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Ordem de coleta dos tubos: a sequência por cor e por que ela muda o resultado

A crença mais comum sobre a ordem de coleta dos tubos é que ela serve para passar na prova de flebotomia. Na rotina, com o pedido urgente e a veia difícil, a sequência parece um luxo: o que importa é sair do quarto com sangue nos tubos.

O laboratório conta outra história. Na revisão de Mario Plebani publicada em Clinical Chemistry and Laboratory Medicine (2006), entre 46% e 68,2% dos erros em medicina laboratorial nascem na fase pré-analítica, antes de a amostra chegar ao equipamento. A ordem dos tubos é uma das poucas barreiras dessa fase que não custam material nem minuto: só exigem que a sequência esteja no lugar certo na hora da punção.

E o erro não avisa. Um tubo de soro contaminado com EDTA não muda de cor nem coagula de um jeito estranho. Ele chega ao analisador com aparência normal e sai com um potássio alto e um cálcio baixo que não pertencem ao paciente.

Qual é a ordem de coleta dos tubos?

Pela norma CLSI GP41 (7ª edição, 2017), a ordem é a mesma adotada pelas recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) para coleta de sangue venoso: frascos de hemocultura, tubo de citrato (tampa azul-clara), tubo de soro com ativador de coágulo, com ou sem gel (tampa vermelha ou amarela), tubo de heparina (tampa verde), tubo de EDTA (tampa roxa) e tubo de fluoreto (tampa cinza). A mesma sequência vale para o sistema a vácuo e para a transferência a partir de seringa.

A cor da tampa pode variar entre fabricantes; o que manda é o aditivo escrito no rótulo.

Ordem de coleta dos tubos: sequência para imprimir

Desmarque os tubos que o pedido não tem: a lista renumera sozinha. Marque a última opção se a coleta for com scalp (dispositivo com asas) e o primeiro tubo for o de citrato.







  1. Frascos de hemocultura: primeiro, enquanto a agulha não tocou nenhuma tampa
  2. Citrato de sódio (tampa azul-clara): encher até a marca do tubo
  3. Soro com ativador de coágulo, com ou sem gel (tampa vermelha ou amarela)
  4. Heparina (tampa verde)
  5. EDTA (tampa roxa)
  6. Fluoreto, com EDTA ou oxalato (tampa cinza)

6 item(ns) na sequência

Sequência da norma CLSI GP41 (7ª ed., 2017) para coleta venosa, a vácuo ou por seringa. Cores de tampa variam entre fabricantes: confira o aditivo no rótulo. Coleta capilar segue outra sequência (CLSI GP42). Este cartão não substitui o procedimento operacional do laboratório.

Para que serve a ordem: impedir que o aditivo de um tubo chegue ao seguinte

A ordem de coleta existe por uma razão mecânica. Na coleta a vácuo, a mesma agulha posterior perfura a tampa de cada tubo, e o sangue que entra encosta no aditivo daquele tubo. Uma gota mínima desse sangue, já misturado ao aditivo, pode seguir com a agulha para o tubo seguinte. Na coleta por seringa, o mesmo acontece no momento da transferência.

A pergunta que define a posição de cada tubo: o aditivo deste tubo estraga qual exame dos próximos?

  • Hemocultura primeiro, porque o frasco precisa receber sangue de uma agulha que ainda não passou por nenhuma tampa.
  • Citrato antes do soro, porque o ativador de coágulo do tubo de soro, se chegar ao citrato, interfere nos testes de coagulação. O citrato também exige volume exato: a proporção entre sangue e anticoagulante é fixa, e tubo cheio abaixo da marca altera o resultado.
  • Heparina antes do EDTA, porque o EDTA usado nos tubos é um sal de potássio e se liga ao cálcio. Arrastado para um tubo de bioquímica, ele eleva o potássio e derruba o cálcio da amostra.
  • Fluoreto por último, porque ele e o oxalato ou EDTA que o acompanham alteram eletrólitos e outras dosagens se passarem adiante.

