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Curva da mudança: por que o desempenho cai antes de melhorar

Terça-feira, terceira semana depois da troca do sistema do laboratório de um hospital de 280 leitos. O tempo entre a coleta e o resultado no prontuário, que vinha em 52 minutos de mediana havia um ano, está em 71. A coordenadora do pronto-socorro liga pela quarta vez no dia. Os técnicos dizem que o sistema novo exige três telas onde o antigo exigia uma. O diretor ouve tudo isso numa reunião de 20 minutos e decide: volta o sistema antigo até a TI “acertar as telas”.

A volta leva duas semanas, custa a renovação de uma licença que já estava cancelada e deixa uma marca que só aparece meses depois. Quando o sistema novo é reinstalado, em agosto, a equipe já sabe como a história termina: basta reclamar alto nas primeiras semanas. A resistência, desta vez, começa antes da implantação.

O que é a curva da mudança

A curva da mudança é o desenho do que costuma acontecer com o desempenho e com a disposição das pessoas depois que um jeito de trabalhar é trocado por outro: uma queda inicial, um fundo de vale e uma recuperação até um patamar novo, que pode ser melhor ou pior que o anterior. Ela descreve uma travessia previsível, não um sinal de fracasso.

O ponto que a reunião de terça não considerou está nessa definição. A queda das primeiras semanas era esperada. A pergunta que importava não era se o tempo de resultado tinha piorado, e sim se tinha piorado mais, ou por mais tempo, do que a travessia normal explicaria.

Curva da mudançaGráfico esquemático do desempenho ao longo do tempo: patamar antigo, queda depois da mudança, fundo do vale e recuperação até um patamar novo mais alto. Uma linha tracejada marca o ponto em que a mudança costuma ser revertida.DesempenhoTempomudançaonde a reversão costuma acontecerpatamar antigofundo do valepatamar novo
Figura 1. A curva da mudança: o desempenho cai depois da troca, atinge um fundo e se recupera. A reversão quase sempre acontece perto do fundo, quando a perda já foi paga e o ganho ainda não chegou.

De onde vem a curva: Kübler-Ross, Satir e o vale do desempenho

O desenho mais conhecido vem da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, que em 1969 descreveu as reações de pacientes diante de um diagnóstico terminal: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Décadas depois, consultores de gestão adaptaram essas etapas para descrever como as equipes reagem a uma mudança imposta. É por isso que a busca por “curva da mudança de Kübler-Ross” é tão frequente: a adaptação ficou mais famosa que o contexto original, e vale lembrar que a autora não estudou empresas.

Uma versão mais útil para quem gerencia processo é a da terapeuta familiar Virginia Satir. O modelo dela tem quatro momentos: o status quo, a entrada de um elemento novo, um período de caos e a integração, que leva a um status quo novo. A diferença em relação a Kübler-Ross é que Satir fala de desempenho, não só de emoção. No caos, as pessoas fazem o trabalho pior porque ainda não dominam o jeito novo e já abandonaram o antigo.

Na literatura de operações, o mesmo fenômeno aparece como curva J ou vale do desempenho: toda troca de método cobra um custo de aprendizado antes de devolver o ganho. Os três nomes descrevem a mesma travessia. Nenhum deles diz quanto ela dura nem quão fundo é o vale, e é aí que a gestão erra.

Por que a queda inicial engana quem decide

A queda das primeiras semanas mistura duas coisas que precisam ser separadas. Uma é o custo de aprendizado: a equipe ainda é lenta no sistema novo, erra caminhos de tela, chama o suporte. Esse custo diminui sozinho, semana a semana, enquanto as pessoas praticam. A outra é um defeito da mudança em si: uma etapa mal desenhada, uma integração que não funciona, um campo obrigatório que ninguém consegue preencher. Esse custo não diminui com a prática. Ele fica.

Visto num único número, as duas coisas são idênticas. Os 71 minutos do laboratório podiam ser só aprendizado ou podiam esconder uma etapa quebrada. O diretor tinha um ponto isolado e uma fila de reclamações, e decidiu como se o ponto fosse a tendência. É a mesma armadilha de comparar um mês com o anterior: dois pontos não dizem para onde o processo está indo.

O que separa as duas coisas é ver a série no tempo e, antes disso, ter dito o que se esperava ver. Se a equipe tivesse registrado, antes da troca, que o tempo de resultado subiria até perto de 70 minutos nas duas primeiras semanas e começaria a cair na terceira, o número de terça seria a confirmação de uma predição, não uma crise. E se na quarta semana ele continuasse em 71, aí sim haveria sinal de defeito, e o defeito teria nome e lugar.

A curva da mudança não é a mesma coisa que resistência

É comum tratar a curva como sinônimo de resistência das pessoas, e daí partir para campanhas de comunicação e “gestão de emoções”. A resistência existe e tem lógica própria, com tipos de reação e objeções que são, muitas vezes, informação técnica sobre o processo; esse é o assunto da resistência a mudanças. A curva é outra coisa: ela mostraria a queda mesmo numa equipe inteiramente a favor da mudança, porque aprender um jeito novo custa tempo.

