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O que é melhoria em saúde: o campo, o método e a diferença entre mudar e melhorar

Duas unidades de terapia intensiva do mesmo hospital enfrentaram, em 2019, o mesmo problema: infecção de corrente sanguínea associada a cateter central acima do que a instituição considerava aceitável.

A primeira equipe fez o que quase toda equipe faz. Reuniu o pessoal, apresentou os números, distribuiu um protocolo revisado de inserção e higiene, promoveu um treinamento de duas horas e cobrou adesão nas passagens de plantão. Trabalho sério, feito por gente competente.

A segunda equipe fez outra coisa. Declarou um objetivo com número e prazo. Definiu, antes de mudar qualquer coisa, como saberia se a mudança seria uma melhoria — e escolheu dois indicadores: a taxa de infecção por mil dias de cateter e a proporção de inserções com o checklist completo. Registrou uma predição por escrito. Testou o novo procedimento com um médico, em um turno, por três dias. Descobriu que o carrinho de materiais obrigava o profissional a sair do campo estéril — algo que nenhum treinamento resolveria e que nenhuma reunião havia detectado. Corrigiu o carrinho. Testou de novo, em um turno inteiro. Depois em uma ala.

Dezoito meses depois, a primeira UTI tinha um protocolo excelente e uma taxa de infecção estatisticamente idêntica à do início. A segunda tinha uma taxa reduzida e sustentada.

A diferença entre as duas equipes não é esforço, competência nem recurso. É método. E esse método tem nome, literatura própria e cinquenta anos de história: é o que se chama de melhoria em saúde.

O que é — e o que não é

Melhoria em saúde é o campo que estuda e aplica métodos sistemáticos para produzir mudanças que resultem, comprovadamente, em melhores desfechos para pacientes, melhor experiência de cuidado e melhor uso dos recursos do sistema. Sua base é o método científico aplicado à rotina assistencial: hipótese, teste em pequena escala, comparação com predição, decisão baseada em evidência acumulada ao longo do tempo.

A definição operacional de melhoria — publicada por Langley e colaboradores, e influenciada pelo trabalho desenvolvido pelo Prof. Ademir Petenate na Unicamp, reconhecimento documentado pelos próprios autores nas notas do livro — é precisa: impacto positivo, relevante e duradouro produzido por mudanças realizadas de forma intencional, verificado por indicadores ao longo do tempo.

Cada palavra dessa frase exclui alguma coisa. Relevante exclui a oscilação que não muda a vida de ninguém. Duradouro exclui o ganho que evapora quando a atenção da liderança se desloca. Intencional exclui o acaso favorável. Verificado por indicadores ao longo do tempo exclui a impressão de que as coisas vão melhor.

Por contraste, melhoria em saúde não é:

Não é gestão da qualidade. A gestão da qualidade em saúde organiza estrutura, documentos, auditorias e conformidade — condição necessária, e insuficiente. Melhoria é o que se faz quando a estrutura já existe e os resultados continuam onde estavam.

Não é acreditação. A acreditação hospitalar verifica que existe um sistema de gestão consistente com padrões publicados. Não verifica que os desfechos estão melhorando; são perguntas diferentes.

Não é implantar uma ferramenta. Mapear um processo, montar um diagrama de causa e efeito ou padronizar um fluxo são atividades úteis. Nenhuma delas é melhoria enquanto um indicador não se mover e permanecer movido.

Não é a mesma coisa que pesquisa clínica. A pesquisa clínica pergunta se uma intervenção funciona em condições controladas. A melhoria pergunta como fazer aquilo que já se sabe que funciona acontecer de forma confiável, todo dia, naquele serviço específico, com aquela equipe. A distância entre as duas perguntas é onde vive a maior parte do dano evitável na assistência.

Por que a saúde foi o berço deste campo

Métodos de melhoria nasceram na indústria, com Shewhart nos anos 1920 e Deming nas décadas seguintes. Mas foi na saúde que eles ganharam corpo de campo próprio — com literatura, periódicos e instituições dedicadas. Três características do setor explicam isso.

