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Incidência e prevalência: diferença, fórmulas e exemplo

Em março, a farmácia de um hospital de 200 leitos fez a contagem de um dia: 62 pacientes internados estavam em uso de antimicrobiano, 31% dos leitos ocupados. Em setembro, depois de seis meses de um programa de gerenciamento do uso de antimicrobianos, a mesma contagem deu 50 pacientes, 25%.

Na reunião da diretoria, o número virou frase: “reduzimos em 19% a prescrição de antimicrobianos”. Alguém propôs levar para os outros hospitais da rede o formulário de justificativa para iniciar o tratamento, já que ele “tinha funcionado”. O farmacêutico responsável pediu cinco minutos antes da votação. Ele tinha outro número na pasta, e esse número não tinha mudado.

O que a diretoria leu como menos prescrições era uma medida de prevalência. O que o farmacêutico trazia era uma medida de incidência. As duas falam do mesmo assunto e respondem a perguntas diferentes.

Qual a diferença entre incidência e prevalência?

Incidência conta os casos novos que surgem em um período, entre as pessoas que estavam em risco no começo dele. Prevalência conta todos os casos que existem em um momento, novos e antigos, entre as pessoas observadas naquele momento. A incidência mede a velocidade de entrada; a prevalência mede o estoque, que depende da entrada e de quanto tempo cada caso permanece.

Incidência conta quem chega; prevalência conta quem está

A forma mais curta de separar as duas é pensar em uma pia com a torneira aberta e o ralo meio entupido. A incidência é a água que sai da torneira por minuto. A prevalência é a água que está na pia agora. A pia pode encher porque a torneira abriu mais ou porque o ralo passou a escoar menos; olhando só o nível da água, não dá para saber qual das duas coisas aconteceu.

O contraste aparece em três pontos.

  • Quem entra no numerador. Na incidência, só casos novos, que começaram dentro do período. Na prevalência, todo caso presente na data, não importa quando começou.
  • Quem entra no denominador. Na incidência, as pessoas em risco: quem ainda não tinha a condição no início. Na prevalência, todas as pessoas observadas no momento da contagem.
  • Qual é o tempo. A incidência sempre traz um período (“em 30 dias”, “por ano”). A prevalência traz uma data (prevalência pontual) ou um intervalo curto (prevalência de período).

Por isso um programa que só encurta a duração dos casos derruba a prevalência sem tocar na incidência. E um programa que reduz casos novos pode levar meses para aparecer na prevalência, se os casos antigos forem longos.

Como calcular incidência e prevalência

As fórmulas são simples; o trabalho está em definir com precisão o que é caso, quem está em risco e qual é o período.

  • Incidência acumulada = casos novos no período ÷ pessoas em risco no início do período. Costuma ser expressa em porcentagem ou por 1.000 ou 100.000 pessoas, sempre com o período junto.
  • Prevalência pontual = casos existentes na data ÷ pessoas observadas na data.
  • Relação entre as duas: em uma situação estável, casos existentes ≈ casos novos por dia × duração média do caso. É essa relação que permite estimar a duração a partir das outras duas medidas.

Quando as pessoas entram e saem da observação o tempo todo, como num hospital, o denominador mais justo deixa de ser o número de pessoas e passa a ser o tempo que elas ficaram expostas, em pacientes-dia. A medida resultante é a densidade de incidência. A diretriz nacional da ANVISA para programas de gerenciamento do uso de antimicrobianos (conferir a versão vigente) usa esse raciocínio ao expressar os dias de terapia (DOT) por 1.000 pacientes-dia.

A calculadora abaixo usa os números de março do caso deste artigo. Troque pelos seus.

Calculadora de incidência e prevalência

Casos novos no período

Contagem de um dia

Incidência acumulada: 18,0% (180,0 casos novos por 1.000 pessoas em risco, em 30 dias)

Prevalência pontual: 31,0% (310,0 casos existentes por 1.000 pessoas no dia da contagem)

Duração média implícita: cerca de 10,3 dias (6,0 casos novos por dia). A aproximação só vale se entradas, saídas e ocupação estiveram estáveis no período.

A calculadora faz contas com os números digitados; não substitui o protocolo da instituição nem a análise da comissão responsável.

Incidência e prevalência lado a lado

Ponto Incidência Prevalência
Pergunta que responde Com que velocidade surgem casos novos? Quantos casos existem agora?
Numerador Casos novos no período Casos novos e antigos na data
Denominador Pessoas em risco no início (ou pessoas-tempo) Pessoas observadas na data
É sensível a Mudanças na causa e na prevenção Entrada de casos e duração de cada um
Uso típico na gestão Avaliar se uma mudança reduziu a ocorrência Dimensionar carga: leitos, estoque, equipe

A última linha explica por que a farmácia precisa das duas. A prevalência dimensiona o estoque e a carga de trabalho de dispensação de amanhã. A incidência diz se a mudança testada alterou a decisão de iniciar o tratamento.

Por que a prevalência caiu sem que menos pacientes começassem o tratamento

Voltemos aos cinco minutos do farmacêutico. Ele mostrou que o hospital teve cerca de 1.000 internações em março e 180 delas iniciaram antimicrobiano: incidência de 18,0% no mês. Em setembro foram 985 internações e 177 inícios: 18,0% de novo. A proporção de pacientes que começam o tratamento não se moveu.

