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Qualidade em saúde: o que é, as seis dimensões e por que elas competem entre si

Em 2019, um hospital de médio porte no interior de São Paulo colocou como meta reduzir o tempo de espera no pronto-socorro. Conseguiu: a espera média caiu de 94 para 56 minutos em sete meses. No mesmo período, o percentual de pacientes que retornaram ao PS em até 72 horas com a mesma queixa subiu de 6% para 11%.

A instituição tinha melhorado uma dimensão da qualidade e piorado outra. Ninguém mentiu nos números, ninguém sabotou nada — a equipe simplesmente acelerou o atendimento em uma dimensão que estava sendo medida, e o custo apareceu em outra que não estava. É o que acontece quando “qualidade” é tratada como uma coisa só.

O que é qualidade em saúde

Qualidade em saúde é o grau em que os serviços prestados a indivíduos e populações aumentam a probabilidade de desfechos desejados e se mantêm coerentes com o conhecimento profissional disponível. Essa é a formulação do Institute of Medicine norte-americano, adotada pela Organização Mundial da Saúde e pela maior parte da literatura brasileira, e ela carrega três decisões importantes.

A primeira é falar em probabilidade, não em garantia: um cuidado de alta qualidade pode terminar em desfecho ruim, e um cuidado ruim pode terminar bem. Julgar qualidade pelo desfecho de um caso isolado é o erro mais comum do setor. A segunda é incluir populações, e não só pacientes — o que traz acesso e equidade para dentro da definição. A terceira é ancorar no conhecimento profissional atual, o que torna a definição móvel: o que era cuidado de qualidade em 2005 pode não ser hoje.

Note o que a definição não faz: ela não diz o que medir. Ela delimita o conceito e deixa a operacionalização para quem vai aplicá-la — e é aí que entram as dimensões.

As seis dimensões da qualidade em saúde

Em 2001, ao publicar o relatório que se tornou a referência do campo, o Institute of Medicine desdobrou o conceito em seis atributos. Eles são hoje o vocabulário padrão da qualidade assistencial no mundo todo, inclusive nas exigências de acreditação.

DimensãoO que significaExemplo de falha
SeguraEvitar danos ao paciente decorrentes do próprio cuidadoErro de medicação, queda, infecção associada à assistência
EfetivaOferecer o cuidado com respaldo em evidência a quem se beneficia deleAntibiótico em quadro viral; exame de imagem sem indicação
Centrada no pacienteRespeitar preferências, necessidades e valores de quem recebe o cuidadoDecisão terapêutica tomada sem apresentar alternativas
OportunaReduzir esperas e atrasos que causam danoFila para cirurgia oncológica eletiva; demora no porta-agulha
EficienteEvitar desperdício de insumos, tempo, energia e ideiasExame repetido por perda de resultado; leito ocupado por alta represada
EquitativaNão variar a qualidade por características que não deveriam importarDesfecho pior por região, renda, raça ou tipo de convênio

O caso do pronto-socorro da abertura fica legível quando lido por aqui: a instituição melhorou a dimensão oportuna e pagou na dimensão efetiva. Não foi um acidente — foi a consequência previsível de perseguir uma dimensão sem acompanhar as outras.

Essa é a razão pela qual as seis não formam uma lista de metas, e sim um sistema. Cinco delas podem melhorar enquanto a sexta se deteriora, e o painel da diretoria mostrará um retrato de sucesso. Em melhoria, o indicador que protege contra isso tem nome: indicador de equilíbrio, aquele que se acompanha justamente porque a mudança pode piorá-lo.

Princípios, pilares ou dimensões? O vocabulário confunde de propósito

Quem procura “princípios da qualidade em saúde” encontra pelo menos três listas diferentes, e a confusão não é acidental: elas vêm de tradições distintas e respondem a perguntas distintas.

As seis dimensões do IOM descrevem atributos do cuidado. Respondem à pergunta “o cuidado prestado tem qualidade?”.

Os sete pilares de Donabedian — eficácia, efetividade, eficiência, otimização, aceitabilidade, legitimidade e equidade — descrevem critérios de julgamento. Vêm da tradição da avaliação em saúde e respondem a “com base em quê eu afirmo que este cuidado é bom?”. A otimização, por exemplo, não tem equivalente na lista do IOM: ela trata do ponto em que acrescentar mais cuidado deixa de compensar o custo. Note que quatro dos sete pilares se repetem nas seis dimensões com o mesmo nome ou nome vizinho — a sobreposição é real, e é por isso que os dois vocabulários circulam juntos sem que ninguém explique a diferença.

Os princípios da ISO 9001 — foco no cliente, liderança, abordagem de processo, melhoria, decisão baseada em evidência, entre outros — descrevem como organizar a gestão. Não falam do cuidado; falam do sistema administrativo que o cerca. É a lista mais citada em hospital acreditado e a menos específica da saúde.

Na prática, três respostas para três perguntas diferentes. O problema aparece quando uma instituição adota as três ao mesmo tempo, cria um indicador para cada item e termina com trinta números que ninguém consegue ler junto.

Nomear a dimensão não é medir a dimensão

Aqui está o ponto que a maior parte dos materiais sobre o tema não alcança. Uma dimensão é uma categoria — “cuidado seguro” é um adjetivo. Ela só vira gestão quando ganha definição operacional: quem coleta, com que frequência, o que entra na conta e o que fica de fora.

