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Variância: o que é, fórmula, como calcular e por que importa no processo

Variância é a média dos quadrados dos desvios de cada valor em relação à média do conjunto: mede o quanto os dados se espalham em torno do centro. Na amostra, a soma dos quadrados é dividida por n − 1; na população inteira, por N. A raiz quadrada da variância é o desvio padrão, que volta à unidade original dos dados.

Um centro de distribuição de e-commerce decidiu, em agosto, anunciar no site uma promessa nova: “pedido despachado em até 24 horas”. A decisão saiu de uma planilha com um número só: o tempo médio entre a confirmação do pagamento e a saída do caminhão era de 20 horas. Quatro horas de folga pareciam margem de sobra.

Em novembro, o atendimento recebia reclamações todos os dias. A média continuava em 20 horas. O que ninguém tinha olhado era o espalhamento: em dias de onda grande de pedidos, o tempo passava de 28 horas; em dias calmos, ficava em 14. A promessa foi feita para a média, e o cliente não recebe a média — recebe o pedido dele.

Quando a equipe enfim olhou o ano inteiro, os 365 dias de registro, a conta foi direta: em 77 dias o tempo médio de expedição tinha passado das 24 horas. Um dia em cada cinco. O número que faltava na planilha tem nome, e é o assunto deste artigo.

O que é variância

Variância é uma medida de dispersão. Ela responde à pergunta: em média, quão longe cada valor está do centro dos dados? A resposta vem em unidade ao quadrado, porque cada distância é elevada ao quadrado antes de ser somada.

Por que elevar ao quadrado? Se você somasse as distâncias com sinal, os valores acima da média cancelariam os valores abaixo, e a soma daria sempre zero. O quadrado elimina o sinal e pesa mais os valores afastados. Um dia de 30 horas num processo de média 20 contribui com 100 para a soma; um dia de 22 horas contribui com 4.

Fórmula da variância

Existem duas versões, e a diferença está no denominador.

Variância populacional, usada quando você tem todos os valores do conjunto que quer descrever:

σ² = Σ (xᵢ − μ)² ÷ N

Variância amostral, usada quando os dados são uma amostra e você quer estimar a variância do processo ou da população de onde vieram:

s² = Σ (xᵢ − x̄)² ÷ (n − 1)

Nas fórmulas, xᵢ é cada valor observado, μ é a média da população, x̄ é a média da amostra, N é o tamanho da população e n é o tamanho da amostra. O símbolo Σ indica a soma de todos os termos.

No Excel em português, as funções são VAR.A (amostral, divide por n − 1) e VAR.P (populacional, divide por N). O desvio padrão segue o mesmo par: DESVPAD.A e DESVPAD.P.

Como calcular a variância passo a passo

Pegue cinco dias de registro do centro de distribuição, com o tempo médio de expedição de cada dia em horas: 14, 18, 20, 23 e 25.

  1. Calcule a média. 14 + 18 + 20 + 23 + 25 = 100. Dividindo por 5, a média é 20 horas.
  2. Calcule o desvio de cada valor. Subtraia a média: −6, −2, 0, +3 e +5. A soma desses desvios é zero, como sempre.
  3. Eleve cada desvio ao quadrado. 36, 4, 0, 9 e 25.
  4. Some os quadrados. 36 + 4 + 0 + 9 + 25 = 74. Essa é a soma dos quadrados dos desvios.
  5. Divida pelo denominador certo. Se esses cinco dias forem uma amostra do ano, divida por n − 1 = 4: a variância amostral é 18,5 h². Se os cinco dias fossem todo o conjunto de interesse, dividiria por N = 5: a variância populacional seria 14,8 h².
  6. Tire a raiz, se quiser voltar à unidade original. √18,5 ≈ 4,3 horas. Esse é o desvio padrão amostral, a medida que a equipe do centro de distribuição passou a acompanhar ao lado da média.

Com cinco dias, a estimativa é frágil; quantos dias bastam é uma questão de tamanho de amostra.

Calculadora de variância e desvio padrão

Cole os valores separados por espaço, ponto e vírgula ou quebra de linha. Use vírgula como separador decimal (14,5). O cálculo é feito no seu navegador; nada é enviado.

Cole ou digite os valores. Exemplo do artigo: 14 18 20 23 25.

Por que a variância amostral divide por n − 1

A variância mede distâncias até a média verdadeira do processo, μ. Na amostra, você não conhece μ e usa no lugar dela a média da própria amostra, x̄.

Acontece que x̄ é, por construção, o ponto que minimiza a soma dos quadrados dos desvios daquela amostra. Qualquer outro centro, inclusive o verdadeiro, daria uma soma maior. Por isso, a soma calculada em torno de x̄ sai sistematicamente um pouco menor do que sairia em torno de μ. Dividir por n − 1 em vez de n compensa esse encolhimento; a correção leva o nome de Bessel.

Outra forma de ver: depois que você fixa a média, só n − 1 desvios são livres. No exemplo, conhecidos −6, −2, 0 e +3, o último é obrigatoriamente +5 para a soma dar zero. São os chamados graus de liberdade. Com 365 dias, a diferença entre dividir por 364 ou por 365 é desprezível; com 5 dias, é de 25%.

Variância e desvio padrão: qual usar

Os dois carregam a mesma informação; um é a raiz do outro. O desvio padrão fala a língua do processo: “varia, tipicamente, 5 horas em torno de 20”. Ninguém na operação entende “25 horas ao quadrado”. Para comunicar e comparar com uma especificação, use o desvio padrão. Para comparar dispersão entre processos com médias muito diferentes, o coeficiente de variação divide o desvio padrão pela média.

