PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai), em inglês FIFO (first in, first out), é a regra em que o item mais antigo é o primeiro a sair. Na contabilidade, é um método de custeio do estoque: a baixa usa o custo dos lotes mais antigos. Na operação, é uma regra de fluxo que impede materiais e pedidos de envelhecerem esquecidos na fila.
Uma seguradora com 40 analistas de sinistro bateu a meta de prazo durante um ano inteiro. O prazo médio de análise ficava em 6 dias, abaixo do limite de 7, mês após mês. No mesmo ano, as reclamações por demora na ouvidoria passaram de 18 para 41 por mês.
Como uma área pode ficar mais rápida na média e mais lenta para quem reclama? Ninguém estava mentindo no relatório. A resposta está numa regra de três letras que quase toda empresa conhece da contabilidade e quase nenhuma aplica na própria fila de trabalho.
O que é PEPS (FIFO)
PEPS é a sigla de “primeiro que entra, primeiro que sai”. O que chegou antes ao estoque, ou à fila, sai antes. A sigla em inglês, FIFO, é usada como sinônimo, e as duas aparecem em dois mundos diferentes que raramente conversam.
No mundo contábil, PEPS é uma convenção sobre valor: quando uma unidade é baixada do estoque, o custo atribuído a ela é o do lote mais antigo ainda disponível. A caixa que saiu fisicamente pode ser outra; a conta é que segue a ordem de entrada.
No mundo da operação, FIFO é uma regra sobre movimento: o material, o documento ou o pedido mais antigo é de fato o próximo a ser usado ou atendido. Aqui não há convenção; ou a caixa velha sai primeiro, ou não sai.
Confundir os dois é o primeiro erro. Uma empresa pode usar PEPS no balanço e ter lotes vencendo no fundo do almoxarifado, porque o método de custeio não move nenhuma caixa.
PEPS, UEPS e custo médio: como cada método calcula o custo do estoque
Para ver a diferença, use um exemplo pequeno. O almoxarifado da mesma seguradora comprou cartuchos de impressora em três lotes, com o preço subindo: 100 unidades a R$ 50, depois 100 a R$ 56, depois 100 a R$ 62. Total: 300 unidades por R$ 16.800. No fim do mês, saíram 150 unidades.
| Método | Custo das 150 que saíram | Estoque final (150 un.) |
|---|---|---|
| PEPS | 100 × 50 + 50 × 56 = R$ 7.800 | R$ 9.000 |
| Custo médio ponderado | 150 × 56 = R$ 8.400 | R$ 8.400 |
| UEPS (último que entra, primeiro que sai) | 100 × 62 + 50 × 56 = R$ 9.000 | R$ 7.800 |
Com preços subindo, o PEPS dá o menor custo de saída e o estoque final mais próximo do preço de reposição. O UEPS faz o contrário. O custo médio fica no meio: divide o custo total pelas unidades (R$ 16.800 ÷ 300 = R$ 56) e aplica esse valor a cada saída. Quando há compras entre uma saída e outra, a média é recalculada a cada entrada, o chamado custo médio móvel.
No Brasil, a escolha tem limite. O pronunciamento técnico CPC 16 (R1), Estoques, diz no item 25 que o custo deve ser atribuído pelo PEPS ou pelo custo médio ponderado; o UEPS não está entre as opções, e a legislação do imposto de renda também não o admite para fins fiscais. Para a regra aplicável à sua empresa, confirme a versão vigente com a contabilidade.
Calculadora de custo de estoque: PEPS × custo médio
Preencha os lotes na ordem em que entraram e a quantidade que saiu. A calculadora mostra o custo da saída e o valor do estoque final pelos dois métodos aceitos no Brasil.
Lote 1 (mais antigo)
Lote 2
Lote 3
Lote 4 (opcional)
Altere qualquer campo para calcular.
