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FIFO: o que é, como aplicar e o que a fila revela sobre o processo

Quem procura FIFO costuma estar atrás de uma de duas coisas bem diferentes — e os materiais disponíveis raramente avisam qual delas estão respondendo.

De um lado, o contador querendo saber como valorar o estoque no balanço. Do outro, quem opera um almoxarifado, uma linha ou uma fila de atendimento e precisa garantir que a primeira coisa a entrar seja a primeira a sair.

É a mesma sigla, e a lógica de fundo é a mesma. Mas o que se faz com ela muda por completo. Este artigo trata das duas, com peso na segunda.

O que FIFO significa

FIFO é a sigla de First In, First Out — primeiro a entrar, primeiro a sair. É uma regra de sequenciamento: os itens são consumidos, processados ou vendidos na mesma ordem em que chegaram.

O oposto é o LIFO (Last In, First Out), em que o último a entrar é o primeiro a sair — o que acontece naturalmente em qualquer pilha, do estoque de sacos empilhados à caixa de entrada de e-mails.

Vale marcar o que FIFO não é: não é priorização. Uma fila FIFO ignora urgência, tamanho do pedido e importância do cliente. Isso é uma limitação em alguns contextos e exatamente a virtude em outros — porque uma regra que não abre exceção é a única que permite prever quanto tempo algo vai demorar.

As duas leituras: contábil e operacional

FIFO contábil (PEPS) FIFO operacional (Lean)
Do que trata Qual custo é baixado quando um item sai Qual item físico sai primeiro
Onde vive Sistema contábil, balanço Chão de fábrica, almoxarifado, fila
Efeito Valor do estoque e do CMV Idade do estoque, previsibilidade do fluxo
Pode existir sem o outro? Sim — e é o caso comum Sim

No Brasil, o FIFO contábil é chamado de PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai). Ele determina que, ao dar baixa em uma unidade, o custo baixado é o da unidade mais antiga em estoque. Em cenário de preços em alta, isso resulta em custo da mercadoria vendida menor e estoque final mais valorizado que o método alternativo.

A armadilha, e o motivo de a distinção importar: uma empresa pode usar PEPS na contabilidade e LIFO na prática física. O sistema baixa o lote mais antigo enquanto o operador retira o saco de cima da pilha, que é o mais novo. O balanço fica correto e o material antigo envelhece no fundo até vencer.

É um dos desalinhamentos mais comuns entre o que o sistema registra e o que acontece no processo — e ele só aparece quando alguém vai olhar.

Por que FIFO importa no Lean

No pensamento Lean, FIFO não é preferência de organização. É condição para três coisas:

Idade controlada do material. Sem FIFO, parte do estoque envelhece indefinidamente. Em produtos com validade, isso vira perda direta; em componentes eletrônicos ou químicos, vira defeito que aparece depois, na montagem ou no cliente.

Previsibilidade do tempo de atravessamento. Numa fila FIFO, o tempo que um item leva para atravessar o processo depende só do tamanho da fila e do ritmo de saída. É calculável. Numa fila com furos — alguém sempre puxando o mais urgente para frente —, o tempo de qualquer item vira imprevisível, porque depende de quantas exceções vão passar na frente dele. O impacto disso sobre o lead time é direto.

Detecção precoce de problema. Quando o material sai na ordem em que entrou, um defeito introduzido hoje aparece logo. Sem FIFO, um lote com problema pode ficar meses parado e chegar ao processo quando ninguém mais consegue reconstituir o que aconteceu.

O caso da fila que não era fila

Uma operação de laboratório clínico mantinha as amostras numa bancada de “aguardando análise”. A regra oficial era ordem de chegada; a prática era pegar as caixas mais acessíveis, e as urgências entravam por fora.

O tempo médio de liberação era de 6 horas, e a gerência considerava o desempenho aceitável. Ao medir o tempo por amostra em vez da média, apareceu outra coisa: a maioria saía em cerca de 3 horas, e um grupo pequeno passava de 14 — as que ficavam no fundo da bancada. A média escondia dois comportamentos diferentes no mesmo processo.

Organizar a bancada em FIFO físico, com posição de entrada e de saída definidas, não reduziu a média de forma dramática. Mas a dispersão caiu: o pior caso saiu de 14 horas para menos de 7. Nenhum recurso foi adicionado — só a ordem mudou.

É um efeito típico e contraintuitivo: FIFO costuma melhorar mais a previsibilidade do que a velocidade média. E previsibilidade é o que permite prometer prazo.

