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As três categorias de melhoria: por que duas delas, sozinhas, não sustentam a organização

Uma organização concentrou três anos de trabalho de melhoria em duas frentes: eliminar defeitos e reduzir custo. Os resultados foram reais e verificados — refugo de 6,1% para 2,4%, e custo de conversão por unidade 18% menor.

No mesmo período, a demanda ficou estável e o quadro de pessoal caiu 14%, por não recolocação das saídas.

Nada deu errado no método. A organização passou a produzir o mesmo volume com menos defeito e menos custo — e, com demanda constante, produzir o mesmo com mais produtividade significa precisar de menos gente. O resultado era aritmeticamente inevitável desde o primeiro projeto.

Faltava a terceira categoria.

Os dados desta página descrevem uma situação-tipo construída para o argumento: os valores são coerentes entre si e não vêm de uma organização específica.

De onde vêm as categorias: a equação de valor

O Modelo de Melhoria, de Langley e colegas, parte de uma definição operacional de valor que cabe em uma linha:

Valor = qualidade ÷ custo total.

Os dois termos têm significado preciso. Qualidade é a medida de quanto um produto ou serviço corresponde a uma necessidade — não é atributo intrínseco, é aderência ao que alguém precisa. E custo total é a soma do custo de etiqueta com o custo de uso, o que a pessoa paga para adquirir mais o que ela gasta ao longo da vida útil.

A segunda parte muda decisões. Considere dois produtos que atendem à mesma necessidade:

  Produto A Produto B
Custo de etiqueta R$ 1.200 R$ 900
Custo de uso em 5 anos R$ 2.800 R$ 3.900
Custo total R$ 4.000 R$ 4.800

O produto mais barato na compra é 20% mais caro no total. Se a qualidade for equivalente, o produto A entrega mais valor — e quem decide olhando só a etiqueta escolhe pior.

Daí saem os três caminhos para aumentar valor, e é isso que as categorias são: aumentar a qualidade sem mexer no custo, reduzir o custo sem mexer na qualidade, ou expandir o que o cliente considera necessário.

Categoria 1 — Eliminar problemas de qualidade

É a tarefa mais básica de qualquer organização que queira aumentar valor: remover os problemas que aparecem porque a expectativa do cliente não é atendida.

A obra localiza as causas desses problemas em três lugares — nos processos de trabalho, no projeto do produto ou serviço, e nas promessas irreais feitas sobre o desempenho. O terceiro é o menos investigado e o mais barato de corrigir: às vezes o produto está adequado e quem prometeu demais foi a própria empresa.

Há um efeito que torna essa categoria mais valiosa do que parece. Problemas de qualidade carregam custos colaterais — interrupções, retrabalho, atividades que não agregam valor — de modo que eliminá-los pela via do redesenho melhora a qualidade e reduz custo e aumenta produtividade ao mesmo tempo. A quantificação desses custos colaterais está em custo da má qualidade.

É por isso que a categoria 1 costuma ser o ponto de partida natural, e é onde a maior parte dos projetos de melhoria acontece.

Categoria 2 — Reduzir custos mantendo a qualidade

Sem controle e redução de custo, a organização não gera resultado suficiente para investir em tecnologia nova ou em mais melhoria. A categoria não é opcional.

Mas ela tem uma condição que o enunciado carrega e que costuma ser esquecida na execução: qualquer pessoa reduz custo se estiver disposta a sacrificar qualidade. O que exige conhecimento e habilidade é reduzir custo mantendo ou melhorando a qualidade.

A consequência prática é que todo projeto desta categoria precisa declarar, desde o contrato, um indicador de equilíbrio — um número que garanta que a qualidade não caiu junto. Sem ele, o projeto entrega redução de custo e transfere o problema para outro lugar do sistema, onde ele aparecerá meses depois sem causa aparente. A distinção entre indicadores de resultado, processo e equilíbrio está em indicadores de desempenho.

Categoria 3 — Ampliar a expectativa do cliente

É a categoria rara, e a que fecha o sistema.

