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NR-33: o que a norma de espaço confinado cobra e o que de fato evita acidente

“Com a PET assinada, está seguro.” A frase circula no canteiro com ar de verdade antiga. Então responda: se a permissão garante a segurança, por que o detector de gases passou a tarde de terça-feira desligado, pendurado no prendedor da prancheta onde a PET estava assinada?

A cena é de uma construtora com três obras em andamento (caso ilustrativo). Dois trabalhadores impermeabilizavam a cisterna enterrada de um prédio residencial. O supervisor de entrada mediu a atmosfera às 13h10: oxigênio em 20,9%, nenhum gás inflamável. Assinou. O vigia assinou. O detector voltou para a prancheta, ao lado da garrafa de café. Às 14h, o primer à base de solvente já evaporava lá embaixo, e ninguém na boca da cisterna tinha um número para olhar.

Ninguém se feriu naquela tarde. O que a cena mostra é a distância entre o que a NR-33 manda registrar e o que ela manda fazer. A seguir: o que a norma cobra, item por item, e o que de fato reduz acidente em espaço confinado.

O que é a NR-33?

A NR-33 é a Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego sobre segurança e saúde nos trabalhos em espaços confinados. Ela define o que é espaço confinado, quem pode entrar, como a entrada é autorizada pela Permissão de Entrada e Trabalho (PET), como a atmosfera é avaliada e como é feito o resgate. O texto atual foi dado pela Portaria MTP nº 1.690, de 15/06/2022, em vigor desde 03/10/2022; confira no gov.br se houve alteração posterior.

O que a NR-33 cobra: PET, vigia, supervisor e atmosfera

Antes de discutir o que funciona, vale ter o mapa das exigências na mesa. A coluna da direita não está na norma: é onde, na prática, cada exigência costuma virar só papel.

Exigência Item O que a norma diz Onde costuma falhar
Cadastro dos espaços 33.3.2 O responsável técnico mantém o cadastro dos espaços confinados Cisterna, tubulão e caixa de passagem que “aparecem” no meio da obra ficam fora
PET 33.5.5 e 33.5.12 Toda entrada é precedida de PET; vale por uma jornada e, com prorrogações, no máximo 24 horas Preenchida no escritório, antes de alguém olhar o local
Supervisor de entrada 33.3.3 Emite a PET, executa os testes e confere os equipamentos Assina e vai para a próxima frente
Vigia 33.3.4 Só deixa entrar quem está na PET e não pode fazer outras tarefas durante a operação Vira ajudante: desce material, busca ferramenta
Avaliação da atmosfera 33.5.15.1 a 33.5.15.3 Avaliação imediatamente antes da entrada e monitoramento contínuo durante a permanência; oxigênio entre 19,5% e 23% Só a leitura de entrada existe
Capacitação Anexo III Supervisor 40 h; vigia e trabalhador autorizado 16 h; periódica anual de 8 h; no mínimo metade prática Certificado em dia, prática no papel
Resgate 33.5.20 e 33.3.6 Plano de resgate com equipe dimensionada, tempo de resposta e simulado anual Plano arquivado, tripé guardado no almoxarifado

A PET ainda deve ser arquivada por cinco anos (33.5.9). Os números dos itens acima seguem a redação de 2022; confira a versão vigente antes de usar em auditoria.

Para que serve a NR-33: o risco que não se vê

A norma faz sentido quando se entende a função de cada parte. Pelo item 33.2.2, espaço confinado é o local que reúne três condições ao mesmo tempo: não foi projetado para ocupação humana contínua, tem meios limitados de entrada e saída e tem, ou pode ter, atmosfera perigosa. A atmosfera perigosa é a de oxigênio de menos ou de mais, a de contaminante que faz mal à saúde e a explosiva.

Cada condição explica uma exigência. Como o risco está no ar e não se vê, a avaliação atmosférica não pode depender do nariz de ninguém. Como a saída é limitada, quem está dentro não consegue fugir rápido, e o vigia existe para pedir socorro sem entrar. Como o local não foi feito para gente, alguém precisa decidir, por escrito, quem entra e em que condições: é a função da PET.

O vigia que não entra é a parte mais contraintuitiva, e a mais importante. Segundo alerta do NIOSH, agência de saúde ocupacional dos Estados Unidos, mais de 60% das mortes em espaço confinado atingem quem entrou para socorrer. O colega desce sem proteção, respira o mesmo ar e vira a segunda vítima. Por isso a norma exige plano de resgate antes, e não coragem na hora.

Onde a PET assinada deixa de proteger

Volte à construtora. O técnico de segurança desconfiou da prancheta e foi buscar um dado que já existia: os detectores da empresa guardam a leitura minuto a minuto. Cruzou o registro de cada aparelho com as PETs de 16 semanas, nas três obras. Foram 353 entradas em espaço confinado.

O leitor que trabalha com segurança já tem a objeção pronta: “Mas o procedimento da empresa exige monitoramento contínuo. Está escrito.” Está. E o procedimento também estava assinado. Nas primeiras 8 semanas, 100% das entradas tinham PET emitida e assinada. Só 61 de 174 (35%) tinham registro de monitoramento contínuo durante a permanência. Nas outras, o detector media na entrada e era desligado ou ficava fora do espaço.

Gráfico de linhas de 16 semanas: a proporção de entradas com PET assinada fica em 100% o tempo todo, enquanto a de entradas com monitoramento contínuo registrado oscila entre 27% e 42% nas semanas 1 a 8 e sobe para 83% a 96% a partir da semana 10, depois da mudança na semana 9
Caso ilustrativo de uma construtora com três obras, 353 entradas em 16 semanas. Linha cinza: PET emitida e assinada. Linha laranja: entradas com monitoramento contínuo no registro do detector, de 35% (61 de 174) antes da mudança para 88% (158 de 179) depois.

