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Escala de Apgar: critérios, pontuação e calculadora de registro

O Apgar não decide nada na sala de parto. O Apgar é um dos primeiros registros oficiais da vida de uma pessoa. E o par de números mais comum nesse registro, “8/9”, muitas vezes informa menos do que parece.

As três frases são verdadeiras ao mesmo tempo. A primeira é regra: as diretrizes de reanimação neonatal da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2022) dizem que o boletim de Apgar não é usado para indicar procedimentos. A segunda é fato administrativo: os valores do 1º e do 5º minuto vão para a Declaração de Nascido Vivo e para a caderneta da criança. A terceira aparece num detalhe banal da folha de parto, o campo “Apgar ___/___”. Duas lacunas e uma barra convidam a escrever dois totais, e só.

O que é a escala de Apgar?

A escala de Apgar é uma pontuação de 0 a 10 que descreve a condição do recém-nascido no 1º e no 5º minuto de vida. Cinco critérios observáveis, frequência cardíaca, respiração, tônus muscular, irritabilidade reflexa e cor, recebem 0, 1 ou 2 pontos cada. O total resume o que foi visto naquele minuto; os cinco componentes e a hora do nascimento mostram como se chegou a ele.

A calculadora abaixo faz a soma e monta o registro com o minuto, os componentes e a hora, no formato que permite auditoria depois.

Calculadora de Apgar: registre o que foi observado em cada critério, no minuto escolhido.

Escolha os cinco critérios.

A calculadora só soma e organiza o registro. Não indica reanimação nem outro procedimento e não substitui o protocolo da instituição nem o julgamento clínico da equipe.

Os cinco critérios da escala de Apgar e como pontuar cada um

Cada critério recebe a pontuação da condição observada no minuto avaliado. Os descritores abaixo seguem o uso consolidado da escala, como aparece no documento conjunto da Academia Americana de Pediatria e do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (AAP e ACOG, “The Apgar Score”, Pediatrics, 2015).

Frequência cardíaca: 2 pontos com 100 batimentos por minuto ou mais; 1 ponto abaixo de 100; 0 se ausente. Respiração: 2 com respiração regular e choro forte; 1 com respiração irregular, lenta ou choro fraco; 0 se ausente. Tônus muscular: 2 com movimentos ativos; 1 com alguma flexão dos membros; 0 se flácido.

Irritabilidade reflexa, a resposta a um estímulo como a aspiração das narinas: 2 com choro, tosse ou espirro; 1 com careta; 0 sem resposta. Cor: 2 com o corpo todo rosado; 1 com corpo rosado e extremidades azuladas; 0 com o corpo todo azulado ou pálido.

A cor é um critério subjetivo, e extremidades azuladas no primeiro minuto são comuns em recém-nascidos saudáveis. Por isso um 9 no 1º minuto costuma vir com 1 ponto na cor. O detalhe importa para o registro: quem anota só “9” não deixa claro qual critério perdeu o ponto.

Por que o Apgar é feito no 1º e no 5º minuto, e quando repetir

O relógio começa na extração completa do bebê do corpo da mãe, segundo a diretriz da SBP de 2022. O escore é determinado no 1º e no 5º minuto. Se o valor do 5º minuto for menor que 7, a diretriz orienta repetir a avaliação a cada cinco minutos, até 20 minutos de vida.

Duas consequências de processo saem dessa regra. A primeira: sem a hora do nascimento anotada, “5º minuto” vira estimativa, e o escore deixa de ser comparável entre partos. A segunda: a SBP pede que o Apgar seja documentado ao mesmo tempo que os procedimentos de reanimação, e o próprio documento traz como anexo um boletim de Apgar ampliado, para esse registro conjunto. A frequência cardíaca do Apgar é a mesma grandeza que aparece nos sinais vitais, mas aqui ela é lida contra um relógio de minutos, não de horas.

A escala de Apgar é um registro de observação, não uma indicação de conduta

Definida pela origem, a escala é um instrumento de comparação. A anestesiologista norte-americana Virginia Apgar a propôs no início dos anos 1950 para avaliar, de forma padronizada, como os recém-nascidos estavam logo após o parto, e assim comparar práticas obstétricas e anestésicas entre si. O acrônimo em inglês com as iniciais dos critérios veio depois, como recurso de memorização.

O que a escala não é está escrito nas mesmas fontes. A reanimação não espera o escore do 1º minuto. O documento da AAP e do ACOG de 2015 descreve 7 a 10 como faixa tranquilizadora, 4 a 6 como moderadamente anormal e 0 a 3 como baixa, e adverte que um escore baixo, sozinho, não basta para diagnosticar asfixia nem para prever o desenvolvimento neurológico de uma criança. São associações observadas em populações, não sentenças sobre um bebê.

Se o Apgar não orienta a conduta, para que serve um registro bem feito? Para o que Virginia Apgar queria: comparar. Um serviço só consegue saber se os nascimentos sob sua responsabilidade estão indo melhor ou pior quando os escores foram medidos do mesmo jeito, no mesmo minuto, com os componentes anotados.