Ela consiste em fornecer produtos e serviços que o cliente perceba como de alto valor — inclusive coisas que ele não sabia que poderia esperar. E a mudança de raciocínio que ela exige é específica: em vez de aplicar conceitos de mudança ao seu próprio sistema, aplicá-los ao sistema do cliente. Perguntar o que ele faz com o produto depois de comprar, onde ele improvisa, o que ele gasta para usar.

Repare que reduzir o custo de uso do cliente — a segunda parcela da equação de valor — pertence a esta categoria, não à segunda. Reduzir o seu custo é categoria 2; reduzir o dele aumenta o valor percebido e amplia a expectativa.

E há a razão de fundo pela qual ela não pode faltar: a demanda de longo prazo não vem de promoção, publicidade ou desconto, que afetam o curto prazo. Ela vem da capacidade de a organização redesenhar seus sistemas para produzir algo de alto valor. Como o cliente julga esse valor, e por que conformidade alta não garante percepção boa, está em qualidade percebida.

Por que as duas primeiras, sozinhas, viram redução de quadro

Aqui está o argumento que a organização do começo deste texto descobriu tarde, e ele é aritmético antes de ser estratégico.

Resolver problemas de qualidade e reduzir custo aumentam a produtividade: a mesma estrutura produz mais, ou o mesmo com menos. Se a demanda não cresce junto, a capacidade excedente não tem para onde ir — e a organização tem duas saídas, deixar a capacidade ociosa ou reduzir a estrutura.

O resultado é ganho de curto prazo para a organização com perda pessoal para os trabalhadores, exatamente o que a obra adverte. E o efeito colateral é previsível e caro: as pessoas aprendem que participar de projeto de melhoria produz demissão, e a próxima iniciativa encontra uma resistência que ninguém consegue explicar com treinamento.

A terceira categoria é o que absorve a capacidade liberada. Na organização do exemplo, um projeto que ampliou a faixa de aplicação do produto abriu um segmento que passou a representar 22% do faturamento em dois anos — e o quadro voltou a crescer.

É por isso que o equilíbrio entre as três não é refinamento acadêmico: é a condição para que melhoria contínua seja sustentável dentro da própria organização.

Como equilibrar o portfólio

A verificação é simples e quase nunca é feita: conte os projetos ativos por categoria.

O padrão mais comum é algo próximo de oito projetos na categoria 1, dois na 2 e nenhum na 3. Não existe proporção ideal universal, e existe um sinal claro de desequilíbrio: zero na terceira, sustentado por anos, indica uma organização que está ficando mais eficiente em fazer o que já fazia.

Três perguntas ajudam a abrir a terceira categoria quando ela está vazia.

O que o cliente faz com o nosso produto depois de comprar? A resposta costuma incluir adaptações e improvisos que ninguém mapeou.

Quanto custa para ele usar o que vendemos? Energia, manutenção, treinamento, tempo. Reduzir esse número aumenta o valor sem tocar no preço.

O que ele precisa e resolve fora de nós? É onde costuma estar a expansão de expectativa mais evidente e a que mais rapidamente se transforma em demanda.

Cartão de bolso

Cartão de bolso — o seu portfólio está equilibrado?

Conte os projetos ativos e planejados. Zero na categoria 3 por anos seguidos é o sinal que importa.

Categoria Ativos Planejados
1. Eliminar problemas de qualidade
2. Reduzir custo mantendo a qualidade
3. Ampliar a expectativa do cliente
Verificações
Os projetos da categoria 2 têm indicador de equilíbrio declarado?
A demanda cresceu no mesmo período em que a produtividade cresceu?
O quadro de pessoal aumentou, ficou estável ou caiu?
Se a categoria 3 estiver vazia, comece por aqui
O que o cliente faz com o nosso produto depois de comprar?
Quanto custa para ele usar o que vendemos?
O que ele precisa e resolve fora de nós?

Escola EDTI · escolaedti.com.br · Explicação completa: escolaedti.com.br/categorias-de-melhoria/

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Onde este assunto se encaixa

O roteiro que conduz cada projeto — as três questões e o ciclo de aprendizado — é assunto de Modelo de Melhoria, com as questões detalhadas em as três perguntas. Aqui interessa em que categoria cada projeto se encaixa e por quê.

