“Ele está meio agitado, mas passou bem o dia” foi a frase que encerrou a passagem de plantão. Quarenta minutos depois, a enfermeira do turno da noite encontrou no prontuário duas prescrições de analgésico não administradas, uma queda de pressão registrada às 16h e um pedido de avaliação da equipe médica sem retorno. As duas profissionais descreveram o mesmo paciente e o mesmo dia. Uma descreveu o comportamento; a outra precisava do estado clínico, do que já havia sido tentado e do que estava pendente. Nenhuma das duas errou: elas usaram estruturas mentais diferentes para o mesmo relato.
É esse desencontro — e não a falta de competência técnica — que o protocolo SBAR foi desenhado para eliminar.
O que é o protocolo SBAR
SBAR é um roteiro de comunicação estruturada composto por quatro blocos, na ordem: Situação, Breve histórico, Avaliação e Recomendação. A lógica é obrigar quem transmite a informação a começar pelo agora e terminar pelo que precisa ser feito, em vez de reconstruir a cronologia do turno e deixar o essencial para o fim — que é o padrão natural de qualquer relato humano.
| Bloco | Pergunta que responde | Erro típico |
|---|---|---|
| S — Situação | Quem é o paciente e o que está acontecendo com ele agora? | Começar pela história e nunca chegar ao estado atual |
| B — Breve histórico | O que o outro precisa saber para entender essa situação? | Recitar o prontuário inteiro em vez do que é pertinente |
| A — Avaliação | O que eu acho que está acontecendo? | Omitir a interpretação por receio de opinar |
| R — Recomendação | O que precisa ser feito, por quem e até quando? | Terminar sem responsável e sem prazo nomeados |
E o que o SBAR não é: não é um formulário de registro, não substitui o prontuário e não é um roteiro para leitura em voz alta. Ele estrutura uma conversa entre duas pessoas — inclusive nos pontos em que quem recebe pergunta, confirma e devolve o que entendeu. Variações como o ISBAR acrescentam a identificação de quem fala no início, e algumas instituições incluem a confirmação de recebimento no fim, justamente porque a transferência só termina quando o outro lado repete o que vai fazer.
De onde veio
O formato nasceu fora da saúde: foi adaptado de protocolos de comunicação de submarinos nucleares da Marinha americana, ambiente em que uma informação incompleta transmitida sob pressão tem consequência imediata. A tradução para o hospital foi feita pela Kaiser Permanente no início dos anos 2000 e ganhou escala pela difusão do IHI. Hoje, a comunicação efetiva figura entre as metas internacionais de segurança do paciente — a segunda delas —, e o SBAR é a ferramenta mais associada a essa meta. As seis metas em detalhe têm página própria; aqui interessa apenas a que trata da transferência de informação.
Onde o SBAR falha
Poucos meses depois de implantado, o SBAR costuma estar em cartaz na parede, em campo de sistema e em treinamento de admissão — e a passagem de plantão continua igual. O roteiro passa a ser preenchido para constar: os quatro blocos aparecem no registro, mas a recomendação vira “seguir conduta”, o histórico volta a ser cronológico e a avaliação some. A ferramenta foi implantada; a comunicação não mudou.
Esse é o padrão que se repete em toda ferramenta da qualidade adotada como obrigação: o instrumento é fácil de distribuir e o método é difícil de sustentar. Quando a falha de comunicação volta a aparecer entre os fatores contribuintes de eventos adversos, a conclusão apressada é que o SBAR “não funcionou” — quando o que não existiu foi verificação de que ele estava sendo usado como foi desenhado.
A definição operacional de “passagem completa”
Antes de medir qualquer coisa, é preciso decidir o que conta. Uma definição operacional transforma um conceito discutível em algo que duas pessoas diferentes classificam do mesmo jeito. Para a passagem de plantão, uma definição que funciona na prática: a passagem é completa quando os quatro blocos estão presentes e a recomendação nomeia responsável e prazo. Sem isso, “a passagem melhorou” é opinião, e opinião não se acompanha no tempo.
