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ONA e Joint Commission: as diferenças e como escolher a acreditação

Qual selo vale mais? A pergunta abriu a reunião de diretoria de um hospital privado de porte médio, e a resposta escolhida foi a que soava mais ambiciosa: Joint Commission International. Dezoito meses depois, o projeto foi suspenso — não por falta de qualidade assistencial, mas porque a instituição descobriu, no meio do caminho, que estava perseguindo um padrão desenhado para outro perfil de operação, com outra estrutura de documentação e outro orçamento. O tempo investido não foi perdido, mas a escolha custou um ciclo inteiro.

O erro não foi técnico. Foi de ordem: escolheram a acreditadora antes de definir para que queriam a acreditação.

O que é a ONA

A Organização Nacional de Acreditação é uma entidade brasileira, sem fins lucrativos, criada no fim dos anos 1990 para estabelecer e manter um sistema nacional de avaliação de serviços de saúde. Ela não audita diretamente: credencia instituições acreditadoras, que aplicam a metodologia em campo.

Sua característica mais distintiva é a estrutura em três níveis progressivos, e essa progressão não é decorativa — é uma tese sobre a ordem em que uma organização amadurece.

O Nível 1 avalia segurança: estrutura, requisitos legais, condições mínimas para não causar dano. O Nível 2 avalia gestão integrada: processos definidos, articulação entre setores, dados sendo usados para decidir. O Nível 3 avalia excelência: resultados sustentados ao longo do tempo e cultura de melhoria instalada. A validade do certificado costuma ser de dois anos no primeiro nível e de três nos demais, com avaliações de manutenção no intervalo.

A consequência prática dessa arquitetura é que a ONA permite entrada gradual. Um hospital pode conquistar o Nível 1, operar com ele, amadurecer e só então buscar o seguinte — o que distribui custo e esforço ao longo de anos.

O que é a Joint Commission International

A JCI é o braço internacional da The Joint Commission, organização norte-americana com décadas de atuação em avaliação de serviços de saúde. Seus padrões foram construídos para aplicação em países diferentes, com sistemas de saúde diferentes, o que os torna simultaneamente abrangentes e exigentes.

A lógica é outra: não há níveis. A instituição atende aos padrões e é acreditada, ou não atende e não é. O ciclo é de três anos, e o conjunto de padrões se organiza em torno do cuidado centrado no paciente e da gestão da organização — incluindo as metas internacionais de segurança do paciente, que estruturam boa parte do que o hospital precisa demonstrar. As seis metas têm página própria.

Na prática brasileira, a JCI concentra-se em instituições de grande porte, frequentemente com posicionamento internacional, turismo de saúde ou vínculo com operadoras estrangeiras. O custo total — consultoria, adequação de estrutura, documentação, tradução, tempo de equipe — é substancialmente mais alto, e a exigência documental é constante, não pontual.

A diferença que ninguém coloca no comparativo

Os dois modelos avaliam se existe um sistema de gestão da qualidade funcionando. Nenhum dos dois substitui a capacidade de melhorar — e é exatamente aqui que a maioria dos preparatórios falha, independentemente do selo escolhido.

Um hospital que se preparava para avaliação levou o painel de indicadores para a reunião de diagnóstico: 34 indicadores exigidos pelo escopo, todos preenchidos. Ao pedir a série histórica de cada um, apareceram apenas 11 com doze meses de dados em sequência — 32,4%. Os outros 23 tinham o valor do mês anterior e nada antes disso. Cada um deles respondia “estamos em conformidade hoje”, e nenhum respondia “estamos conseguindo sustentar”.

A diferença é decisiva porque a avaliação vê uma foto e a acreditação precisa de um filme. Um indicador de conformidade apresentado em 96,4% no mês da visita, cuja série de doze meses tem média de 88,2% e oscila entre 79% e 97%, não descreve um processo confiável — descreve um processo instável que teve um bom mês. O avaliador experiente pergunta pela série justamente por isso.

Quando a série existe, ela também mostra o que melhorou de fato: a taxa de infecção de corrente sanguínea associada a cateter caiu de 4,6 para 2,9 por mil cateter-dia ao longo de três ciclos de teste — 37% menos — e permaneceu no novo patamar nos meses seguintes. Esse é o tipo de evidência que sustenta qualquer nível de qualquer acreditadora, e que a estrutura de indicadores de qualidade em saúde organiza.