Quando o registro do Apgar vira só “8/9”

Considere, como exemplo ilustrativo, um pronto-socorro de hospital geral que recebe cerca de 40 partos por ano que não chegam ao centro obstétrico a tempo. A equipe atende bem, mas raramente. Uma revisão de 40 prontuários de dois anos encontrou 7 partos sem Apgar anotado, 20 com só os dois totais, 9 com os cinco critérios mas sem hora do nascimento e 4 completos, com critérios e hora. Proporção de registros auditáveis: 10%.

A primeira ideia foi reescrever o protocolo. O protocolo já pedia o Apgar. Em vez disso, a equipe rodou um ciclo PDSA: um cartão plastificado no kit de parto do pronto-socorro, com cinco linhas por minuto e um campo para a hora, preenchido por uma segunda pessoa, sem tirar as mãos de quem atende. A predição escrita era pelo menos 6 registros completos nos 10 partos seguintes. Foram 6. No segundo ciclo, o kit ganhou um cronômetro iniciado no nascimento, e os registros completos chegaram a 9 por trimestre nos dois últimos trimestres.

Gráfico de barras empilhadas com oito trimestres de partos no pronto-socorro; nos quatro primeiros predominam registros com só o total ou sem Apgar, e depois da linha de início dos ciclos PDSA predominam registros completos, com 6, 7, 9 e 9 por trimestre
Exemplo ilustrativo, 80 partos em oito trimestres. Cada barra soma os partos do trimestre e mostra, em camadas, o que ficou anotado: completo (critérios e hora), critérios sem hora, só o total ou nada. Antes dos ciclos PDSA, 4 de 40 registros eram completos; depois, 31 de 40.

A ressalva vem junto. Com cerca de dez partos por trimestre, cada ponto oscila muito, e a conclusão depende de ver a sequência, não um trimestre isolado; é a leitura que se faz num gráfico de tendência. O indicador de equilíbrio foi o número de partos em que o registro tirou alguém do atendimento: nenhum nos 40 partos posteriores, segundo a revisão dos casos pela equipe. Separar a variação esperada de uma mudança real com amostras pequenas é parte do raciocínio estatístico da formação Green Belt.

O caso também mostra um padrão conhecido em saúde: a falha estava no desenho do registro, não no conhecimento da escala. Desenhar o fluxo para que o certo seja o caminho mais fácil é o tema do curso de Lean Healthcare, e a Introdução ao Lean Healthcare apresenta essa lógica em formato curto.

Apgar e Glasgow: a mesma soma de componentes, relógios diferentes

A escala de Glasgow e o Apgar têm a mesma anatomia: componentes observados, pontuação ordinal, um total. A diferença está no relógio. A Glasgow é repetida ao longo de horas e dias, e o que informa é a mudança entre avaliações. O Apgar tem minutos fixos e curtos, e cada registro só vale se o minuto for exato. Nas duas, o total sozinho esconde qual componente mudou, e nas duas a correção é a mesma: anotar componentes e hora. Os demais conteúdos da família estão no guia de enfermagem.

Um Apgar vale pelo minuto em que foi medido

Sem a hora do nascimento e sem os cinco critérios, o escore é um número escrito numa barra. Com eles, vira um dado comparável entre partos, entre equipes e entre anos, que era o propósito original da escala. O Apgar continua sem decidir nada na sala de parto; o que muda é que o serviço passa a saber, com dados, como seus recém-nascidos estão chegando ao 5º minuto.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


O que transformou o “8/9” em registro auditável não foi um protocolo novo, e sim uma predição, um teste pequeno no kit de parto e a leitura da proporção trimestre a trimestre. Esse é o conteúdo do curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde da Escola EDTI, para equipes que querem que uma melhoria de processo apareça no dado, e não só no documento.

Perguntas frequentes sobre a escala de Apgar

Quais são os 5 critérios da escala de Apgar?

Frequência cardíaca, respiração, tônus muscular, irritabilidade reflexa e cor. Cada um recebe 0, 1 ou 2 pontos, e a soma vai de 0 a 10.

Qual é o Apgar normal?

O documento da AAP e do ACOG (2015) descreve 7 a 10 como faixa tranquilizadora, 4 a 6 como moderadamente anormal e 0 a 3 como baixa. É uma classificação descritiva do minuto avaliado; a avaliação e a conduta são da equipe que atende o recém-nascido.

O que significa Apgar 8/9?

Significa 8 pontos no 1º minuto e 9 no 5º. Sem os componentes, não se sabe qual critério perdeu pontos; com frequência é a cor, porque extremidades azuladas são comuns nos primeiros minutos.

Apgar baixo significa que o bebê teve asfixia?

Não necessariamente. A AAP e o ACOG advertem que o escore baixo, isolado, não é suficiente para diagnosticar asfixia nem para prever o desenvolvimento neurológico. Esse diagnóstico depende de outros dados clínicos e laboratoriais.

O Apgar é usado para decidir a reanimação?

Não. Segundo a diretriz de 2022 da SBP, o boletim de Apgar não é usado para indicar procedimentos na reanimação neonatal, que começa antes do 1º minuto quando necessária. O Apgar é documentado junto com os procedimentos realizados.

O que estudar depois da escala de Apgar?

Dois caminhos complementares. No conteúdo clínico, as diretrizes de reanimação neonatal da SBP. No processo, como medir a qualidade do próprio registro e testar mudanças pequenas com predição, que é o que permite a um serviço saber se está melhorando.

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