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Diagnósticos de enfermagem: estrutura NANDA-I, tipos e exemplos

Você abre o prontuário de um paciente internado há quatro dias. No campo de diagnósticos de enfermagem estão “Risco de infecção” e “Risco de quedas no adulto”. Você abre o prontuário do leito ao lado e encontra os mesmos dois. E no seguinte, também.

Agora responda: o que esses diagnósticos dizem sobre este paciente que não diriam sobre qualquer outro da unidade? Se a resposta for “nada”, o campo está preenchido e o diagnóstico não aconteceu. Este artigo trata da diferença entre as duas coisas.

O que são diagnósticos de enfermagem?

Diagnóstico de enfermagem é o julgamento clínico do enfermeiro sobre a resposta de uma pessoa, família ou comunidade a problemas de saúde, vulnerabilidades ou processos de vida. Ele é a segunda etapa do processo de enfermagem e serve de base para escolher as intervenções e os resultados esperados. No Brasil, a taxonomia mais usada é a da NANDA International (NANDA-I).

A definição fica mais clara pelo que o diagnóstico de enfermagem é e pelo que ele não é.

  • É um julgamento sobre a resposta humana: como o paciente respira, se move, dorme, se alimenta, entende o tratamento ou lida com a doença.
  • Não é o diagnóstico médico. “Pneumonia” é diagnóstico médico; “Padrão respiratório ineficaz” é diagnóstico de enfermagem, e dois pacientes com a mesma pneumonia podem ter diagnósticos de enfermagem diferentes.
  • Não é um sinal isolado. Uma saturação baixa é um dado; o diagnóstico nasce quando os dados são agrupados e interpretados.
  • Não é a intervenção. “Mudar decúbito a cada duas horas” é prescrição de enfermagem, que vem depois e depende do diagnóstico.

A Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024, que revogou a Resolução 358/2009, organiza o processo de enfermagem em cinco etapas: Avaliação de Enfermagem, Diagnóstico de Enfermagem, Planejamento de Enfermagem, Implementação de Enfermagem e Evolução de Enfermagem. O texto atribui ao enfermeiro, privativamente, o diagnóstico e a prescrição de enfermagem; técnicos e auxiliares participam com as anotações, a execução dos cuidados prescritos e a checagem, sob supervisão. A resolução admite que os diagnósticos se apoiem em sistemas de linguagem padronizada, como a NANDA-I, em protocolos institucionais e em evidências.

O diagnóstico depende da qualidade da etapa anterior. Se a avaliação coletou pouco, não há o que agrupar; é por isso que o referencial usado na coleta, como as necessidades humanas básicas da teoria de Wanda Horta, pesa tanto no resultado final. O caminho completo, da avaliação à evolução, está reunido na página de enfermagem.

Como é a estrutura de um diagnóstico NANDA-I

Cada diagnóstico da taxonomia é montado com as mesmas peças:

  • Título: o nome do diagnóstico, como “Dor aguda” ou “Mobilidade física prejudicada”.
  • Definição: o que o título significa, para que dois enfermeiros usem o mesmo nome para a mesma coisa.
  • Características definidoras: os sinais e sintomas observáveis que confirmam o diagnóstico. São a evidência.
  • Fatores relacionados: as causas ou fatores contribuintes que a enfermagem pode modificar. São o alvo da intervenção.
  • Fatores de risco: nos diagnósticos de risco, o que aumenta a vulnerabilidade a um problema que ainda não ocorreu.
  • Populações em risco e condições associadas: características do grupo e condições, como uma doença ou um procedimento, que ajudam no raciocínio mas não são modificáveis por intervenção de enfermagem.

Na redação, isso vira uma frase com três partes: título, “relacionado a” (fatores relacionados) e “evidenciado por” (características definidoras). Por exemplo: “Dor aguda relacionada a agente lesivo físico, evidenciada por relato de dor 7 em 10, proteção da área da incisão e recusa em deambular”. Cada parte tem função. Sem as características, o diagnóstico não tem prova. Sem os fatores relacionados, o plano não tem alvo.

Os tipos de diagnóstico de enfermagem e o que cada um exige

A NANDA-I separa os diagnósticos pelo tipo de julgamento, e cada tipo pede componentes diferentes:

Tipo O que descreve O que precisa ter Como costuma ser redigido
Com foco no problema Uma resposta indesejável que já está presente Características definidoras e fatores relacionados “Dor aguda relacionada a… evidenciada por…”
De risco A vulnerabilidade a uma resposta indesejável que ainda não ocorreu Fatores de risco (não há características definidoras, porque o problema não existe ainda) Título de risco, como “Risco de quedas no adulto”, seguido dos fatores de risco presentes
De promoção da saúde A motivação para melhorar o bem-estar Características definidoras que mostram o desejo de melhorar Títulos iniciados por “Disposição para…”
Síndrome Um conjunto de diagnósticos que ocorrem juntos e são tratados juntos Os diagnósticos que compõem o conjunto Título da síndrome, conforme a taxonomia

O diagnóstico de risco é o que mais vira padrão repetido, porque quase todo paciente internado tem algum fator de risco para infecção ou queda. O que o torna útil é o fator de risco específico registrado. “Risco de quedas no adulto” com os itens da escala de Morse que pontuaram, por exemplo, orienta medidas diferentes para quem caiu antes e para quem anda preso a um suporte de soro.

A edição vigente é a NANDA-I 2024-2026, 13ª edição, publicada no Brasil pela Artmed (Grupo A): 277 diagnósticos, dos quais 56 novos e 123 revisados, organizados em 13 domínios. A taxonomia é revista a cada ciclo de três anos e alguns títulos mudam de nome entre edições; antes de padronizar um título no sistema do hospital, confira se uma edição mais nova já substituiu esta.