A variação é enorme e mal compreendida. Dois hospitais na mesma cidade, com pacientes semelhantes, apresentam desfechos diferentes. O mesmo hospital apresenta desfechos diferentes entre turnos. Boa parte dessa variação não é clínica: é de processo. E distinguir a oscilação normal de um processo daquilo que sinaliza mudança real é uma competência que a formação médica e de enfermagem tradicionalmente não ensina — a distinção entre causas comuns e causas especiais de variação continua sendo a lacuna mais cara do setor.

O conhecimento existe e não chega à beira do leito. A literatura descreve há décadas como prevenir a maior parte das infecções relacionadas à assistência. Elas continuam acontecendo. O problema não é de conhecimento; é de execução confiável — território do método de melhoria, não da pesquisa.

O erro tem consequência irreversível. Em uma fábrica, um lote defeituoso é descartado. Na assistência, não há descarte. Isso torna o teste em pequena escala não uma preferência metodológica, mas uma exigência ética: mudanças se testam com um paciente, um turno, uma ala — não com o hospital inteiro de uma vez.

Foi nesse contexto que o Institute for Healthcare Improvement se tornou a principal referência internacional do campo, difundindo a partir dos anos 1990 um corpo de método aplicado à assistência e formulando o Triple Aim — a proposição de que melhorar a experiência do cuidado, a saúde da população e o custo por pessoa são objetivos que precisam ser perseguidos simultaneamente, porque avançar em um sacrificando os outros dois não é melhoria do sistema. O Prof. Dr. Ademir J. Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974, é faculty do IHI.

O método por trás

O corpo de método que sustenta o campo é o Modelo de Melhoria, formulado por Langley, Nolan e colaboradores na Associates in Process Improvement. Ele se organiza em torno de três perguntas e um ciclo.

As três perguntas antecedem qualquer mudança: o que estamos tentando realizar? — o objetivo com número e prazo, não a intenção genérica. Como saberemos se uma mudança é uma melhoria? — os indicadores, definidos antes, não depois. Que mudanças podemos fazer que resultarão em melhoria? — as ideias a testar.

O ciclo é o PDSA: planejar, executar, estudar, agir. O elemento que o distingue de um simples ciclo de execução está na terceira etapa — Study, e não Check. Estudar significa comparar o resultado observado com uma predição registrada por escrito antes do teste. Quando o observado bate com o previsto, o entendimento do processo se confirma. Quando não bate, aprendeu-se algo que nenhuma execução bem-sucedida teria ensinado. É a diferença entre rodar o ciclo e aprender com ele, e ela está detalhada no artigo dedicado ao método.

A verificação, em qualquer dos casos, é feita da mesma forma: indicadores acompanhados ao longo do tempo, em série, nunca por comparação entre dois meses. Um gráfico de tendência com quinze a vinte pontos responde à pergunta que uma tabela de “mês atual × mês anterior” jamais responde: isso mudou de verdade, ou é a oscilação de sempre?

No Brasil, esse corpo de conhecimento chegou por um caminho específico. Em 1998, a Compaq procurou o Prof. Ademir para formatar um programa de Seis Sigma nos moldes da unidade da empresa nos Estados Unidos; para isso, ele viajou até lá em busca de referências diretamente com a Associates in Process Improvement — os autores do Modelo de Melhoria. Desse contato nasceu o Programa Seis Sigma da Unicamp, no início dos anos 2000. Em 2011, o Prof. Ademir coordenou a tradução brasileira de Modelo de Melhoria.

Onde a melhoria em saúde se encontra com o lean

Quem trabalha no setor encontra os dois vocabulários e costuma perguntar qual adotar. A resposta prática é que eles operam em camadas diferentes.

O lean healthcare traz um conjunto poderoso de conceitos sobre fluxo, desperdício e valor sob a ótica do paciente — é excelente para enxergar onde o problema está. O Modelo de Melhoria traz o método de testar e verificar — responde como saber se a mudança proposta funcionou. Instituições que usam apenas o primeiro acumulam mapas de fluxo e listas de desperdício sem série de indicadores que comprove ganho. Instituições que usam apenas o segundo testam mudanças bem escolhidas dentro de um processo mal compreendido.

