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Sondagem vesical: bundle, ITU-AC e o indicador que importa

Comece pelo desenho mais simples possível. Um paciente não consegue esvaziar a bexiga, ou a equipe precisa medir a diurese hora a hora. Solução de engenharia: um tubo da bexiga até uma bolsa, um balão na ponta para ele não sair, e pronto. Funciona no primeiro dia. O problema é que o mesmo tubo continua lá no segundo, no quinto, no décimo dia, e ninguém mais se lembra por quê.

Esse desenho falha por um motivo que não aparece em nenhum plantão isolado: o risco não está no ato de passar a sonda, está nos dias em que ela fica. Por isso a prevenção de infecção urinária associada a cateter não é um procedimento, é um processo.

O que é sondagem vesical?

Sondagem vesical (ou cateterismo vesical) é a introdução de um cateter pela uretra até a bexiga para drenar urina. Pode ser de alívio, quando o cateter é retirado logo após o esvaziamento, ou de demora, quando permanece instalado e ligado a um sistema coletor fechado. A sondagem de demora é a que concentra o risco de infecção do trato urinário associada a cateter (ITU-AC).

De onde vem o cateter de demora e o problema que ele criou

Durante séculos, sondar a bexiga foi um ato de entrar e sair. O cateter de demora como o conhecemos nasceu na década de 1930, quando o urologista norte-americano Frederic Foley desenhou o cateter com balão inflável na ponta. O balão resolveu o problema de fixação: o cateter passou a ficar no lugar sozinho.

Um cateter que não sai sozinho só sai quando alguém decide tirá-lo: antes do balão, ficar exigia esforço; depois dele, tirar é que exige. Toda a lógica do bundle de prevenção é uma tentativa de devolver ao sistema a pergunta que o balão silenciou: esta sonda ainda precisa estar aqui?

Por que a sonda vira porta de entrada, explicado do princípio

Pense no cateter como uma estrada de duas pistas. Por fora, microrganismos da região perineal sobem pela superfície do cateter. Por dentro, entram pela luz do tubo quando o sistema fechado é aberto: conexão desfeita, bolsa erguida acima da bexiga, válvula encostada no chão.

Com o tempo, as bactérias formam um biofilme na parede do cateter, uma camada que nenhuma limpeza externa remove. Daí sai a conclusão operacional que organiza tudo o resto: o risco cresce com os dias de cateter e com cada abertura do sistema. Há duas alavancas, e só duas: menos dias de cateter e menos quebras de barreira por dia.

O bundle de sondagem vesical: inserção e manutenção

Bundle é um pacote pequeno de práticas executadas juntas, todas as vezes. O protocolo da Anvisa para prevenção de ITU relacionada ao cateter vesical de demora organiza as medidas em dois momentos, e vale conferir a versão vigente no portal da agência antes de adaptar o seu.

Na inserção, entram a indicação registrada segundo o protocolo da instituição, a higiene das mãos, a técnica asséptica com material estéril, a conexão prévia ao sistema coletor fechado e a fixação adequada do cateter. Na manutenção, entram o sistema mantido fechado, a bolsa sempre abaixo do nível da bexiga e sem contato com o chão, o fluxo sem dobras, o esvaziamento com recipiente individual e, acima de tudo, a revisão diária da necessidade com retirada assim que a indicação acabar.

Repare que só um desses itens mexe na primeira alavanca. A revisão diária é a única medida que reduz dias de cateter; as demais reduzem quebras de barreira. Quando um hospital mede “adesão ao bundle” e deixa a revisão diária como um campo a mais no formulário, está medindo a parte barata e deixando de fora a parte que decide.

Quando indicar, que material usar e como conduzir uma infecção são decisões do protocolo institucional e da equipe assistente; aqui o assunto é o processo que as cerca.

ITU-AC como indicador: o que conta como caso

Para vigilância, a Anvisa define critérios nacionais de notificação de infecções relacionadas à assistência. Nos critérios conferidos (Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa de critérios diagnósticos de IRAS, revisão de 2021; a nota vigente em 2026 é a 03/2026, cujo texto deve ser consultado), um caso de ITU-AC exige cateter vesical de demora instalado por mais de dois dias calendário, contando a data da instalação como D1, e ainda instalado na data da infecção ou retirado no dia anterior. Exige também urocultura positiva com até duas espécies microbianas em concentração igual ou maior que 105 UFC/mL e pelo menos um sinal ou sintoma sem outra causa reconhecida, como febre acima de 38 °C ou dor suprapúbica.

É critério de vigilância, não de tratamento: existe para que dois hospitais contem do mesmo jeito. Aplicá-lo só quando alguém desconfia quebra a série histórica.

Dois números completam o painel. A densidade de incidência divide os casos de ITU-AC pelos cateteres-dia do período e multiplica por 1.000. A taxa de utilização divide cateteres-dia por pacientes-dia. O primeiro é indicador de resultado; o segundo, junto com a proporção de leitos em que o bundle foi observado completo, é indicador de processo. E um indicador de equilíbrio faz falta aqui: retenção urinária ou recateterização após retirada, para garantir que a pressa em tirar não criou outro problema. A lógica dessa tríade está em indicadores de segurança do paciente.

Por que o número do plantão não diz nada sozinho

Pegue o caso deste artigo, ilustrativo: a UTI adulto de um hospital universitário com 20 leitos fecha o ano com 4.200 cateteres-dia e 21 casos de ITU-AC. Densidade de 5,0 por 1.000 cateteres-dia. Parece pequeno, e esse é o perigo.

