Pular para o conteúdo
Você está aqui: Início / Blog / Escala de Glasgow: como pontuar, registrar e calcular a ECG-P

Escala de Glasgow: como pontuar, registrar e calcular a ECG-P

“Glasgow 9.” Na passagem de plantão, o número parece dizer tudo. Não diz. Um paciente que abre os olhos à pressão, emite sons e localiza o estímulo (E2 V2 M5) soma 9. Outro que abre os olhos ao som, fala palavras soltas e flexiona o braço de forma anormal (E3 V3 M3) também soma 9. São quadros diferentes, e quem recebe só o total não sabe qual dos dois está no leito.

A medida ingênua é o total. A medida que funciona é o registro dos três componentes, com a resposta pupilar e a hora, lido em sequência. Este artigo explica a escala de coma de Glasgow por esse ângulo: o que cada item mede, como somar, quando não somar e como a equipe comunica uma mudança.

O que é a escala de Glasgow?

A escala de coma de Glasgow (ECG) serve para descrever o nível de consciência de forma padronizada, para que dois profissionais, em dois momentos, digam a mesma coisa sobre o mesmo paciente. Ela observa três respostas, abertura ocular, resposta verbal e resposta motora, e a soma vai de 3 a 15. A versão com resposta pupilar (ECG-P) subtrai do total o número de pupilas que não reagem à luz, e vai de 1 a 15.

Definida pela função, a escala é uma ferramenta de comunicação antes de ser um número. Foi publicada por Graham Teasdale e Bryan Jennett na revista The Lancet em 1974, revista pelo mesmo grupo em 2014 (Teasdale et al., Lancet Neurology, “The Glasgow Coma Scale at 40 years”) e ganhou a extensão pupilar em 2018 (Brennan, Murray e Teasdale, Journal of Neurosurgery). Os descritores oficiais e o guia de avaliação estão em glasgowcomascale.org, mantido pela Universidade de Glasgow.

Como a escala de Glasgow é pontuada

Cada componente recebe a melhor resposta observada. Na revisão de 2014, “à dor” virou “à pressão”, e o estímulo passou a ser descrito com local definido, justamente para reduzir a diferença entre avaliadores.

Pontos Abertura ocular (E) Resposta verbal (V) Resposta motora (M)
6 — — Obedece a comandos
5 — Orientada Localiza
4 Espontânea Confusa Flexão normal
3 Ao som Palavras Flexão anormal
2 À pressão Sons Extensão
1 Nenhuma Nenhuma Nenhuma
NT Não testável: algo impede a resposta (olho edemaciado, intubação, barreira de linguagem). Registra-se NT, não 1.

Para a ECG-P, avalia-se a reação das duas pupilas à luz: ambas reagem, subtrai 0; uma não reage, subtrai 1; nenhuma reage, subtrai 2. Um paciente E3 V4 M5 (12) com uma pupila sem reação tem ECG-P 11.

O ponto que mais gera erro de registro é o NT. Se um componente não pode ser testado, o total não deve ser calculado: somar 1 no lugar de NT cria um escore mais grave do que o observado. O registro correto é o dos componentes, por exemplo E3 VNT M6.

Calculadora da escala de Glasgow (ECG e ECG-P)

Registre a melhor resposta observada em cada componente.

Escolha as três respostas.

A calculadora soma e registra; não indica conduta. Não substitui o protocolo da instituição nem o julgamento clínico da equipe.

Por que o registro da Glasgow é um problema de processo

Imagine um homem de 50 e poucos anos que cai de bicicleta numa tarde de domingo. O caso é ilustrativo. A equipe do atendimento pré-hospitalar registra E4 V4 M6, ECG 14. Na UPA, duas horas depois, a ficha diz “Glasgow 13”. No hospital de referência, à noite, a enfermagem anota E3 V4 M5: ECG 12, uma pupila lenta.

Ele não é exceção. Entre 2008 e 2019, o SUS registrou 1.572.178 internações por traumatismo cranioencefálico, média de 131 mil por ano e incidência de 65,5 por 100 mil habitantes (Carteri e Silva, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2021, com dados do DATASUS). São cerca de 359 internações por dia, perto de 180 a cada plantão de 12 horas, e cada uma passa por várias avaliações de Glasgow.

Três blocos mostram as internações por traumatismo cranioencefálico no SUS em escalas diferentes: 131 mil por ano, cerca de 359 por dia e cerca de 180 por plantão de 12 horas
Internações por traumatismo cranioencefálico no SUS, média de 2008 a 2019 (Carteri e Silva, RBTI 2021, DATASUS), lidas por ano, por dia e por plantão de 12 horas. Cada internação gera várias avaliações de Glasgow, e cada registro só com o total perde informação.

Voltando ao paciente da bicicleta: o 13 da UPA não diz qual componente caiu. Pode ter sido a fala, que oscila com dor e medo, ou o motor. Sem os componentes e sem a hora, ninguém consegue ler a sequência 14, 13, 12 como uma tendência. Ela vira três pontos isolados, cada um anotado por uma pessoa diferente com um estímulo diferente.

Foi esse tipo de lacuna que uma secretaria municipal de saúde, também em caso ilustrativo, decidiu medir. A equipe de qualidade revisou 120 fichas de transferência entre UPAs e o hospital de referência. Apenas 49 (41%) traziam E, V e M separados com horário; 52 traziam só o total, e 9 somavam um componente NT como se fosse 1.