O que se moveu foi a duração. Com 6,0 inícios por dia e 62 pacientes em uso, a duração média implícita em março era de 10,3 dias. Em setembro, 5,9 inícios por dia e 50 pacientes em uso dão 8,5 dias. O programa tinha duas mudanças: o formulário de justificativa para iniciar e a revisão da prescrição pela equipe da comissão de controle de infecção em 72 horas, conforme o protocolo da instituição. Os dados apontavam para a segunda. A decisão de iniciar ou suspender cada tratamento continuou clínica; o que mudou foi o processo que leva a prescrição a ser revista.

Duas grades de 200 quadrados, uma por leito: em março 62 estão em laranja (31%), em setembro 50 (25%); abaixo, 6,0 inícios por dia vezes 10,3 dias e 5,9 inícios por dia vezes 8,5 dias, com incidência de 18,0% nos dois meses
Caso ilustrativo, hospital de 200 leitos. Cada quadrado é um leito ocupado no dia da contagem; os laranjas são pacientes em uso de antimicrobiano. A prevalência caiu de 31% para 25% com a mesma incidência mensal (18,0% das internações): o que mudou foi a duração média, de 10,3 para 8,5 dias.

Esse tipo de leitura é parte do trabalho da farmácia hospitalar quando ela deixa de só abastecer e passa a medir. E é o mesmo raciocínio que organiza os indicadores de saúde de uma população: a página de epidemiologia reúne as outras medidas da família.

A diferença aparece também fora do hospital. Pelo Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde nas capitais, a proporção de adultos que referem diagnóstico médico de diabetes passou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024 (edição 2025). Parte desse aumento pode refletir mais diagnósticos, e não só mais doença. Prevalência sobe quando surgem mais casos, quando mais casos são descobertos e quando as pessoas vivem mais tempo com a doença; o número sozinho não separa as três coisas. Para separar, a vigilância epidemiológica acompanha os casos novos ao longo do tempo.

Há uma ressalva no caso da farmácia. Se o tempo médio de internação tivesse caído entre março e setembro, a prevalência também cairia, porque pacientes que saem mais cedo levam o tratamento para casa ou o terminam fora da contagem. Antes de atribuir a queda à revisão de 72 horas, a equipe conferiu que a ocupação e o tempo de permanência estavam estáveis no período.

Duas contagens não mostram uma tendência

Mesmo com as duas medidas, o caso tem um problema: são duas fotografias, uma em março e outra em setembro. Uma contagem de um dia oscila com o dia da semana, com a ocupação e com o acaso. A diferença entre 62 e 50 pode ser em parte variação comum, sem nenhuma causa especial por trás.

O que dá segurança é ter a incidência e a duração mês a mês, em um gráfico de tendência com a data de cada mudança marcada. Se a duração cai logo depois que a revisão de 72 horas começa, e fica no novo patamar, a predição feita no ciclo PDSA se confirmou. Se cai e volta, a mudança não se sustentou. Ler variação ao longo do tempo, distinguindo causas comuns de causas especiais, é o centro da formação Green Belt, e vale para qualquer indicador de resultado ou de processo.

Em hospitais, essa leitura costuma ser o primeiro passo de um projeto de melhoria de fluxo. A formação em Lean Healthcare trata desses projetos de ponta a ponta, e o curso de Introdução ao Lean Healthcare apresenta os conceitos para quem está começando.

O que os 19% realmente diziam

A frase da reunião estava errada no verbo. O hospital não prescreveu menos: iniciou antimicrobiano na mesma proporção de internações e passou a manter cada tratamento por menos dias. A prevalência caiu 19% porque a duração caiu cerca de 17%, de 10,3 para 8,5 dias.

A diretoria não levou o formulário para a rede. Levou a revisão de 72 horas, com a incidência e a duração acompanhadas mês a mês nos hospitais que adotassem a mudança. Se um dia o formulário reduzir os inícios, a incidência vai mostrar primeiro; a prevalência vai demorar a acompanhar.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


Saber se a queda veio da entrada ou da duração muda a decisão. Escolher a medida certa, fazer a predição antes do teste e acompanhar o resultado no tempo é o que o curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina para quem trabalha em hospitais, clínicas e serviços de saúde.

Perguntas frequentes sobre incidência e prevalência

Qual é a fórmula da incidência?

Incidência acumulada é o número de casos novos no período dividido pelo número de pessoas em risco no início do período. O resultado sempre vem acompanhado do período: 18% em 30 dias não é o mesmo que 18% em um ano.

Qual é a fórmula da prevalência?

Prevalência pontual é o número de casos existentes em uma data dividido pelo número de pessoas observadas nessa data. Entram casos novos e antigos.

Prevalência pode ser maior que incidência?

Pode, e é o comum em condições longas: poucos casos novos por ano, mas cada um dura décadas, então o estoque cresce. Em condições curtas acontece o contrário: muitos casos novos e baixa prevalência em qualquer dia, porque cada caso termina rápido.

O que é densidade de incidência?

É a incidência calculada com pessoas-tempo no denominador, como pacientes-dia. Serve quando as pessoas entram e saem da observação em momentos diferentes, como numa internação, e é a base dos indicadores por 1.000 pacientes-dia.

Como incidência e prevalência entram na avaliação de testes diagnósticos?

A prevalência muda o valor preditivo de um teste: o mesmo exame, com a mesma sensibilidade e especificidade, acerta mais quando dá positivo em uma população com prevalência alta.

Incidência e prevalência servem para quem não trabalha com epidemiologia?

Servem para qualquer contagem de “coisas que entram e ficam”: reclamações abertas, pendências de faturamento, pacientes aguardando leito, itens em falta no estoque. Sempre que o estoque cai, a pergunta é a mesma deste artigo: entrou menos ou saiu mais rápido?

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