Traga para a escala de quem trabalha. Por dia, são cerca de 11 a 12 pacientes com sonda. Por mês, menos de dois casos. Por plantão de 12 horas, a chance de surgir um caso novo é de aproximadamente 1 em 35. Ou seja: a equipe passa semanas sem ver nenhum caso, e cada plantão “sem infecção” reforça a impressão de que está tudo bem, enquanto o sistema segue produzindo 21 casos por ano.

Diagrama em quatro degraus mostra a mesma UTI em escalas diferentes: 21 casos de ITU-AC por ano, menos de 2 por mês, cerca de 11 a 12 sondas por dia e 1 caso a cada 35 plantões, contra cerca de 70 checagens do bundle por plantão
Caso ilustrativo de UTI adulto de 20 leitos: 4.200 cateteres-dia e 21 ITU-AC em um ano (5,0 por 1.000 cateteres-dia). Leia da esquerda para a direita: o resultado fica raro demais para ser visto num plantão, enquanto as oportunidades de falha do processo se contam às dezenas.

Agora o outro lado: 11 a 12 sondas com meia dúzia de itens de manutenção cada dão perto de 70 oportunidades de falha por plantão. O resultado é raro; a falha de processo é frequente. Por isso o indicador de processo se mede todo plantão e o de resultado se acompanha no tempo, de preferência em carta de controle, como mostra a carta de controle para taxa de infecção. Distinguir variação de causa comum de um sinal de causa especial nesse tipo de dado raro é parte do que se treina no Green Belt.

Bundle preenchido não é bundle executado

Na mesma UTI do exemplo, o formulário de bundle marcava 97% de adesão durante seis meses, e a densidade de ITU-AC não se mexia. A comissão de controle, a CCIH, foi à beira do leito e observou 60 sondas em dias aleatórios. Em 41 delas o bundle estava completo: proporção de 68%. O item mais faltante era a revisão diária da necessidade, preenchida em bloco na passagem de plantão.

A equipe testou uma mudança em ciclo PDSA, em um único turno: no round da manhã, a enfermeira perguntava em voz alta, para cada sonda, qual era a indicação atual, e a resposta ia para o quadro do leito. A predição era reduzir cateteres-dia em pelo menos 15% em oito semanas. Os cateteres-dia caíram de cerca de 350 para 280 por mês no segundo mês, sem aumento de recateterização. Ressalva: com menos de dois casos por mês, nenhum efeito sobre a ITU-AC pode ser afirmado em oito semanas; o que se afirma é a mudança no processo, e o resultado se confirma com a série longa.

A mesma lógica aparece em outros dispositivos. Em infecção de corrente sanguínea, o bundle de cateter central sofre do mesmo desvio entre o papel e a beira do leito. E o quadro geral das infecções relacionadas à assistência, com as demais famílias, está em infecção hospitalar. Para levar esse raciocínio de fluxo à unidade inteira, o curso de Lean Healthcare e a Introdução ao Lean Healthcare tratam do desenho do processo assistencial como sistema.

Um bundle sem método vira ritual

O bundle de sondagem vesical é uma boa ferramenta. Mas uma ferramenta aplicada sem predição, sem medida no tempo e sem teste de mudança se torna ritual: o formulário é preenchido, a adesão sai alta e o sistema continua igual. Qual item falha, em que turno, por quê? O que vamos testar e o que esperamos ver?

O balão de Foley tirou da sonda a necessidade de alguém decidir que ela fica. O método devolve à equipe a decisão de que ela sai.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


Se a adesão ao seu bundle está alta e a ITU-AC não cai, o problema é de medida e de teste de mudança, não de lista. É isso que o curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina a fazer com dados da sua unidade.

Perguntas frequentes sobre sondagem vesical

Qual a diferença entre sondagem vesical de alívio e de demora?

Na de alívio, o cateter é introduzido, a bexiga é esvaziada e o cateter é retirado em seguida. Na de demora, ele permanece instalado, fixado por um balão e ligado a um sistema coletor fechado. O risco de ITU-AC está associado principalmente à de demora, porque cresce com os dias de cateter.

Como calcular a densidade de incidência de ITU-AC?

Divida o número de casos de ITU-AC do período pelo total de cateteres-dia do mesmo período e multiplique por 1.000. Com 21 casos e 4.200 cateteres-dia em um ano, a densidade é 5,0 por 1.000 cateteres-dia. Acompanhe o valor mês a mês, não só o fechamento anual.

O que são cateteres-dia?

É a soma, dia a dia, do número de pacientes com cateter vesical de demora instalado, geralmente contada no mesmo horário. Dez pacientes com sonda durante três dias somam 30 cateteres-dia.

Qual a diferença entre bacteriúria e ITU-AC na vigilância?

Urocultura positiva sozinha não fecha critério. Para notificação, os critérios da Anvisa exigem também tempo mínimo de cateter e pelo menos um sinal ou sintoma sem outra causa reconhecida.

Que erro as pessoas mais cometem com o bundle de sondagem vesical?

Medir adesão pelo formulário em vez de observar a beira do leito, e tratar a revisão diária da necessidade como mais um item da lista. Ela é a única medida que reduz dias de cateter. Se ela falha, as outras protegem uma sonda que já não deveria estar ali.

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