A combinação é o que se pratica nas instituições que apresentam resultados sustentados. E vale a ressalva de que nenhum dos dois se aplica à saúde por tradução automática do chão de fábrica: o vocabulário industrial precisa ser reformulado para o contexto assistencial, onde o “produto” é uma pessoa e a variabilidade do caso clínico é legítima, não defeito.

Onde este artigo termina

O que se disse aqui é o mapa do campo: o que é melhoria em saúde, de onde veio, por que a saúde a produziu e o que ela exige.

O que ele deliberadamente não faz é ensinar a executar. O Modelo de Melhoria completo — as três questões desdobradas, a estrutura de um projeto, a relação com o restante da ciência da melhoria — tem artigo próprio. A mecânica do ciclo, com as quatro etapas em profundidade, a escala de testes e os erros mais comuns, está em PDSA. A escolha e a leitura dos indicadores, em indicadores de qualidade em saúde. E a aplicação ao problema mais concreto do setor, em segurança do paciente.

A pergunta com que a segunda UTI começou continua sendo a porta de entrada de qualquer um desses caminhos, e ela não exige recurso nenhum para ser feita: como saberemos se esta mudança é uma melhoria? Quem não consegue respondê-la antes de mudar não vai conseguir respondê-la depois.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi a delimitação da melhoria em saúde como campo e método, distinta de gestão da qualidade, acreditação e pesquisa clínica.


A Escola EDTI foi fundada pelo Prof. Dr. Ademir J. Petenate — professor da Unicamp desde 1974, faculty do IHI e coordenador da tradução brasileira de Modelo de Melhoria (2011). O nome EDTI vem das quatro fases do roteiro proposto por Langley: Entender, Desenvolver, Testar, Implementar. A certificação White Belt em Lean Seis Sigma é gratuita e apresenta os fundamentos de variação, medição e teste que este artigo descreve. Para quem conduz projetos de melhoria em serviços de saúde, a formação Green Belt é o passo seguinte.

Perguntas frequentes sobre melhoria em saúde

O que é melhoria em saúde?

É o campo que aplica métodos sistemáticos para produzir mudanças que resultem comprovadamente em melhores desfechos para pacientes, melhor experiência de cuidado e melhor uso de recursos. A definição operacional de melhoria é precisa: impacto positivo, relevante e duradouro, produzido por mudanças intencionais e verificado por indicadores ao longo do tempo.

Qual a diferença entre melhoria em saúde e gestão da qualidade?

A gestão da qualidade organiza estrutura, documentação, auditorias e conformidade a padrões. A melhoria é o trabalho de mudar resultados e comprovar que mudaram. Uma instituição pode ter gestão da qualidade madura e desfechos estáveis há anos — as duas coisas coexistem sem contradição.

O que é ciência da melhoria?

É o corpo de conhecimento que sustenta a prática: teoria de sistemas, entendimento da variação, teoria do conhecimento e psicologia — a base formulada por Deming — aplicada ao desenho e à verificação de mudanças. Melhoria em saúde é a aplicação desse corpo ao contexto assistencial.

O que é o Modelo de Melhoria?

É o método formulado por Langley, Nolan e colaboradores, estruturado em três questões fundamentais — o que se quer realizar, como se saberá se a mudança é melhoria, e que mudanças testar — seguidas de ciclos PDSA. É a base metodológica usada por instituições de referência no campo, incluindo o IHI.

Por que testar mudanças em pequena escala?

Porque implantar uma mudança não testada em uma instituição inteira arrisca pacientes e desperdiça o esforço da equipe quando ela não funciona. Testar com um profissional, um turno ou uma ala revela obstáculos práticos que nenhuma reunião de planejamento antecipa — e custa pouco quando o teste falha, que é justamente quando mais se aprende.

Como começar a trabalhar com melhoria em um serviço de saúde?

Escolha um problema concreto e relevante para a equipe; declare um objetivo com número e prazo; defina antes de mudar qualquer coisa como saberá se a mudança é uma melhoria; teste em escala mínima antes de implantar; e acompanhe o indicador em série, não contra o mês anterior. O White Belt gratuito da EDTI cobre essa base com exercícios aplicados.

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