A variância ganha quando é preciso fazer contas com a dispersão. A propriedade que mais importa na prática: variâncias de etapas independentes se somam; desvios padrão, não.

Por que a variância de um processo importa mais que a média

De volta ao centro de distribuição. A figura abaixo mostra o mesmo ano visto em dois cenários com a mesma média de 20 horas. No primeiro, a variância é de 4 h² (desvio padrão de 2 horas); no segundo, que era o real, de 25 h² (desvio padrão de 5 horas).

Duas grades de 365 quadrados, uma por dia do ano. Na grade do CD A, com média de 20 horas e variância de 4 horas ao quadrado, 8 quadrados estão em laranja, dias acima de 24 horas. Na grade do CD B, com a mesma média e variância de 25 horas ao quadrado, 77 quadrados estão em laranja.
365 dias de expedição em dois cenários com a mesma média de 20 horas. Cada quadrado é um dia; laranja indica tempo médio de expedição acima da promessa de 24 horas. Com variância de 4 h², são 8 dias no ano; com 25 h², 77. Caso ilustrativo, distribuição aproximadamente normal.

A média igual esconde uma diferença de quase dez vezes na quantidade de dias com promessa quebrada. Para o cliente que comprou num desses 77 dias, a média de 20 horas é irrelevante. A experiência dele é a cauda da distribuição, e a cauda é governada pela variância.

A primeira reação da gerência foi pedir média de 16 horas, com hora extra no turno da noite. Funcionaria em parte, mas pagaria todos os dias do ano por um problema que aparecia em um dia a cada cinco.

A análise que funcionou foi decompor a variância. O tempo de expedição tinha três etapas: separação, embalagem e carregamento. As variâncias medidas foram 9 h², 4 h² e 12 h². Somadas, 25 h², exatamente a variância total. O carregamento, sozinho, respondia por quase metade da dispersão, porque o caminhão da transportadora tinha horário de coleta fixo e o pedido que perdia a janela esperava o dia seguinte. A separação vinha em segundo, com ondas de pedidos liberadas sem regra.

Esse tipo de decomposição é o centro do trabalho de um projeto Green Belt: medir de onde vem a variação antes de escolher onde mexer. Com duas coletas diárias negociadas e ondas de separação a cada duas horas, a variância do carregamento caiu para 3 h² e a da separação para 4 h². A total ficou em 11 h², desvio padrão de 3,3 horas, sem mudar a média. Os dias acima de 24 horas, no modelo, caíram de 77 para cerca de 41. O próximo ciclo atacaria a média.

Como interpretar a variância de um processo

Uma variância calculada sobre 365 dias é um número só, e não diz se o processo é estável. Se em março o tempo mudou de patamar com um sistema novo de separação, a variância do ano mistura dois processos e fica inflada. Três dias de pane na esteira pesam muito na soma dos quadrados.

Por isso, antes de interpretar a variância, olhe os dados na ordem em que aconteceram. Uma carta de controle separa a variação que o processo produz sempre, de causas comuns, dos pontos que sinalizam causa especial. A distinção, explicada em variação estatística, muda a ação: causa especial pede investigação do evento; causa comum pede mudança no sistema, como foi a coleta da transportadora.

Três leituras práticas ajudam:

  • Compare a dispersão com a folga. Média de 20 horas e promessa de 24 dão 4 horas de folga. Com desvio padrão de 5, a folga é menor que um desvio padrão, e a promessa vai ser quebrada com frequência.
  • Desconfie de variância calculada sobre dados misturados. Turnos, unidades ou períodos diferentes somados no mesmo cálculo produzem uma variância que não descreve nenhum deles.
  • Use a média junto, nunca no lugar. Média, mediana e moda descrevem o centro; a variância, o espalhamento. As demais medidas da família estão em estatística básica.

Calcular a variância não é o mesmo que entendê-la

O centro de distribuição tinha o dado desde o primeiro dia. Bastava uma célula com VAR.A ao lado da célula da média. O que faltou não foi a fórmula, foi a pergunta: o que a promessa ao cliente exige do processo, e de onde vem a variação que a ameaça?

Calcular a variância sem essa pergunta é ritual, um número a mais no relatório. Com a pergunta, ela vira ferramenta de decisão: mostra que a promessa de 24 horas não dependia de acelerar a média, mas de estreitar a cauda, e indica em qual etapa fazer isso.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Nesta revisão, o foco foi a variância como medida da cauda que o cliente sente e a decomposição da variação por etapa do processo.


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Perguntas frequentes sobre variância

Qual a diferença entre variância e desvio padrão?

O desvio padrão é a raiz quadrada da variância. A variância fica em unidade ao quadrado (horas², reais²), o desvio padrão volta à unidade original e é mais fácil de comunicar.

Quando usar variância amostral ou populacional?

Use a amostral (n − 1) quando os dados são parte de um conjunto maior e você quer estimar a variação do processo. Use a populacional (N) quando tem todos os valores e quer apenas descrevê-los. Em melhoria de processos, quase sempre o caso é amostral.

O que significa uma variância alta?

Que os valores se espalham muito em torno da média. Se é alta ou baixa depende da folga em relação à especificação ou à promessa: 25 h² é muito para um prazo de 24 horas com média de 20, e pouco para um prazo de 72 horas.

Como calcular a variância no Excel?

Use =VAR.A(intervalo) para a variância amostral e =VAR.P(intervalo) para a populacional. Para o desvio padrão, DESVPAD.A e DESVPAD.P.

O que estudar depois de variância?

O passo natural é a carta de controle, que mostra a variação na ordem do tempo e separa causas comuns de especiais. Depois, capabilidade, que compara a dispersão com a especificação do cliente.

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