Como escolher

A pergunta útil não é qual selo vale mais, e sim o que a instituição pretende fazer com ele. Se o objetivo é organizar a operação, criar linguagem comum entre setores e amadurecer por etapas, a progressão da ONA acompanha esse percurso. Se o objetivo envolve posicionamento internacional, exigência de operadora estrangeira ou comparabilidade com instituições de fora, a JCI responde a uma necessidade que a ONA não cobre. Há ainda modelos internacionais alternativos, como o Qmentum, com lógica própria.

ONA Joint Commission International
Origem Brasileira Norte-americana, com padrões internacionais
Estrutura Três níveis progressivos Sem níveis — atende ou não atende
Entrada Gradual, pelo Nível 1 Direta, no conjunto completo de padrões
Ciclo Dois anos no Nível 1; três nos demais Três anos
Custo relativo Menor Substancialmente maior
Perfil típico Instituições de todos os portes Grande porte, com posicionamento internacional
Adequado quando O objetivo é amadurecer a gestão por etapas O objetivo exige reconhecimento internacional

O que a tabela não mostra é o pré-requisito comum aos dois: processos definidos e resultados acompanhados no tempo. Sem isso, o preparatório vira um projeto de documentação com prazo — e a organização passa meses produzindo evidência de algo que não está acontecendo, o que é o oposto da lógica de segurança do paciente que ambas as metodologias tentam induzir. O processo de certificação em si, com etapas e ciclo de manutenção, está em acreditação hospitalar.

Construir essa base é trabalho de método, não de consultoria de véspera. É o repertório do Lean Healthcare e do Lean Six Sigma aplicado ao ambiente hospitalar: definir o indicador, acompanhar em sequência, testar mudanças em escala pequena e confirmar que o ganho se manteve — que é o que uma formação Green Belt desenvolve em profissionais de qualidade e gestão em saúde.

Selo nenhum melhora um hospital. O que melhora um hospital é o trabalho que a preparação para o selo obriga a organização a fazer — e esse trabalho continua rendendo depois que o certificado é emitido, ou não rende nunca.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi a evidência que sustenta a acreditação: a série de indicadores no tempo, não o resultado do mês da visita.


Conduzir a preparação para acreditação com método — e não com esforço concentrado às vésperas da visita — é o que a certificação Green Belt da Escola EDTI desenvolve em profissionais de saúde: definição operacional de indicadores, leitura de séries e ciclos de teste que confirmam se a mudança virou melhoria.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre ONA e Joint Commission?

A ONA é brasileira e organiza a avaliação em três níveis progressivos, permitindo entrada gradual. A JCI é internacional, não tem níveis e exige atendimento ao conjunto completo de padrões de uma vez, com custo e exigência documental maiores.

Quais são os níveis da ONA?

Nível 1, focado em segurança e requisitos mínimos; Nível 2, focado em gestão integrada e processos articulados; Nível 3, focado em excelência e resultados sustentados ao longo do tempo. A progressão reflete o amadurecimento esperado da organização.

Qual acreditação é melhor para o meu hospital?

Depende do objetivo. Para organizar a operação e amadurecer por etapas, a progressão da ONA acompanha melhor o percurso. Para posicionamento internacional ou exigência de operadora estrangeira, a JCI responde ao que a ONA não cobre.

Quanto tempo dura a acreditação?

Na ONA, o certificado costuma valer dois anos no Nível 1 e três nos demais, com avaliações de manutenção no intervalo. Na JCI, o ciclo é de três anos. Em ambos os casos há verificação contínua, e não apenas na visita final.

Acreditação hospitalar é obrigatória?

Não. É um processo voluntário, distinto das exigências legais de funcionamento, que permanecem obrigatórias independentemente de qualquer certificação.

É possível ter ONA e JCI ao mesmo tempo?

Sim, e algumas instituições mantêm as duas por atenderem a públicos diferentes. O custo de manutenção duplo, porém, só se justifica quando há necessidade concreta dos dois reconhecimentos.

Preciso de formação em melhoria para conduzir uma acreditação?

Não é requisito formal, mas a diferença aparece no resultado: equipes que dominam definição operacional de indicadores, leitura de séries e ciclos de teste chegam à avaliação com evidência real, e não com documentação montada às pressas. É essa base que a Escola EDTI desenvolve, da certificação White Belt gratuita às formações Green Belt e Black Belt.

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