A mudança testada não foi um treinamento a mais. A ficha passou a ter três campos obrigatórios para E, V e M, um campo para pupilas, hora e nome de quem avaliou, e o campo do total ficou bloqueado quando havia NT. A equipe testou a ficha numa UPA por duas semanas, num ciclo PDSA, antes de levá-la às outras. A proporção de fichas completas, acompanhada mês a mês, foi de 41% para 88% em quatro meses. Como indicador de equilíbrio, a equipe acompanhou o tempo de preenchimento da transferência, que não aumentou de forma perceptível.

A ressalva vale para qualquer resultado desse tipo: ficha completa melhora a comunicação, mas não garante que a avaliação foi bem feita. Por isso o passo seguinte foi conferir a concordância entre avaliadores em casos de simulação, com o estímulo padronizado da revisão de 2014. Separar o que é variação do avaliador do que é mudança do paciente é o mesmo raciocínio de causas comuns e especiais que a formação Green Belt aplica a qualquer indicador de processo.

O que a equipe faz quando o escore muda

A escala descreve; quem decide a conduta é o protocolo da instituição e a equipe médica. O papel do registro é tornar a mudança visível e comunicável. Na prática, isso significa três coisas: avaliar sempre do mesmo jeito (mesmo estímulo, mesmo local), registrar componentes, pupilas e hora a cada avaliação, e comunicar a mudança pelo canal que a instituição definiu, com o dado anterior e o atual lado a lado.

Uma queda de um ponto no motor comunicada como “E3 V4 M6 às 14h, E3 V4 M5 às 16h, pupila direita lenta” é uma informação. A mesma queda comunicada como “o Glasgow caiu um pouco” é uma impressão. A primeira permite que quem recebe compare; a segunda depende de memória.

Onde a escala de Glasgow se encaixa na rotina de enfermagem

A Glasgow raramente é avaliada sozinha. Ela entra junto dos sinais vitais, e as duas séries lidas juntas contam mais do que qualquer uma isolada. Para transmitir a mudança, o protocolo SBAR organiza a fala em situação, contexto, avaliação e recomendação, e a passagem de plantão é o momento em que o registro por componente mais faz diferença.

A lógica de escala padronizada, registro com hora e reavaliação é a mesma da escala de Braden para risco de lesão por pressão. O mapa das escalas e rotinas está no hub de enfermagem. Para quem quer tratar o fluxo de transferência e registro como processo, o curso de Lean Healthcare trabalha o mapeamento ponta a ponta, e a Introdução ao Lean Healthcare é o primeiro passo.

A Glasgow vale pelos componentes no tempo, não pelo total do momento

O total de 3 a 15 é um resumo útil, mas perde exatamente o que a equipe precisa saber: qual resposta mudou, quando e para onde. A escala cumpre sua função quando cada avaliação deixa registrados E, V, M, pupilas e hora, e quando a sequência é lida como série. No caso da secretaria, o ganho não veio de ensinar a somar, e sim de desenhar uma ficha em que somar errado ficou mais difícil do que registrar certo.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.

Redesenhar uma ficha, testá-la numa unidade e medir a proporção de registros completos mês a mês é o tipo de projeto ensinado no curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde da Escola EDTI, para equipes que querem que a melhoria do registro apareça no dado e não só no procedimento escrito.

Perguntas frequentes sobre a escala de Glasgow

Qual a pontuação mínima e máxima da escala de Glasgow?

Na ECG, a soma vai de 3 (nenhuma resposta nos três componentes) a 15 (abre os olhos espontaneamente, fala orientada e obedece a comandos). Na ECG-P, que subtrai até 2 pontos pela reação pupilar, a faixa vai de 1 a 15.

Como calcular a ECG-P?

Some abertura ocular, resposta verbal e resposta motora e subtraia o número de pupilas que não reagem à luz: 0, 1 ou 2. Exemplo: E2 V3 M4 = 9; com as duas pupilas sem reação, ECG-P = 7.

Como registrar a Glasgow em paciente intubado?

A resposta verbal não pode ser testada, e o registro é NT (não testável) nesse componente, por exemplo E2 VNT M5. A orientação do grupo de Glasgow é registrar NT, e não atribuir 1 ponto à fala; sem um componente, o total deixa de ser comparável.

O que significa Glasgow leve, moderado e grave?

No traumatismo cranioencefálico, a literatura costuma classificar a gravidade pelo total: 13 a 15 leve, 9 a 12 moderado e 3 a 8 grave. É uma classificação descritiva; a conduta depende do protocolo da instituição e da avaliação médica.

O que mudou na escala de Glasgow em 2014?

A revisão do grupo de Teasdale padronizou os termos (por exemplo, “à pressão” no lugar de “à dor”), definiu os locais de estímulo, reforçou o uso de NT e recomendou comunicar os componentes, não só o total. Em 2018, o mesmo grupo publicou a ECG-P.

Como começar a padronizar a escala de Glasgow na equipe?

Comece medindo: revise 30 a 50 registros recentes e conte a proporção que traz E, V, M, pupilas e hora. Depois teste uma mudança pequena numa unidade, como uma ficha com campos separados, e acompanhe a mesma proporção semana a semana antes de ampliar.

post

Inscreva-se em nossa newsletter

E receba por email novos conteúdos assim que forem publicados!

Desenvolvido por: