição ficou curto e previsível o bastante para tornar o estoque desnecessário. A ordem importa: o estoque é consequência do tempo de reposição, não a causa do problema. Reduzir o estoque sem reduzir esse tempo é transferir a variação para a ponta, onde ela vira falta de material com paciente esperando.

O método nasceu na indústria e depende de três condições. Nenhuma delas é automática no hospital, e é exatamente aí que a implantação costuma quebrar. A discussão do JIT como conceito e das suas contrapartidas está em just in time: vantagens e desvantagens; o que interessa aqui é como cada condição se apresenta na realidade hospitalar.

Condição do método Na fábrica No hospital
Demanda previsível dentro de uma faixa Programa de produção conhecido Consumo com picos legítimos — surto, cirurgia não eletiva, sazonalidade. Exige separar a faixa normal da exceção antes de dimensionar
Fornecimento confiável e frequente Entregas diárias, fornecedor próximo Prazo de licitação, distribuidor único, item importado, entrega quinzenal
Sinal de reposição disparado pelo consumo Cartão que volta ao fornecedor Requisição preenchida por quem lembrou, no dia em que lembrou
Consequência de falha tolerável Linha para Risco assistencial — o que muda o dimensionamento inteiro

A quarta linha é a que separa o hospital de qualquer outro ambiente e costuma ser usada como argumento para não tentar. Ela é, na verdade, o argumento contrário: justamente porque a consequência da falta é grave, o hospital não pode se dar ao luxo de um sistema de reposição que funciona por memória de quem preenche a requisição.

Por onde começar: o tempo de reposição, não o volume

A primeira medição do projeto não deveria ser o estoque. Deveria ser o lead time de reposição de cada item: quantas horas se passam entre o consumo na unidade e a chegada do reposto. No hospital do exemplo, esse intervalo era de cinco dias na média — e, mais importante, variava de dois a onze dias sem que ninguém soubesse prever qual seria.

É a variação, não a média, que determina quanto material precisa ficar guardado. Com reposição em cinco dias fixos, a unidade guarda cinco dias de consumo. Com reposição entre dois e onze dias, ela guarda onze — e quem convive com a falta guarda quinze, por segurança. Ler esse intervalo ao longo do tempo, em vez de discutir a média em reunião, é o que mostra se o abastecimento é estável ou apenas parece: o assunto está em gráficos de tendência em processos de saúde.

Encurtar e estabilizar esse intervalo é o trabalho real. Reposição diária em rota fixa, ponto de pedido definido por consumo medido e não por opinião, e um sinal físico que dispare o pedido sem depender de alguém lembrar — os três atacam a variação do tempo de reposição, e o estoque cai como resultado, sem que ninguém precise cortá-lo por decreto. É um caso particular do que o lean healthcare faz com qualquer fluxo hospitalar: melhorar o processo antes de mexer no número que ele produz.

Onde entra o kanban — e onde ele não entra

O sinal físico de reposição é o ponto de contato entre o abastecimento e o cartão. O kanban resolve exatamente o terceiro item da tabela: transformar consumo em pedido sem intermediação de memória. Num almoxarifado de unidade, isso costuma tomar a forma de duas caixas do mesmo item — quando a primeira esvazia, ela mesma vira o pedido, e a segunda cobre o tempo de reposição.

A mecânica do cartão dentro da unidade assistencial, com as faixas de cor e a ação obrigatória de cada uma, é assunto de kanban na saúde, e não vamos repetir aqui. A divisão é simples e vale a pena registrar: o kanban governa o que acontece dentro da unidade; o abastecimento governa o que acontece entre a unidade, o almoxarifado central e o fornecedor. Um cartão bem desenhado numa unidade abastecida por um sistema instável apenas documenta a falta com mais precisão.

Para além do hospital, a cadeia inteira — compra, contrato, fornecedor — tem uma lógica própria que aparece em suprimentos. O recorte deste artigo termina na porta do hospital.

De volta às gavetas

Depois de dezoito meses de reposição diária, o hospital do exemplo repetiu a auditoria das seis unidades. Os itens fora do sistema tinham caído de 1.240 para 180, sem nenhuma proibição ter sido publicada. O estoque total, agora com o escondido contabilizado, fechou em 19 dias contra os 35 reais do começo — e o percentual de itens em falta no momento do pedido ficou abaixo de 2%.

O que mudou não foi a disciplina das equipes. Foi o motivo que elas tinham para guardar. Enquanto o projeto atacou o número, o sistema devolveu o número; quando o projeto atacou a condição que produzia o número, o resultado veio e ficou. É essa a diferença entre executar uma mudança e conduzir uma melhoria — e é a diferença que separa um projeto que se sustenta de um que precisa ser refeito a cada dois anos.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a relação entre variação do tempo de reposição e nível de estoque no abastecimento hospitalar.


Conduzir um projeto como esse — medir o tempo de reposição, separar variação normal de exceção e testar a mudança antes de estendê-la ao hospital inteiro — é o conteúdo da formação Green Belt. Se você quer primeiro entender o raciocínio por trás disso, a certificação White Belt da EDTI é gratuita e leva 8 horas.

Perguntas frequentes

É possível aplicar just in time em hospital?

Sim, com adaptação. O método exige demanda dentro de uma faixa conhecida, fornecimento confiável e um sinal de reposição disparado pelo consumo. As três condições existem no hospital, mas convivem com picos legítimos de demanda e com prazos de compra pouco flexíveis — o que muda o dimensionamento, não a lógica.

Just in time significa trabalhar sem estoque?

Não. Significa que o estoque é dimensionado pelo tempo de reposição e pela variação dele, em vez de ser definido por meta ou por hábito. Em item crítico de baixa previsibilidade, o método pode indicar mais estoque do que a política atual, e isso não é uma exceção ao JIT: é o JIT sendo aplicado corretamente.

Qual o primeiro indicador a medir em um projeto de abastecimento?

O tempo entre o consumo e a chegada do reposto, item a item, lido ao longo do tempo. A média sozinha engana: é a variação desse intervalo que determina quanto material as unidades vão guardar, oficialmente ou não.

Como acabar com o estoque escondido nas unidades?

Tornando-o desnecessário. Proibição desloca o material para um armário menos óbvio e piora a informação de quem planeja a compra. Reposição frequente e previsível esvazia as gavetas sem circular interna, porque remove a razão pela qual elas foram criadas.

Qual a diferença entre isso e implantar kanban no hospital?

O kanban é um dos componentes: ele transforma o consumo em pedido dentro da unidade. O abastecimento é o sistema maior, que inclui o almoxarifado central, o fornecedor e o prazo de compra. Cartão em unidade abastecida por sistema instável apenas documenta a falta com mais precisão.

Isso serve para quem não trabalha com logística?

Serve, e é o ponto principal. O raciocínio — medir a variação de um intervalo, entender por que as pessoas criam proteções informais e mudar a condição em vez do número — vale para fila de exames, leito e material cirúrgico. É o método da melhoria aplicado a um fluxo específico, e é o que se aprende nas formações da EDTI.

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