Confundir as duas leva a um erro caro. Quando a queda é lida como resistência, a resposta é convencer. Quando é lida como custo de aprendizado, a resposta é proteger a travessia: treino no posto, alguém que domina o sistema novo ao lado de quem ainda não domina, menos volume nas primeiras semanas. No laboratório, os técnicos não eram contra o sistema. Eram lentos nele.

Como atravessar o vale sem voltar atrás

A condução de uma mudança organizacional inteira, do diagnóstico à sustentação, é o território da gestão de mudanças. Para a travessia do vale, três práticas fazem a diferença entre uma queda que se recupera e uma reversão que ensina a equipe a esperar a próxima.

Prever o vale por escrito. Antes de trocar, a equipe estima quanto o indicador vai piorar, por quanto tempo, e a partir de que ponto a piora deixa de ser aceitável. Essa predição é o que transforma o número de terça em informação. Sem ela, qualquer queda parece motivo para recuar.

Atravessar pequeno antes de atravessar grande. Uma bancada, um turno, um tipo de exame primeiro. O vale de uma bancada é raso e curto, e o que ele ensina reduz o vale do laboratório inteiro. É a lógica da rampa de testes, explicada em como testar mudanças.

Acompanhar o indicador num gráfico, não numa planilha de fim de mês. Um gráfico de tendência com a mediana do período anterior desenhada mostra, semana a semana, se a série está voltando ou ficou presa no fundo. Saber ler esse gráfico, e reconhecer quando sete pontos seguidos indicam um patamar novo, é uma das competências centrais da formação Green Belt.

A segunda implantação do laboratório

Em agosto, o hospital reinstalou o sistema de outro jeito. Começou pela bioquímica do turno da manhã, com uma predição registrada: o tempo de resultado da bancada subiria até 65 minutos nas duas primeiras semanas e voltaria abaixo de 52 até a sexta. A série chegou a 64 na segunda semana, ficou em 58 na terceira e caiu para 47 na sexta. Duas telas foram eliminadas no caminho, porque a bancada-piloto mostrou exatamente onde a equipe perdia tempo, e esse era o defeito que a primeira implantação nunca separou do aprendizado.

Quando o sistema chegou ao laboratório inteiro, o vale durou três semanas em vez das seis previstas na primeira tentativa, e o patamar novo ficou em 45 minutos. A diferença entre as duas implantações não foi o sistema nem a equipe. Foi ter dito antes o que era esperado e medir contra isso. A mudança só virou melhoria quando houve como verificar, no tempo, que o patamar novo era mais baixo que o antigo e permanecia lá.

Momento da curva O que se vê no indicador O erro comum O que fazer
Logo após a mudança Piora rápida Ler a piora como fracasso Comparar com a predição registrada antes
Fundo do vale Piora estável, reclamações no auge Reverter a mudança Separar custo de aprendizado de defeito da mudança
Recuperação Pontos voltando para perto da linha de base Declarar vitória cedo Esperar sinal de patamar novo no gráfico
Patamar novo Série estável, abaixo ou acima da antiga Parar de medir Manter o indicador de processo para ver se o ganho dura

Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi separar o custo de aprendizado de uma mudança do defeito da própria mudança, usando predição e dados no tempo.


A curva da mudança deixa de assustar quando a equipe sabe prever o vale, testar pequeno e ler o indicador no tempo. Esse é o método que o curso White Belt gratuito da Escola EDTI apresenta, com um projeto conduzido do início ao fim, com dados, decisões e resultado mensurável, e é por onde faz sentido começar.

Perguntas frequentes

Quais são as fases da curva da mudança?

Na versão adaptada de Kübler-Ross, as fases são negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Na versão de Virginia Satir, mais ligada ao desempenho, são status quo, elemento novo, caos e integração, que leva a um status quo novo.

A curva da mudança de Kübler-Ross foi criada para empresas?

Não. Elisabeth Kübler-Ross descreveu, em 1969, as reações de pacientes diante de um diagnóstico terminal. A aplicação a mudanças organizacionais é uma adaptação posterior, feita por consultores de gestão, e deve ser usada como metáfora, não como lei.

Quanto tempo dura o vale da curva da mudança?

Depende do tamanho da mudança, do treino e do volume de trabalho durante a travessia. Não há prazo padrão. Por isso a equipe deve estimar a duração antes de começar e acompanhar o indicador semana a semana para ver se a recuperação está acontecendo.

Como saber se a queda é normal ou se a mudança deu errado?

Comparando a série com o que foi previsto antes da mudança. Se o indicador cai e volta no prazo estimado, é custo de aprendizado. Se fica preso no fundo, ou cai mais do que o previsto, há um defeito na mudança que precisa ser localizado.

Qual a diferença entre conhecer a curva da mudança e saber melhorar processos?

Conhecer a curva ajuda a não entrar em pânico na queda. Melhorar processos exige mais: definir o indicador, registrar a predição, testar em pequena escala e verificar no tempo se o patamar novo é melhor e se mantém. A Escola EDTI ensina esse método desde o curso White Belt.

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