Você está no plantão da tarde. O prontuário do leito 8 mostra a dor registrada como 7 às 14h, na escala numérica. Uma medicação foi administrada às 14h20, conforme a prescrição. E depois? Se a próxima anotação de dor é das 20h, quando ela aparece como 3, ninguém sabe se o 7 virou 3 em quarenta minutos ou se o paciente passou cinco horas com dor e melhorou sozinho perto do jantar.
A escala foi aplicada. O que faltou foi a segunda medida, e é ela que diz se o cuidado funcionou.
O que é escala de dor?
Escala de dor é um instrumento padronizado para medir a intensidade da dor relatada pelo paciente ou, quando ele não consegue relatar, observada pela equipe por comportamentos. Desde que a American Pain Society propôs, nos anos 1990, tratar a dor como “quinto sinal vital”, a avaliação da dor passou a fazer parte da rotina de muitos serviços, com registro junto aos demais sinais vitais. A escolha da escala, a frequência de avaliação e as condutas a partir do resultado são definidas pelo protocolo de cada instituição.
Tipos de escala de dor
| Escala | Como funciona | Para quem |
|---|---|---|
| Numérica (EN, 0-10) | O paciente dá uma nota de 0 (sem dor) a 10 (pior dor imaginável) | Adultos que conseguem se comunicar |
| Visual analógica (EVA) | O paciente marca a intensidade numa linha de 10 cm | Adultos; muito usada em pesquisa |
| Verbal | Sem dor, leve, moderada, intensa | Quem tem dificuldade com números |
| Faces (ex.: Wong-Baker) | O paciente aponta um rosto que representa a dor | Crianças e adultos com baixa escolaridade |
| FLACC | Observação de face, pernas, atividade, choro e consolabilidade | Crianças que não verbalizam |
| BPS e CPOT | Observação de expressão facial, movimentos e adaptação ao ventilador | Pacientes críticos que não se comunicam |
| PAINAD | Observação de respiração, vocalização, expressão, linguagem corporal e consolabilidade | Pessoas com demência avançada |
O ponto comum a todas: o resultado só é comparável se a mesma escala for usada do mesmo jeito pela equipe inteira. Duas escalas diferentes para o mesmo paciente, em turnos diferentes, produzem dois números que não conversam.
Como aplicar a escala de dor
- Escolher a escala adequada ao paciente na admissão e registrar qual foi escolhida.
- Explicar a escala com as mesmas palavras sempre (por exemplo, “0 é sem dor e 10 é a pior dor que você pode imaginar”).
- Perguntar pela dor no momento, não “como foi o dia”.
- Registrar o valor, o horário, a localização e o que foi feito.
- Reavaliar depois de cada intervenção, no intervalo que o protocolo da instituição define, e registrar.

A reavaliação como indicador de processo
Muitos serviços medem a proporção de pacientes com dor avaliada na admissão, e o número costuma ser alto. O indicador que mostra se a dor está sendo cuidada é outro: a proporção de avaliações com dor moderada ou intensa que têm uma reavaliação registrada dentro do intervalo do protocolo. Medido numa amostra semanal de prontuários e acompanhado num gráfico de tendência, ele mostra onde o processo falha: em que turno, em que unidade, depois de que tipo de intervenção.
Mudanças para melhorar esse indicador são de processo: um campo de reavaliação que aparece automaticamente no sistema depois do registro de dor alta, um horário fixo de ronda, a reavaliação incluída na passagem de plantão. Cada uma pode ser testada numa unidade com um ciclo PDSA. A avaliação da dor faz parte dos sinais vitais e do exame físico de enfermagem, e o conjunto da profissão está no guia de enfermagem.
Volte ao leito 8. A pergunta para amanhã de manhã é simples e serve de autodiagnóstico: quantas das últimas dez avaliações de dor alta da sua unidade têm a segunda medida registrada? Se você não sabe, o primeiro passo é contar. O método para transformar essa contagem em melhoria aparece no curso de Lean Healthcare, na introdução ao Lean Healthcare e na formação Green Belt.
Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.
Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.
Medir a reavaliação da dor é o primeiro passo para melhorar o cuidado. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina a montar esse indicador e a testar mudanças com o Modelo de Melhoria.
Perguntas frequentes sobre escala de dor
Qual a escala de dor mais usada?
A escala numérica de 0 a 10, pela facilidade de aplicação em adultos que se comunicam.
Qual a diferença entre EVA e escala numérica?
Na EVA o paciente marca a intensidade numa linha contínua de 10 cm; na numérica, ele dá uma nota inteira de 0 a 10.
Como avaliar a dor em quem não consegue falar?
Com escalas comportamentais: FLACC em crianças, BPS ou CPOT em pacientes críticos e PAINAD em pessoas com demência avançada.
Por que a dor é chamada de quinto sinal vital?
Porque a American Pain Society propôs, nos anos 1990, que a dor fosse avaliada e registrada com a mesma regularidade dos demais sinais vitais.
Com que frequência reavaliar a dor?
A frequência e o intervalo após cada intervenção são definidos pelo protocolo da instituição.
Como começar a melhorar a avaliação da dor na unidade?
Medindo a proporção de avaliações de dor alta com reavaliação registrada e acompanhando semana a semana. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, mostra como testar mudanças a partir desse indicador.