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Processo de tomada de decisão: as etapas e o erro que invalida todas elas

“Caiu em relação ao mês passado. O que a gente vai fazer?”

Essa frase abre reuniões de resultado em praticamente toda empresa, e ela já contém a decisão embutida: alguma coisa vai ser feita. O que se discute a partir dali é apenas o quê. A pergunta que não foi feita — se a queda significa alguma coisa — ficou para trás antes de a reunião começar.

Uma rede varejista que mapeou suas próprias reuniões de emergência encontrou um número desconfortável: de quarenta convocações extraordinárias em um ano, trinta e sete responderam a oscilações que estavam dentro da variação normal do processo. Trinta e sete decisões tomadas com rigor, com participação, com plano de ação — sobre ruído.

As etapas que os manuais descrevem

A literatura de gestão converge para uma sequência parecida, com variações de nomenclatura:

1. Identificação da situação. Reconhecer que existe uma decisão a tomar e delimitar seu escopo.

2. Coleta de informações. Reunir os dados relevantes e identificar o que não se sabe.

3. Geração de alternativas. Produzir opções — plural que costuma ser esquecido, já que muitas decisões chegam à mesa com uma única proposta.

4. Avaliação das alternativas. Comparar as opções segundo critérios declarados, com suas consequências e riscos.

5. Escolha e implementação. Decidir, comunicar e executar.

6. Acompanhamento. Verificar o que a decisão produziu.

A sequência é razoável e vale conhecê-la. O problema é que ela assume, sem nunca declarar, que a etapa 1 está correta — que a situação identificada é real. Quando essa premissa falha, as cinco etapas seguintes são executadas com capricho sobre um problema que não existe.

O que decide antes da decisão

Toda medida de processo varia. O faturamento de outubro não é igual ao de setembro, o tempo de atendimento de hoje não é o de ontem, o índice de refugo desta semana difere do da anterior. Essa variação existe mesmo quando nada muda: é resultado de dezenas de fatores pequenos operando ao mesmo tempo — o que se chama de causas comuns.

Existe também a variação que sinaliza algo genuinamente diferente: um lote fora de especificação, uma mudança de procedimento, um equipamento se deteriorando. São as causas especiais, e elas justificam ação.

A pergunta que precede qualquer decisão sobre um indicador é qual dos dois casos se está observando. E ela não pode ser respondida com dois pontos. Comparar o mês atual com o anterior — a prática mais comum na gestão brasileira — é justamente o procedimento incapaz de distinguir sinal de ruído, porque duas medidas sempre serão diferentes uma da outra.

O que responde a pergunta é a série ao longo do tempo: vinte, trinta pontos em sequência, que mostram a faixa dentro da qual o processo naturalmente oscila. Contra essa faixa, o valor de outubro deixa de ser alto ou baixo em si e passa a ser esperado ou excepcional. A distinção entre os tipos de variação é a fundação sobre a qual qualquer processo decisório sério se apoia.

Decidir por comparação de dois pontos Decidir pela série no tempo
Toda diferença parece exigir explicação Só o que sai da faixa exige explicação
Gera ação sobre oscilação normal Preserva energia para o que é real
Produz reuniões recorrentes de emergência Produz intervenção seletiva
Piora o processo ao ajustá-lo sem motivo Mantém a estabilidade que permite melhorar

A última linha é a menos intuitiva e a mais custosa. Ajustar um processo estável em resposta a oscilação normal não é neutro: aumenta a variação. Cada correção empurra o processo para um lado, a oscilação seguinte puxa para o outro, e o resultado é um sistema mais instável do que se ninguém tivesse tocado nele.

Onde os vieses entram

Decisões gerenciais também são afetadas por padrões previsíveis de julgamento: buscar informação que confirma o que já se pensa, dar peso desproporcional ao caso mais recente ou mais marcante, ancorar-se no primeiro número que apareceu. Esses mecanismos são bem documentados e vale conhecê-los — o tema tem tratamento próprio em vieses cognitivos na análise de dados.

O ponto de conexão com este texto é que o viés e a leitura errada da variação se reforçam. Quem compara dois pontos e vê queda vai procurar a causa — e vai encontrar, porque em qualquer mês houve troca de fornecedor, ausência de alguém, feriado ou mudança de sistema. A narrativa se fecha, a decisão parece fundamentada, e o processo nunca teve nada de anormal.

Fronteiras: o que é decisão e o que é outra coisa

Nem todo impasse organizacional é um problema de decisão, e tratar tudo como se fosse produz esforço mal dirigido.

Quando a dificuldade é entender por que algo acontece, o trabalho é de investigação, não de escolha. Identificar a origem de uma falha recorrente pertence ao território da análise de causa raiz, e as ferramentas de resolução de problemas existem para essa etapa anterior — decidir o que fazer sem saber por que o problema ocorre é escolher entre alternativas mal formuladas.