Como fazer um diagnóstico de enfermagem passo a passo

  1. Avaliar: coletar dados com um roteiro, entrevista, exame físico e escalas. A qualidade do diagnóstico nunca é maior que a da coleta.
  2. Agrupar: juntar os dados que contam a mesma história (dor relatada, expressão facial, recusa em levantar).
  3. Levantar hipóteses: listar os títulos possíveis para cada agrupamento.
  4. Validar: conferir, na definição e nas características definidoras, se os dados do paciente sustentam o título escolhido. Se não sustentam, a hipótese cai.
  5. Identificar os fatores relacionados ou de risco: são eles que dirão o que fazer.
  6. Priorizar: decidir quais diagnósticos guiam o plano do dia. Uma lista de doze diagnósticos sem prioridade equivale a nenhuma.

Num hospital universitário, 96% dos prontuários tinham diagnóstico

O caso a seguir é ilustrativo. Um hospital universitário media, como indicador de enfermagem, a proporção de prontuários com diagnóstico registrado. O número era motivo de orgulho: em um prontuário sorteado por dia de internação, durante um ano, 352 de 365 tinham diagnóstico, 96%.

Uma residente de enfermagem fez outra pergunta aos mesmos 365 prontuários: quantos tinham diagnóstico com características definidoras, fatores relacionados ou de risco, e pelo menos uma intervenção do plano ligada a esses fatores? A resposta foi 131, ou 36%. Os outros 221 tinham o título, quase sempre os mesmos dois ou três, copiados da admissão.

Grade de 365 quadrados, um por dia do ano: 131 quadrados laranja com diagnóstico de enfermagem completo e ligado ao plano, 221 cinza com apenas o título repetido e 13 vazios sem diagnóstico.
Caso ilustrativo: um prontuário sorteado por dia de internação durante um ano, 365 no total. Cada quadrado é um prontuário. O indicador de documentação (96%) soma laranja e cinza; o indicador de uso (36%) conta só os laranja.

Os dois números medem coisas diferentes. O primeiro mede documentação: o campo foi preenchido. O segundo mede uso: o raciocínio clínico aconteceu e mudou o cuidado. Documentar não é implementar, e um indicador que só enxerga o campo preenchido premia a cópia.

Estratificar o segundo indicador por turno, por unidade e por dia de internação mostrou o padrão: o diagnóstico era feito na admissão e quase nunca revisto. Separar o que é variação comum do que é causa específica, antes de propor qualquer mudança, é o tipo de análise trabalhado na formação Green Belt. A primeira mudança testada, em uma única unidade e por quatro semanas, foi revisar os diagnósticos na passagem de plantão da manhã, com uma pergunta fixa: “o que mudou neste paciente desde ontem?”.

Esse jeito de testar uma mudança pequena, com predição e medida semanal, antes de levá-la ao hospital inteiro, é a base do curso de Lean Healthcare da Escola EDTI e da Introdução ao Lean Healthcare.

Três perguntas para saber se o diagnóstico está orientando o cuidado

Antes de olhar a proporção de prontuários com diagnóstico, faça três perguntas à sua unidade:

  • Se você trocar os diagnósticos de dois pacientes de leitos vizinhos, alguém perceberia pelo plano de cuidados?
  • Os fatores relacionados registrados aparecem em alguma intervenção prescrita, ou só no campo do diagnóstico?
  • Quando foi a última vez que um diagnóstico foi encerrado ou substituído porque o paciente mudou?

Se as respostas forem “não”, “só no campo” e “não lembro”, o problema não está no conhecimento da taxonomia. Está no processo que transforma o diagnóstico em formulário.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


Medir se o diagnóstico de enfermagem orienta o cuidado, e testar mudanças até que oriente, é o que se aprende no curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI.

Perguntas frequentes sobre diagnósticos de enfermagem

Quantos diagnósticos de enfermagem existem na NANDA-I?

A edição 2024-2026 (13ª edição) traz 277 diagnósticos, 56 deles novos e 123 revisados, organizados em 13 domínios. O número muda a cada edição.

Qual a diferença entre diagnóstico médico e diagnóstico de enfermagem?

O diagnóstico médico identifica a doença; o de enfermagem identifica a resposta da pessoa a essa doença ou a uma situação de vida. Pacientes com o mesmo diagnóstico médico podem ter diagnósticos de enfermagem diferentes.

Quem pode fazer o diagnóstico de enfermagem?

Pela Resolução Cofen nº 736/2024, o diagnóstico de enfermagem é privativo do enfermeiro. Técnicos e auxiliares participam do processo com anotações, execução dos cuidados prescritos e checagem, sob supervisão do enfermeiro.

Como escrever um diagnóstico de enfermagem?

Com três partes: o título da taxonomia, os fatores relacionados (“relacionado a”) e as características definidoras (“evidenciado por”). Nos diagnósticos de risco, entram os fatores de risco no lugar das características definidoras.

O que são características definidoras e fatores relacionados?

Características definidoras são os sinais e sintomas que confirmam o diagnóstico. Fatores relacionados são as causas ou contribuintes que a enfermagem pode modificar, e por isso orientam a intervenção.

Preciso de certificação para usar a NANDA-I?

Não existe certificação exigida para usar a taxonomia; o diagnóstico de enfermagem é atribuição do enfermeiro com registro no Coren, e a instituição define quais sistemas de linguagem adota. Melhorar o processo que faz o diagnóstico ser usado é outra competência, que se aprende com método de melhoria e não com a taxonomia.

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