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Observação do trabalho: como enxergar o trabalho real, e não o que está no procedimento

Quantas vezes a dupla checagem de medicação é feita na unidade? O procedimento diz que em todas. A supervisora de enfermagem diz que “quase sempre”. A técnica que prepara as doses às 6h da manhã diz, se alguém perguntar sem gravador ligado, que depende de ter outra pessoa livre naquele minuto.

As três respostas descrevem o mesmo processo, e só uma delas pode ser verificada. Numa unidade de internação, a equipe de qualidade decidiu parar de perguntar e foi ver: observou 60 preparos de medicação, distribuídos pelos três turnos. A dupla checagem foi feita em 23, 38,3% do total. Ninguém tinha mentido. O procedimento descrevia o trabalho como imaginado; a observação mostrou o trabalho como ele era feito. (Situação-tipo construída para este texto.)

O que é a observação do trabalho, e o que ela não é

Observação do trabalho é o acompanhamento direto e estruturado de uma tarefa enquanto ela é executada, no lugar e no horário em que acontece, com registro do que foi feito, em que ordem, com que meios e com que desvios em relação ao previsto. O objetivo é conhecer o processo como ele é antes de tentar mudá-lo.

Ela não é auditoria. A auditoria compara o trabalho com a norma e registra não conformidades; a observação quer entender por que o trabalho real se afastou da norma, partindo do princípio de que quase sempre há um motivo prático. Também não é cronometragem: medir tempos padrão é território do estudo de tempos e movimentos. E não é a visita de rotina do gestor à área, embora nasça da mesma ideia do gemba, o lugar onde o trabalho acontece. O gemba diz onde olhar; a observação do trabalho define como olhar e o que registrar.

Trabalho prescrito e trabalho real

A distinção que sustenta a técnica vem da ergonomia da atividade, desenvolvida na tradição francesa e sistematizada no Brasil a partir de Compreender o trabalho para transformá-lo, de Guérin e colegas (2001). O trabalho prescrito é a tarefa como a organização a definiu: o procedimento, a sequência, o tempo previsto. O trabalho real é a atividade como as pessoas a executam diante das condições do dia: falta de material, interrupções, equipamentos que não estão onde deveriam.

Aspecto Trabalho prescrito Trabalho real
Onde está No procedimento, no fluxograma, no treinamento No posto de trabalho, no turno, na hora de pico
Quem descreve Quem planejou o processo Quem executa, e só quando alguém observa ou pergunta direito
O que pressupõe Condições ideais e estáveis As condições do dia, com falta, pressa e improviso
Como se conhece Lendo o documento Observando a execução

A diferença entre os dois não é, na maior parte das vezes, indisciplina. É adaptação. A técnica que não faz a dupla checagem às 6h está resolvendo um conflito que o procedimento não previu: a medicação tem horário e a segunda pessoa está no banho do paciente do leito ao lado. Cobrar a norma sem mudar essa condição só empurra a adaptação para baixo do tapete.

Como fazer uma observação do trabalho

Defina a pergunta antes de ir. “Como é feito o setup da injetora 4?” é uma pergunta observável. “Por que a produtividade caiu?” não é. A pergunta decide o que registrar e quantas execuções observar.

Observe execuções suficientes, em condições diferentes. Uma observação só mostra um caso. Distribuir as observações por turno, dia da semana e operador é o que permite separar o jeito da pessoa do jeito do processo. Numa fábrica de peças plásticas, o procedimento de setup de uma injetora tinha 14 passos e previa 35 minutos. A observação de 12 setups, em três turnos, mostrou tempo médio de 52 minutos, 48,6% acima do previsto, e uma sequência diferente da escrita em todos os turnos. (Situação-tipo construída para este texto.)

Registre o que acontece, não o que deveria acontecer. Cada passo na ordem real, as esperas, as buscas por ferramenta, os desvios e a justificativa que o executor dá para eles. Um fluxograma do processo real, desenhado depois da observação, costuma ser bem diferente do fluxograma oficial.

Converse com quem executa, depois de observar. A pergunta útil não é “por que você não segue o procedimento?”, e sim “o que torna difícil fazer do jeito que está escrito?”. A resposta é a lista de causas que nenhuma reunião de sala produz.

Use o que viu para decidir o que testar. Na injetora, os operadores tinham descoberto uma ordem mais rápida para três dos passos, e perdiam tempo em outros dois buscando ferramentas guardadas longe da máquina. O procedimento foi reescrito com eles, incorporando a ordem que funcionava e um carrinho de ferramentas ao lado da injetora, e testado em pequena escala num ciclo PDSA antes de virar a nova padronização. O tempo médio de setup caiu para 38 minutos, 26,9% abaixo dos 52 observados.

Onde a observação entra na melhoria

A primeira das três perguntas do Modelo de Melhoria é o que se está tentando realizar, e ela pressupõe conhecer o ponto de partida. Um projeto que começa pelo procedimento escrito começa por uma descrição que pode não existir na prática, e as mudanças que ele propõe acabam aplicadas a um processo imaginário.

A observação também muda o diagnóstico de responsabilidade. Quando o trabalho real se afasta do prescrito em todos os turnos, com todas as pessoas, o problema está no sistema, e não em quem executa. Saber ler essa diferença, e transformá-la em mudança testada com dados, é parte do que a formação Green Belt exercita na fase de entender o processo.

Na unidade de internação, a dupla checagem passou de 38,3% para 90% dos preparos observados, 54 em 60, depois que o horário de preparo das 6h foi deslocado para antes da troca de turno, quando havia duas pessoas disponíveis. Ninguém precisou ser cobrado. Mudou a condição, e o trabalho real alcançou o prescrito.

O procedimento diz como o trabalho deveria ser. Só a observação diz como ele é, e só se melhora o que se conhece como é.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, e por que ela aponta para o sistema antes de apontar para as pessoas.


Conhecer o processo como ele é vem antes de qualquer mudança. O White Belt gratuito da EDTI é o primeiro passo nesse método.

Perguntas frequentes

O que é observação do trabalho?

É o acompanhamento direto e estruturado de uma tarefa enquanto ela é executada, no lugar e no horário reais, registrando o que é feito, em que ordem e com que desvios em relação ao procedimento. Serve para conhecer o processo como ele é antes de mudá-lo.

Qual a diferença entre trabalho prescrito e trabalho real?

O trabalho prescrito é a tarefa como a organização a definiu, no procedimento e no treinamento. O trabalho real é a atividade como as pessoas a executam diante das condições do dia. A diferença entre os dois costuma ser adaptação a condições que o procedimento não previu.

Observação do trabalho é a mesma coisa que auditoria?

Não. A auditoria compara a execução com a norma e registra não conformidades. A observação busca entender por que a execução se afastou da norma, para mudar as condições que produzem o desvio.

Quantas observações são necessárias?

Depende da pergunta e da variação do processo, mas uma só nunca basta. Distribuir as observações por turnos, dias e executores diferentes é o que permite separar o que é hábito de uma pessoa do que é característica do processo.

Observação do trabalho serve para quem não trabalha com qualidade?

Serve para qualquer pessoa que precise mudar um processo, de um supervisor de produção a uma coordenadora de enfermagem. Na EDTI, conhecer o processo como ele é antes de mudá-lo é o ponto de partida do Modelo de Melhoria, a base do método da escola.

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