Há um detalhe que pega muita gente. Na coleta com scalp, o tubo plástico entre a agulha e o adaptador está cheio de ar. Se o primeiro tubo for o de citrato, esse ar ocupa parte do vácuo e o tubo fica abaixo da marca. Por isso o CLSI orienta coletar antes um tubo de descarte, que só serve para preencher o circuito.

Por que a seringa da pediatria é onde a sequência mais se perde

No hospital pediátrico do caso deste artigo (ilustrativo), quase toda coleta em criança pequena era feita com seringa, e o sangue era distribuído nos tubos depois. A veia é fina e o volume é pouco. Quem coleta enche primeiro o tubo do exame que parece mais importante, quase sempre o roxo do hemograma, e só então os outros.

O objeto que explicava o sistema era uma bandeja de plástico azul com seis divisórias. A ordem das divisórias era a ordem em que as caixas chegavam do almoxarifado: roxo, vermelho, cinza, azul, verde, amarelo. Ninguém tinha decidido aquilo. A bandeja simplesmente estava ali, e a mão segue a bandeja.

Rosana, técnica do turno da manhã, resumiu na reunião: “Eu sei a ordem. A bandeja é que não sabe.”

O laboratório media recoletas por 1.000 coletas da pediatria. Nas 12 semanas de linha de base, a mediana foi de 18 por 1.000, com valores entre 15 e 22. Isso dava cerca de 25 crianças por semana puncionadas de novo, cada uma com outra espera, outra dor e outra amostra.

A equipe fez um ciclo PDSA pequeno em uma única ala, com predição escrita: com a bandeja reorganizada, as recoletas cairiam para menos de 12 por 1.000. As mudanças foram três: divisórias numeradas de 1 a 6 na ordem do CLSI, etiquetas impressas pelo sistema já nessa ordem e o cartão da sequência colado na tampa da bandeja.

Gráfico de tendência de 24 semanas de recoletas por 1.000 coletas na pediatria: mediana de 18 nas 12 semanas antes da bandeja reorganizada e todos os 12 pontos seguintes abaixo dessa mediana, com nova mediana de 9,5
Caso ilustrativo de um hospital pediátrico: recoletas por 1.000 coletas, uma por semana, 24 semanas. A linha tracejada é a mediana da linha de base (18). A partir da semana 13 (bandeja numerada na ordem do CLSI), os 12 pontos ficam abaixo dela, um sinal de mudança no processo e não de variação comum.

Depois da mudança, os 12 pontos semanais ficaram abaixo da mediana antiga, e a nova mediana foi de 9,5 por 1.000. Uma sequência de seis ou mais pontos do mesmo lado da mediana é uma das regras do gráfico de tendência para separar mudança real de variação de causas comuns. Saber ler esse sinal, e não comemorar uma semana boa isolada, é parte do que se treina na formação Green Belt.

A ressalva do caso: recoleta tem outras causas, como hemólise, volume insuficiente e falha de identificação. A equipe acompanhou cada causa separada, conforme o plano de coleta de dados definido antes do teste, e viu a queda concentrada nas amostras com potássio e cálcio incompatíveis entre si. O indicador de equilíbrio, tempo médio de coleta por criança, não aumentou.

Ordem dos tubos e identificação do paciente: dois erros com assinaturas opostas

A ordem de coleta e a identificação do paciente são barreiras da mesma fase, mas falham de modo oposto. A troca de identificação produz um resultado correto no prontuário errado. A ordem errada produz um resultado errado no prontuário correto.

Essa diferença muda o que o serviço consegue enxergar. O resultado contaminado por aditivo parece plausível e só é percebido quando o valor é extremo ou quando o laboratório cruza dosagens. Por isso a ordem dos tubos depende de barreira no posto de coleta, e não de detecção no fim da linha. Quando acontece, o erro deve entrar na notificação de incidentes como qualquer outro.