A série semanal disse o que nenhuma PET isolada diria. A proporção não oscilava por acaso entre obras ou turmas: ficava estável em torno de 35%, semana após semana. Era o resultado previsível do jeito como o trabalho estava desenhado, não um descuido de alguém. O detector era um só por frente, ficava com o supervisor, e o supervisor tinha outras quatro frentes para liberar.

A mudança foi testada como ciclo PDSA, com predição escrita: chegar a pelo menos 80% de entradas com monitoramento contínuo em quatro semanas. Três ajustes ao mesmo tempo, na semana 9: o detector passou a ir preso ao peito de quem entra, perto da zona de respiração; o vigia anotava a leitura na própria PET a cada 15 minutos; e a PET só era encerrada com o registro do detector baixado. A partir da semana 10, a proporção ficou entre 83% e 96%.

Duas ressalvas. Esse é um indicador de processo: mede se a proteção está acontecendo, não quantos acidentes foram evitados, porque acidente grave é raro demais para servir de régua semanal. E foi preciso acompanhar um indicador de equilíbrio, o tempo de liberação da PET, que subiu de 18 para 21 minutos na mediana. Ler as duas séries juntas, semana a semana, e testar a mudança com predição é o núcleo do que a formação Green Belt ensina para qualquer processo.

O que reduz acidente em espaço confinado, além do papel

A pergunta mais útil não é “a PET está em ordem?”, e sim “o que acontece lá dentro depois que a PET é assinada?”. Algumas respostas que funcionam:

Evitar a entrada. Inspeção por câmera, limpeza por fora, peça pré-fabricada. A entrada que não acontece não precisa de vigia.

Ventilar e medir onde se respira. O detector na boca do espaço mede o ar da boca. Quem trabalha no fundo respira outro ar, principalmente quando o próprio serviço gera vapor, como o primer da cisterna.

Deixar o vigia só vigiando. Se ele desce material, ele não está olhando. A norma proíbe outras tarefas por esse motivo.

Resgatar sem entrar. Tripé, guincho e cinto montados antes da entrada, e um simulado que meça o tempo de resposta real, não o do plano.

Abrir a PET no local. A permissão preenchida na frente do espaço obriga a olhar o espaço. A preenchida no escritório obriga só a assinar.

NR-33 e as normas vizinhas

A NR-33 não trabalha sozinha. O espaço confinado entra no gerenciamento de riscos da organização, que a NR-1 organiza no PGR. Quando a descida é feita por escada acima de 2 metros, como em muitas cisternas, vale também a NR-35, de trabalho em altura. Quando há bomba, motor ou painel ligado ao espaço, o bloqueio de energia conversa com a NR-10.

A lógica da PET é a mesma da permissão de trabalho em geral: uma decisão registrada sobre aquele lugar, naquele dia. E os alarmes do detector que dispararam sem ninguém se ferir são quase-acidentes, a base da pirâmide de Heinrich: contá-los no tempo mostra o risco antes de ele virar ocorrência. O mapa completo está no guia de normas regulamentadoras.

Três perguntas para testar a NR-33 na sua obra

Na última entrada em espaço confinado, você consegue mostrar o registro da atmosfera durante toda a permanência, ou só a leitura de entrada?

Na última PET, o vigia fez alguma outra tarefa, por cinco minutos que seja?

No último simulado, quanto tempo levou para tirar alguém do fundo, medido no relógio, e esse número cabe no tempo de resposta do plano?

Se alguma resposta for “não sei”, a norma está cumprida na prancheta. O próximo passo é medir.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi a diferença entre a PET assinada e o monitoramento contínuo da atmosfera, medida como série no tempo.


Transformar a desconfiança sobre uma prancheta em série semanal e em teste com predição é a base do curso gratuito White Belt da Escola EDTI, com o Modelo de Melhoria e o ciclo PDSA.

Perguntas frequentes sobre a NR-33

O que é considerado espaço confinado pela NR-33?

O local que reúne ao mesmo tempo três condições: não foi projetado para ocupação humana contínua, tem meios limitados de entrada e saída e tem, ou pode ter, atmosfera perigosa (33.2.2). Cisterna, tanque, silo, galeria e tubulão costumam entrar.

Qual a validade da PET?

Uma jornada de trabalho. Pode ser prorrogada, mas a validade total, com prorrogações, não pode passar de 24 horas (33.5.12). A PET deve ser arquivada por cinco anos.

Qual a carga horária do curso de NR-33?

Pelo Anexo III, 40 horas para o supervisor de entrada e 16 horas para vigia e trabalhador autorizado, com reciclagem anual de 8 horas. Pelo menos metade da carga deve ser prática.

O vigia pode fazer outras tarefas?

Não durante a operação em espaço confinado (33.3.4). A norma permite, em condições específicas, que um vigia acompanhe mais de um espaço; confira o subitem 33.3.4.1 no texto vigente.

Qual o nível de oxigênio aceitável em espaço confinado?

Entre 19,5% e 23% em volume, desde que a causa de qualquer alteração seja conhecida e controlada (33.5.15.2). Fora dessa faixa, a causa precisa ser tratada antes de qualquer entrada.

Como começar a aplicar a NR-33 na prática?

Comece pelo cadastro de todos os espaços confinados, inclusive os que surgem durante a obra. Depois escolha um indicador de processo, como a proporção de entradas com monitoramento contínuo registrado, e acompanhe semana a semana antes de mudar qualquer procedimento.

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