A calculadora assume que todas as compras aconteceram antes da saída. Com entradas e saídas intercaladas ao longo do mês, o custo médio móvel precisa ser recalculado a cada movimento, o que o sistema de estoque faz automaticamente.
FIFO na operação: a regra que impede o item de envelhecer
Agora, um causo de balcão, contado como se ouve. Seu Tonico tinha uma mercearia de esquina e repunha o leite do jeito mais fácil: caixa nova na frente da prateleira, que era onde dava para alcançar. A freguesia, que não é boba, esticava o braço até o fundo atrás da data mais longa. Resultado: toda sexta Seu Tonico achava leite vencido escondido na frente, justamente o que ele tinha acabado de pôr. Reclamava da freguesia, da distribuidora e do calor, nessa ordem. Só parou de jogar leite fora no dia em que o sobrinho virou a prateleira: abastecer por trás, pegar pela frente. Ninguém mudou de comportamento; mudou a prateleira.
O causo resume o que o FIFO físico exige: a ordem não pode depender da boa vontade de quem pega. Ela precisa estar no desenho. No chão de fábrica e no armazém, isso se faz com alguns dispositivos conhecidos:
Prateleira dinâmica (flow rack): trilhos inclinados com roletes; abastece-se por um lado, retira-se pelo outro, e a gravidade cuida da ordem. Pista FIFO entre dois processos: uma faixa demarcada no chão ou uma calha com capacidade máxima; quando enche, o processo anterior para, o que também limita o estoque intermediário. Etiqueta com data ou cor por semana: qualquer pessoa vê, de longe, se há um lote velho parado atrás de um novo. Linha de máximo e de mínimo pintada na própria estrutura, como em qualquer gestão visual bem feita.
Esses dispositivos funcionam junto com o kanban: o cartão diz quando e quanto repor; o FIFO diz o que sai primeiro. Os dois atacam o mesmo desperdício, o material parado, que a gestão de estoque mede em giro e cobertura. Onde há validade, a variante é o FEFO (first expired, first out): sai primeiro o que vence primeiro, mesmo que tenha chegado depois.
| PEPS contábil | FIFO físico | |
|---|---|---|
| Controla | O valor atribuído a cada saída | A ordem real em que itens saem |
| Quem decide | Contabilidade, uma vez, por política | Quem pega o item, a cada retirada |
| Garantido por | Sistema de estoque | Desenho físico e controle visual |
| Falha típica | Trocar de método e comparar períodos sem ajuste | Lote velho escondido atrás do novo |
FIFO em serviços: a fila de sinistros da seguradora
Volte ao enigma do início. Com a meta escrita como prazo médio, cada analista tinha um incentivo silencioso: pegar primeiro os sinistros novos e simples, que fecham em um ou dois dias e puxam a média para baixo. Os complexos e os que dependiam de documento iam ficando. A fila funcionava como um UEPS: o último a entrar era o primeiro a sair. A média continuava boa; a cauda de sinistros antigos crescia, e era de lá que vinham as reclamações.
Você dirá que isso é óbvio e que basta mandar atender por ordem de chegada. A seguradora também achou. O comunicado saiu numa segunda-feira e, na sexta, a fila estava igual: cada analista ainda escolhia o próprio próximo item numa lista de 300 linhas, e “o mais antigo” nem aparecia no topo da tela. Ordem que depende de boa vontade é a prateleira de Seu Tonico.
Você dirá, então, que FIFO puro é injusto com o sinistro simples, que fica preso atrás de um complexo. É uma objeção correta, e a solução não foi abandonar o FIFO, foi separar as filas. A área tratou a mudança como um problema de melhoria, em três ciclos PDSA:
Ciclo 1, com uma equipe de 8 analistas durante duas semanas: a lista passou a abrir ordenada pela data de entrada, sem opção de reordenar. Predição: a proporção de sinistros com mais de 30 dias cairia, e o prazo médio subiria um pouco. Os dois aconteceram. Ciclo 2, na mesma equipe: triagem na entrada em duas filas FIFO, simples e complexos, cada uma com analistas dedicados. O prazo médio voltou a cair sem que a cauda crescesse. Ciclo 3: a regra foi ampliada para as cinco equipes, com um quadro visual da quantidade de sinistros abertos por semana de entrada.