O que cada aditivo estraga quando chega ao tubo errado

Posição Tubo (aditivo) Exames típicos O que o aditivo altera se for arrastado adiante
1 Hemocultura Cultura de sangue Vem primeiro para não receber contaminação dos tubos
2 Citrato (azul-clara) Coagulação Dilui e liga cálcio; sensível ao ativador e à heparina que viriam depois
3 Soro, com ou sem gel (vermelha ou amarela) Bioquímica, sorologia, hormônios Ativador de coágulo interfere nos testes de coagulação
4 Heparina (verde) Bioquímica em plasma Interfere na coagulação e em exames de sangue total
5 EDTA (roxa) Hemograma, sangue total Eleva o potássio e reduz o cálcio da amostra seguinte
6 Fluoreto (cinza) Glicose, lactato Altera eletrólitos e outras dosagens; por isso fecha a sequência

A sequência pertence ao posto de coleta, não à memória de quem coleta

O caso mostra onde a ordem dos tubos realmente mora. O procedimento operacional estava escrito, a equipe sabia a sequência, e o resultado era 18 recoletas por 1.000. A memória de cada profissional competia com uma bandeja montada pelo almoxarifado, e a bandeja ganhava às 6h da manhã.

Isso coloca a ordem de coleta dentro de um sistema maior que o posto: compras, que troca de fornecedor e muda a cor da tampa; estoque, que monta a bandeja; tecnologia, que imprime etiquetas em qualquer ordem; e o laboratório, que vê o resultado estranho e raramente devolve o dado a quem coletou. É por isso que a ordem de coleta é uma peça do controle de qualidade laboratorial, e não um item de prova.

Equipes de saúde que trabalham com fluxo, padrão visual e teste pequeno, como se faz no Lean Healthcare, tendem a começar justamente por aí: pelo desenho do posto. Para quem quer ver esses princípios aplicados ao hospital antes de uma formação completa, há a Introdução ao Lean Healthcare. Documentar a sequência é necessário. Fazer com que o posto a execute sem depender da lembrança é o que reduz a recoleta.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


Se a sequência dos tubos está escrita e mesmo assim a recoleta não cai, o problema é de processo: falta transformar o padrão em desenho do posto, testar a mudança em pequena escala e acompanhar o indicador no tempo para saber se ela funcionou. É esse o percurso do curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI.

Perguntas frequentes sobre a ordem de coleta dos tubos

Qual a ordem correta dos tubos na coleta de sangue?

Pela norma CLSI GP41: hemocultura, citrato (azul-clara), soro com ou sem gel (vermelha ou amarela), heparina (verde), EDTA (roxa) e fluoreto (cinza). As recomendações da SBPC/ML para coleta de sangue venoso seguem a mesma sequência.

Por que o tubo azul vem antes do vermelho?

Porque o tubo de soro contém ativador de coágulo. Se uma gota dele chegar ao tubo de citrato, os testes de coagulação ficam alterados. Com o citrato antes, esse arraste não acontece.

A ordem dos tubos vale para coleta com seringa?

Sim. Quando o sangue é coletado por seringa e transferido, os tubos devem ser preenchidos na mesma sequência da coleta a vácuo, porque o arraste de aditivo acontece na transferência.

O que é o tubo de descarte?

É um tubo coletado antes do citrato quando se usa scalp. Ele preenche o ar do tubo do dispositivo para que o tubo de citrato receba o volume certo. Não vai para exame.

A ordem é a mesma na coleta capilar?

Não. Na punção de calcanhar ou de dedo, a sequência é descrita em outro documento do CLSI (GP42) e começa pelo tubo de EDTA. Vale o procedimento do laboratório.

Como começar a usar a ordem de coleta dos tubos na prática?

Pelo posto, não pelo treinamento: organize a bandeja ou o carrinho na ordem da norma, peça ao laboratório o número de recoletas e de amostras com resultados incompatíveis por semana, teste a mudança em uma unidade e compare o gráfico antes e depois.

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