Com o critério fixado, a medição vira rotina de auditoria leve — algumas passagens observadas por semana, sempre com o mesmo critério, registradas em sequência. Numa unidade de internação de 42 leitos, a linha de base de 60 passagens auditadas mostrou 23 completas: 38,3%. Depois de três meses de ciclos curtos de ajuste — testar numa equipe, corrigir, ampliar —, a mesma auditoria de 60 passagens apontou 51 completas, 85,0%. As chamadas de esclarecimento no início do turno seguinte caíram de 12 para 4 por semana, redução de 66,7%.
| Tipo de indicador | O que medir na passagem de plantão |
|---|---|
| Processo | Percentual de passagens completas pelo critério definido |
| Resultado | Ocorrências relacionadas a informação não transmitida |
| Equilíbrio | Duração da passagem — a estrutura não pode ser paga com tempo de assistência |
O indicador de equilíbrio é o mais esquecido e o que mais derruba implantações. Num pronto-socorro que passou a usar o roteiro nas transferências para a UTI, o tempo médio da passagem caiu de 9,5 para 6,2 minutos — 3,3 minutos a menos por transferência, 34,7%. Com 18 transferências por semana, são 59,4 minutos devolvidos à assistência. Quando o tempo sobe em vez de cair, a estrutura virou burocracia e o dado avisa antes que a equipe abandone o protocolo por conta própria. O acompanhamento desses três tipos em conjunto é o que a página de indicadores de qualidade em saúde desenvolve.
Onde o SBAR termina
O protocolo resolve um problema específico e delimitado: a transferência de informação entre pessoas, em momentos de troca. Ele não resolve escala insuficiente, prontuário fragmentado, cultura que pune quem relata nem processo de trabalho mal desenhado — e a estrutura da segurança do paciente, com suas dimensões, núcleo e exigências regulatórias, está em segurança do paciente, não aqui. O que o SBAR faz, faz bem: elimina a variação de formato num ponto do processo onde a informação costumava se perder.
Reconhecer esse limite é o que separa uma implantação que dura de uma que evapora em seis meses. Aplicações como essa formam o repertório do Lean Healthcare, e a lógica por trás delas — padronizar onde a variação prejudica, medir adesão, testar em escala pequena antes de expandir — vem do Lean Six Sigma, com uma formação como a certificação Green Belt dando o método para conduzir esse tipo de projeto do diagnóstico à verificação.
O SBAR leva a equipe até a fronteira do que a comunicação estruturada consegue entregar. Daqui em diante, o problema deixa de ser o roteiro e passa a ser o processo que produz a informação transmitida — e esse é um projeto de melhoria, não um protocolo.
Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.
Nesta revisão, o foco foi a medição da adesão ao protocolo, que é o que separa comunicação estruturada de formulário preenchido.
Quem conduz melhoria em ambiente hospitalar precisa de mais do que boas ferramentas: precisa do método que verifica se a mudança virou melhoria. A certificação Green Belt da Escola EDTI forma profissionais de saúde para conduzir projetos com indicadores de processo, resultado e equilíbrio — do diagnóstico à verificação do ganho no tempo.
Perguntas frequentes
O que significa a sigla SBAR?
Situação, Breve histórico (do inglês background), Avaliação e Recomendação. A ordem é parte do método: começa pelo estado atual do paciente e termina pelo que precisa ser feito, com responsável e prazo.
Onde o SBAR pode ser usado além da passagem de plantão?
Em qualquer transferência de informação clínica: acionamento da equipe médica, transferência entre unidades, alta hospitalar, contato telefônico com plantonista. Quanto maior a chance de a conversa ser interrompida ou acontecer sob pressão, maior o ganho da estrutura.
Qual a diferença entre SBAR e ISBAR?
O ISBAR acrescenta um bloco inicial de identificação — quem está falando, de qual unidade e sobre qual paciente. Algumas instituições também incluem a confirmação final, em que quem recebe repete o que vai fazer. As variações não mudam a lógica: reduzir a ambiguidade nas pontas da conversa.
O SBAR substitui o registro no prontuário?
Não. Ele estrutura a comunicação verbal entre profissionais; o prontuário continua sendo o registro legal e a fonte de verdade sobre o cuidado prestado. Usar o roteiro como formulário de registro é um dos desvios mais comuns na implantação.
Como saber se o SBAR está funcionando de fato?
Definindo o que conta como passagem completa e auditando algumas passagens por semana com esse mesmo critério, sempre em sequência. Um percentual de adesão acompanhado no tempo mostra se a prática pegou; uma medição única, feita logo após o treinamento, não mostra nada.
Que erro as equipes mais cometem ao implantar o protocolo?
Tratar a implantação como evento de treinamento e não como mudança de processo. Sem medição de adesão e sem ciclos curtos de ajuste, a estrutura se degrada em poucos meses e volta ao formato de relato livre — sem que ninguém perceba, porque nada estava sendo observado.
Onde o SBAR entra na formação Lean Six Sigma?
Ele é um exemplo de padronização aplicada a um ponto crítico do processo — e, como toda padronização, só produz resultado se a adesão for verificada. Nos cursos da Escola EDTI, esse é justamente o encadeamento ensinado: padronizar, definir operacionalmente o que se mede, testar em escala pequena e confirmar o ganho com dados no tempo.