A seguradora acompanhou três indicadores, e não um: de resultado, as reclamações por demora; de processo, a proporção semanal de sinistros abertos com mais de 30 dias; de equilíbrio, o prazo médio, para ver se a correção não estava criando outro problema. Esse tipo de leitura, com dados semanais e predição escrita antes de cada teste, é o que a formação Green Belt pratica com as ferramentas do DMAIC e do PDSA.

O prazo médio subiu de 6,0 para 6,4 dias e continuou dentro da meta. As reclamações caíram de 41 para 15 por mês. A seguradora não ficou mais rápida na média; ficou previsível para quem estava na fila.
PEPS é uma decisão de sistema, não de planilha
Na contabilidade, PEPS é uma política escolhida uma vez e executada pelo sistema. Na operação, FIFO é uma propriedade do desenho: da prateleira, da tela, da fila, da meta. A seguradora e a mercearia tinham o mesmo defeito, a ordem dependia de quem pegava, e a mesma correção, a ordem passou a estar no desenho.
Há uma implicação menos visível. A meta de prazo médio, sozinha, empurrava a área para o UEPS. Indicadores definem o que as pessoas escolhem pegar primeiro; quem escreve a meta está, sem perceber, escolhendo a regra de saída da fila. Por isso, antes de implantar FIFO num armazém ou numa área de serviço, vale olhar as metas que já estão lá. O guia de logística da Escola EDTI mostra onde essa regra se encaixa no restante do fluxo de materiais.
Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.
Nesta revisão, o foco foi a separação entre PEPS contábil e FIFO físico e o uso de indicadores de resultado, processo e equilíbrio para testar a regra de fila.
Se a sua fila, de materiais ou de pedidos, anda bem na média e mal na cauda, o primeiro passo é enxergar o processo no tempo; o curso gratuito White Belt da Escola EDTI começa exatamente por aí.
Perguntas frequentes sobre PEPS e FIFO
PEPS e FIFO são a mesma coisa?
Sim. PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai) é a tradução de FIFO (first in, first out). Os dois nomes são usados tanto para o método de custeio quanto para a regra física de saída de materiais.
Qual a diferença entre PEPS e UEPS?
No PEPS, a saída recebe o custo dos lotes mais antigos; no UEPS (último que entra, primeiro que sai, ou LIFO), dos mais recentes. Com preços subindo, o UEPS dá custo de saída maior e estoque final menor.
Por que o UEPS não é aceito no Brasil?
O CPC 16 (R1), item 25, admite só PEPS ou custo médio ponderado para o custeio de estoques, e a legislação do imposto de renda também não aceita o UEPS. Um dos motivos é que, com inflação, o UEPS deixa o estoque do balanço com valores muito antigos.
PEPS ou custo médio: qual escolher?
É uma decisão da contabilidade, mantida de forma consistente para estoques de natureza semelhante. O PEPS deixa o estoque final mais próximo do preço atual; o custo médio suaviza as oscilações de preço no custo das vendas.
O que é FEFO?
First expired, first out: sai primeiro o item que vence primeiro, mesmo que tenha chegado depois. É a regra usada para alimentos, medicamentos e qualquer material com validade.
Onde o FIFO entra na formação Lean Six Sigma?
Como regra de fluxo, junto com kanban, gestão visual e redução de estoque em processo. A formação vai além da regra: ensina a medir o efeito de uma mudança como o FIFO no tempo, com indicadores de resultado, processo e equilíbrio, e a testá-la em ciclos PDSA antes de ampliar.