Como implementar FIFO na prática

A regra escrita no procedimento não produz FIFO. O que produz é o arranjo físico tornar a alternativa difícil:

  • Entrada e saída em lados opostos. Prateleira com abastecimento por trás e retirada pela frente, ou corredor de fluxo passante. Se entra e sai pelo mesmo lado, LIFO acontece sozinho.
  • Faixa FIFO com capacidade definida. Uma pista com espaço para N itens. Cheia, o processo anterior para — o que é sinal de gestão, não problema a contornar.
  • Data visível na embalagem. Não a data no sistema: a data que o operador enxerga sem consultar nada.
  • Ordem por identificação sequencial quando o material não pode ser fisicamente ordenado, com auditoria por amostragem.

A faixa FIFO com limite é, aliás, o parente mais próximo do kanban: as duas usam o espaço físico limitado como sinal, em vez de depender de alguém decidir.

Quando FIFO não é a regra certa

Existem processos em que priorizar é obrigatório — triagem de emergência, manutenção corretiva de equipamento crítico. Aí a resposta não é abandonar FIFO, e sim separar as filas: cada classe de prioridade com sua própria fila FIFO interna.

O que destrói a previsibilidade não é a existência de urgência. É a urgência entrando numa fila única, caso a caso, por decisão individual.

O que a fila revela sobre o processo

Um efeito colateral de implantar FIFO é que ele torna visível o que estava escondido. Quando todos os itens seguem a mesma regra, o tempo de atravessamento de cada um passa a ser dado comparável.

E aí a pergunta muda de qualidade. Em vez de “qual foi o tempo médio no mês passado?”, vira: como esse tempo tem se comportado ao longo das semanas? Existe variação normal ou existe sinal? O pico de terça-feira é o processo sendo ele mesmo ou aconteceu alguma coisa?

Sem FIFO, essa análise é impossível — a variação observada mistura o comportamento do processo com as decisões de quem furou a fila. Com FIFO, a variação restante é do processo, e passa a ser objeto legítimo de melhoria.

É por isso que ordenar a fila costuma ser um dos primeiros movimentos em iniciativas de Lean: não porque a ordem em si gere ganho grande, mas porque ela é pré-requisito para enxergar. A gestão de níveis e o estoque como desperdício são tratados em artigo próprio, e o sistema que reduz o estoque na origem, em Just in Time.

Organizada a fila e medido o tempo, a pergunta seguinte é o que fazer com a variação que sobrou — e essa é a competência que a formação Green Belt desenvolve: distinguir o que é ruído do que é sinal, e testar mudanças que se provam com dado.

Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Revisão com foco na distinção entre o método contábil PEPS e a regra operacional de fluxo, e no efeito do FIFO sobre a dispersão do tempo de atravessamento.


Ordenar a fila revela a variação real do processo — e é aí que a maioria das operações descobre que não sabia interpretar os próprios tempos. A certificação White Belt gratuita da EDTI ensina a ler esse dado no tempo e a separar oscilação normal de problema real.

Perguntas frequentes sobre FIFO

O que significa FIFO?

First In, First Out — primeiro a entrar, primeiro a sair. É a regra em que itens são consumidos ou processados na mesma ordem em que chegaram. Em contabilidade, o equivalente em português é PEPS.

Qual a diferença entre FIFO e LIFO?

No FIFO, o item mais antigo sai primeiro. No LIFO (Last In, First Out), sai o mais recente. LIFO acontece naturalmente em pilhas e prateleiras com entrada e saída pelo mesmo lado.

FIFO e PEPS são a mesma coisa?

PEPS é o nome brasileiro do FIFO contábil, usado para valorar estoque e custo da mercadoria vendida. É possível usar PEPS no sistema e não praticar FIFO fisicamente — desalinhamento comum, que faz material antigo envelhecer no fundo.

FIFO serve fora da indústria?

Sim. Filas de atendimento, ordens de serviço, análise de documentos, triagem de exames — qualquer processo com itens aguardando. O ganho principal é previsibilidade de prazo.

FIFO reduz o tempo de processo?

Normalmente reduz mais a dispersão do que a média. O maior efeito aparece no pior caso: os itens que ficavam esquecidos no fundo da fila param de existir.

E quando existe urgência real?

Separar em filas por classe de prioridade, cada uma com FIFO interno. O que destrói a previsibilidade é a urgência entrando numa fila única por decisão caso a caso.

Como começar a aplicar FIFO?

Escolha um ponto de acúmulo, defina fisicamente onde entra e onde sai, e meça o tempo de atravessamento de cada item por algumas semanas. O dado no tempo mostra se a ordem melhorou a previsibilidade — é o primeiro exercício da certificação White Belt gratuita.

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