Escopos concretos de projeto organizados pelas três categorias, com indicador e meta em cada um, estão em exemplos de projeto Green Belt.

E a obra que formula o conjunto, sua origem e a tradução brasileira estão em o livro Modelo de Melhoria.

O que isso diz sobre a estratégia

As três categorias não são uma taxonomia para classificar projetos depois de escolhidos. São uma decisão anterior: em que frente a organização vai investir a capacidade de melhoria que tem.

Uma organização que só trabalha na categoria 1 fica boa em apagar incêndio. Uma que só trabalha na 2 fica eficiente e magra, e chega a um limite em que cortar mais significa cortar qualidade. Uma que ignora as duas primeiras e vai direto para a terceira lança algo novo sobre um sistema que não sustenta a entrega.

E a combinação mais comum — categorias 1 e 2 sem a 3 — é a que parece mais responsável e produz o resultado descrito no início: indicadores internos excelentes, demanda estável, estrutura encolhendo. A melhoria funcionou, e ninguém tinha decidido para onde o ganho iria.

Integrar as três na estratégia do negócio é, no fim, uma responsabilidade de liderança — e é o que transforma melhoria de programa de área em forma de conduzir a organização.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi a consequência de trabalhar apenas nas duas primeiras categorias e a leitura do custo de uso como parte da equação de valor.

Escolher a categoria certa, conduzir o projeto e verificar o ganho ao longo do tempo é o percurso que a formação Green Belt da EDTI desenvolve na prática. Para conhecer a lógica do método antes, a certificação White Belt é gratuita.

Perguntas frequentes

Quais são as três categorias de melhoria?

Eliminar problemas que surgem do não atendimento das expectativas do cliente sem aumentar custos; reduzir significativamente os custos mantendo ou melhorando a qualidade; e ampliar a expectativa do cliente entregando algo que ele perceba como de alto valor. Elas derivam da definição de valor como qualidade dividida por custo total.

O que é custo total na equação de valor?

É a soma do custo de etiqueta com o custo de uso — o que se paga para adquirir mais o que se gasta ao longo da vida útil. Um produto mais barato na compra pode ser mais caro no total, e quem decide olhando só a etiqueta escolhe pior.

Por que a terceira categoria é a mais rara?

Porque ela exige olhar o sistema do cliente, e não o próprio: o que ele faz com o produto, quanto gasta para usá-lo, o que improvisa. Essa informação não aparece em indicador interno e precisa ser buscada deliberadamente.

Melhorar qualidade e cortar custo não basta?

Não, e a razão é aritmética. As duas aumentam produtividade; se a demanda não cresce junto, a capacidade liberada vira ociosidade ou redução de estrutura. O resultado é ganho de curto prazo para a organização com perda pessoal para os trabalhadores — e a próxima iniciativa de melhoria encontra resistência que nenhum treinamento explica.

Existe proporção ideal entre as categorias?

Não há número universal, e há um sinal claro: zero projetos na terceira categoria por anos seguidos indica uma organização que está ficando mais eficiente em fazer exatamente o que já fazia. Contar os projetos ativos por categoria é a verificação mais barata do portfólio.

Reduzir o custo do cliente é categoria 2 ou 3?

É categoria 3. Reduzir o seu próprio custo é a segunda; reduzir o custo de uso do cliente diminui o denominador da equação de valor do ponto de vista dele, o que amplia o valor percebido e a expectativa.

Como garantir que a redução de custo não sacrifique a qualidade?

Declarando um indicador de equilíbrio no contrato do projeto, antes de começar. Reduzir custo sacrificando qualidade é trivial; o que exige conhecimento é reduzir mantendo ou melhorando — e sem o indicador declarado não há como demonstrar qual dos dois aconteceu.

Onde as categorias entram na formação em melhoria contínua?

Elas aparecem antes do roteiro, na escolha do que atacar — e é aí que a maior parte dos programas de melhoria decide mal sem perceber que decidiu. Nos cursos da Escola EDTI, a classificação do projeto por categoria faz parte do contrato, junto com o indicador e a meta, porque ela muda o que precisa ser medido e o que precisa ser protegido.

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