“Cuidado seguro” não se mede. O que se mede é, por exemplo, o número de eventos adversos com dano por mil pacientes-dia, coletado pela notificação voluntária, com definição escrita do que conta como dano. E aí aparece o problema seguinte: se a notificação é voluntária, um número baixo pode significar cuidado seguro ou cultura de medo. A dimensão está nomeada; a medição precisa ser construída.

Por isso declarar as seis dimensões em um documento institucional não muda nada por si só. É uma mudança de vocabulário, e mudança não é melhoria — a diferença entre as duas só aparece quando existe um indicador acompanhado ao longo do tempo, capaz de mostrar se o comportamento do sistema se deslocou de fato. Uma dimensão declarada e não medida é uma intenção; uma dimensão medida uma vez é um retrato; só a série no tempo é gestão.

Onde este conceito encosta em outros territórios

Definido o conceito, quatro caminhos saem daqui, e cada um tem tratamento próprio.

A disciplina que organiza a definição, a medição e a melhoria dentro de uma instituição — com suas frentes de trabalho e sua estrutura — é assunto de gestão da qualidade em saúde. É lá que a tríade de Donabedian, estrutura-processo-resultado, aparece como definição operacional clássica, e é lá também que se discute por onde uma instituição começa.

O desenho dos indicadores que traduzem cada dimensão em número acompanhável, incluindo os indicadores de equilíbrio que protegem contra o trade-off da abertura, está em a tríade dos indicadores na saúde. O percurso prático de sair de uma dimensão e chegar a uma definição operacional está em como medir qualidade em saúde.

Duas das seis dimensões têm território próprio pela profundidade que exigem: a dimensão segura é tratada em segurança do paciente hospitalar, e a dimensão centrada no paciente, com a distinção entre experiência e satisfação, em experiência do paciente.

No serviço público, as mesmas seis dimensões ganham peso diferente: acesso e equidade sobem à frente por imposição do princípio da universalidade, e a eficiência deixa de ser desejo e vira restrição orçamentária. Esse recorte está em qualidade na saúde pública.

Do conceito ao método

Nomear as dimensões organiza a conversa. Medi-las produz um painel. Nenhuma das duas coisas move o sistema — e é aqui que a maior parte das iniciativas de qualidade em saúde para, com um relatório mensal que ninguém usa para decidir.

O que move é o passo seguinte: testar mudanças em pequena escala, prever o resultado antes de olhar o dado, e verificar na série se o comportamento do processo se deslocou ou se aquilo foi flutuação normal. Esse método aplicado ao contexto assistencial é o território de melhoria em saúde, e a formação que ensina a distinguir sinal de ruído em um indicador assistencial é a certificação Green Belt.

O hospital da abertura não tinha um problema de esforço. Tinha um problema de definição: perseguiu uma dimensão sem declarar as outras cinco, e o sistema cobrou a conta onde ninguém estava olhando. Todo indicador que sobe sozinho merece a pergunta de qual outro está descendo.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Revisão com foco na distinção entre dimensão declarada e dimensão medida, e no papel do indicador de equilíbrio.


Transformar uma dimensão da qualidade em indicador com definição operacional, e saber se o número mudou de verdade ou só oscilou — esse é o núcleo do método que a certificação White Belt gratuita ensina, aplicável à saúde tanto quanto a qualquer operação.

Perguntas frequentes

Quais são as dimensões da qualidade em saúde?

São seis, na formulação do Institute of Medicine adotada internacionalmente: cuidado seguro, efetivo, centrado no paciente, oportuno, eficiente e equitativo. Elas descrevem atributos do cuidado prestado e funcionam como sistema, não como lista de metas independentes.

Qual a diferença entre os princípios da qualidade e as dimensões da qualidade em saúde?

As dimensões descrevem atributos do cuidado (“o cuidado é seguro?”). Os princípios — sejam os sete pilares de Donabedian ou os princípios da ISO 9001 — descrevem critérios de julgamento ou formas de organizar a gestão. São vocabulários de tradições diferentes que se sobrepõem parcialmente e costumam ser usados como sinônimos, o que gera confusão.

Quem definiu o conceito de qualidade em saúde?

A definição mais citada é a do Institute of Medicine, formulada em 1990 e desdobrada em seis dimensões em 2001. Antes dela, Avedis Donabedian já havia estruturado o campo da avaliação da qualidade assistencial, tanto com a tríade estrutura-processo-resultado quanto com os sete pilares.

Qualidade em saúde é o mesmo que segurança do paciente?

Não. Segurança é uma das seis dimensões da qualidade — a mais crítica, por tratar de dano evitável causado pelo próprio cuidado, mas não a única. Uma instituição pode ser segura e ainda assim entregar cuidado inoportuno, ineficiente ou desigual.

Como saber se a qualidade de uma instituição melhorou?

Comparando o comportamento dos indicadores ao longo do tempo, não pontos isolados. Uma dimensão declarada em documento não é medição, e uma medição única não é tendência. O que permite afirmar melhoria é a série mostrando deslocamento sustentado do processo, com indicador de equilíbrio acompanhado para verificar se o ganho não veio às custas de outra dimensão.

Por onde começar a estudar qualidade em saúde?

Pelo vocabulário — as seis dimensões e a distinção entre dimensão e indicador — e em seguida pelo método de verificação, que é o que separa mudança de melhoria. Os cursos de Lean Seis Sigma da Escola EDTI, do Green Belt em diante, trabalham exatamente esse percurso aplicado a processos assistenciais.

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