Quando há muitas frentes e recursos limitados, o problema é de priorização, e existem métodos específicos para ordenar iniciativas por critério explícito. Quando a decisão é sobre uma mudança que ainda não foi testada, o caminho não é decidir melhor no papel: é testar em pequena escala e deixar o resultado decidir. Boa parte do que se discute em sala de reunião poderia ser resolvido por um teste de duas semanas.

O que sustenta uma decisão depois de tomada

A etapa de acompanhamento é a mais negligenciada das seis, e a razão é estrutural: quem decide raramente é cobrado pelo resultado da decisão, apenas pela decisão em si. Reuniões avaliam se a ação foi executada, não se produziu o efeito esperado.

Fechar esse ciclo exige três coisas registradas antes da implementação: o que se espera que aconteça, em que indicador isso apareceria e em quanto tempo. Sem a previsão anotada de antemão, a avaliação posterior é reconstruída pela memória — e a memória acomoda o resultado à decisão que foi tomada. Esse é o mecanismo do ciclo de aprendizado que estrutura os projetos da formação Green Belt: previsão registrada antes, comparação com o observado depois.

Três perguntas para testar seu processo decisório

Na última decisão que você tomou a partir de um indicador: quantos pontos da série você olhou antes de concluir que havia mudança? Se foram dois, a decisão pode ter sido sobre ruído.

Nas decisões dos últimos três meses: alguma teve o resultado esperado registrado por escrito antes da implementação? Se nenhuma teve, não há como saber quais funcionaram.

Nas reuniões de resultado da sua área: a pergunta “isso é diferente do normal?” chega a ser feita, ou a discussão já começa em “o que vamos fazer”? A resposta a essa terceira pergunta costuma explicar as outras duas.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a etapa que antecede a decisão: distinguir variação normal de sinal real antes de escolher qualquer curso de ação.


Quer aprender a distinguir sinal de ruído nos indicadores que você acompanha? A certificação White Belt da Escola EDTI é gratuita e apresenta os fundamentos do raciocínio que sustenta decisões baseadas em dados.

Perguntas frequentes

Quais são as etapas do processo de tomada de decisão?

A sequência mais aceita tem seis etapas: identificar a situação, coletar informações, gerar alternativas, avaliar as alternativas segundo critérios, escolher e implementar, e acompanhar o resultado. A primeira etapa é a mais frágil na prática, porque a existência do problema costuma ser assumida sem verificação.

Quais são os tipos de tomada de decisão nas organizações?

A classificação usual separa decisões programadas, que seguem regra estabelecida para situações repetitivas, de decisões não programadas, que enfrentam situações novas sem procedimento definido. Outra divisão comum é por nível: estratégica, tática e operacional. A distinção útil no dia a dia, porém, é outra — se a decisão responde a um sinal real ou a uma oscilação normal.

Como tomar decisões baseadas em dados?

Menos pela quantidade de dados e mais pela forma de olhá-los. Três práticas mudam o resultado: observar o indicador ao longo do tempo em vez de comparar dois períodos; registrar antes da implementação o efeito esperado e o prazo; e verificar depois se o efeito ocorreu. Sem a terceira, não há aprendizado acumulado entre uma decisão e a seguinte.

Por que decisões bem fundamentadas às vezes pioram o processo?

Porque ajustar um processo estável em resposta a variação normal aumenta sua variabilidade. Cada correção desloca o processo em uma direção, a oscilação seguinte provoca correção contrária, e o sistema oscila mais do que oscilaria sem intervenção. O rigor no processo decisório não protege contra esse efeito quando a premissa inicial está errada.

Quantos dados são necessários para decidir se algo mudou?

Como referência prática, de vinte a trinta pontos em sequência temporal permitem enxergar a faixa de oscilação normal do processo. Com essa faixa estabelecida, um valor novo pode ser avaliado como esperado ou excepcional. Com dois pontos, qualquer diferença aparece como mudança, porque duas medidas nunca são idênticas.

Qual a diferença entre tomar decisão e resolver problema?

Resolver problema é descobrir por que algo acontece; tomar decisão é escolher entre cursos de ação. As duas atividades se sucedem, e a ordem importa: escolher sem entender a causa produz alternativas mal formuladas, por melhor que seja o critério de escolha aplicado sobre elas.

Como começar a aplicar isso na prática?

Escolha um indicador que sua área acompanha mensalmente e monte o gráfico com os últimos vinte e quatro pontos, em ordem cronológica. Marque nele os momentos em que houve reunião de emergência ou plano de ação. O exercício costuma revelar quantas dessas mobilizações responderam a oscilação normal — e é o ponto de partida mais concreto para mudar o processo decisório de uma equipe.

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