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Teoria de Wanda Horta: necessidades humanas básicas, conceitos e aplicação

Existe uma crença confortável na enfermagem: teoria é assunto de prova, e o plantão anda com protocolo e prática. A teoria de Wanda Horta seria, nessa versão, uma página decorada para o concurso e esquecida no primeiro dia de trabalho.

A crença não resiste a uma pergunta simples. Por que o impresso de admissão da sua instituição pergunta sobre sono, eliminação, medo e religião, e não sobre a cor favorita do paciente? Alguém decidiu o que merece ser perguntado. Essa decisão tem nome e autora.

O que é a teoria de Wanda Horta?

A teoria de Wanda Horta é a teoria das necessidades humanas básicas: ela propõe que a enfermagem existe para atender às necessidades do ser humano que estão em desequilíbrio, e organiza essas necessidades em três grupos (psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais). Dela deriva um processo de enfermagem em seis fases.

Wanda de Aguiar Horta, enfermeira e professora da Universidade de São Paulo, apresentou o modelo de forma sistematizada no livro Processo de Enfermagem, publicado em 1979 pela EPU. A teoria se apoia em duas fontes: a teoria da motivação humana de Abraham Maslow e a classificação de necessidades proposta pelo padre e médico João Mohana, de quem vêm os três grupos.

Os conceitos centrais da teoria, explicados do princípio

Comece pelo que é uma necessidade, no sentido de Horta. Não é um desejo. É um estado de tensão, consciente ou não, que surge quando um fenômeno vital sai do equilíbrio. Enquanto o equilíbrio se mantém, a necessidade fica latente: você não pensa em respirar até o ar faltar.

Daí sai a primeira consequência prática. A enfermagem não cuida da doença em si; cuida das necessidades que a doença, o tratamento ou a situação desequilibraram. Uma pessoa com a mesma indicação de exame pode ter necessidades afetadas completamente diferentes.

A segunda consequência é que as necessidades são interligadas. Horta as trata como um todo indivisível: dor altera o sono, o medo altera a comunicação, a falta de informação alimenta o medo. Mexer em uma mexe nas outras.

A terceira é o grau de dependência. Para cada necessidade afetada, a pessoa pode depender da enfermagem total ou parcialmente, e o papel da equipe vai de fazer pelo paciente até orientar, supervisionar ou encaminhar. O objetivo declarado é tornar a pessoa independente da assistência sempre que possível, inclusive pelo ensino do autocuidado.

Os três grupos, então, não são uma escada a subir, como às vezes se ensina Maslow. São três dimensões presentes ao mesmo tempo:

Psicobiológicas incluem oxigenação, hidratação, nutrição, eliminação, sono e repouso, integridade cutâneo-mucosa, regulação térmica, percepção dolorosa, entre outras. Psicossociais incluem segurança, comunicação, aprendizagem, gregária, autoestima, participação e orientação no tempo e no espaço. Psicoespirituais dizem respeito à religiosidade e à filosofia de vida.

Você pode estar pensando: isso é só bom senso, qualquer profissional atento pergunta se o paciente está com medo. Pergunta, quando está atento. A teoria existe justamente para que a pergunta não dependa do dia, do humor ou da experiência de quem está de plantão. Ela transforma bom senso individual em estrutura de coleta.

Como a teoria vira processo de enfermagem

Horta propôs seis fases para o processo de enfermagem: histórico de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, plano assistencial, plano de cuidados ou prescrição de enfermagem, evolução e prognóstico de enfermagem. As fases se representam num hexágono, conhecido como hexágono de Horta, para indicar que se relacionam entre si.

O histórico é onde a teoria aparece com mais clareza. Os campos do impresso são as necessidades humanas básicas transformadas em perguntas. Quando o formulário tem um campo para eliminação e outro para medo, ele está aplicando Horta, mesmo que ninguém cite o nome.

A regulamentação atual seguiu a mesma lógica com outra organização. A Resolução Cofen nº 736/2024 descreve o processo de enfermagem em cinco etapas (avaliação, diagnóstico, planejamento, implementação e evolução de enfermagem) e exige que ele se apoie em um suporte teórico, que pode combinar teorias, modelos de cuidado, sistemas de linguagem padronizada e protocolos. A teoria de Horta continua sendo uma das referências mais conhecidas da enfermagem brasileira para cumprir essa exigência.

O que a teoria muda na prática: uma clínica de imagem

Considere o caso fictício deste artigo: uma clínica de imagem com 30.000 exames por ano, em dois turnos de seis horas. O acolhimento pergunta apenas o que o protocolo do exame exige: alergias, uso de medicamentos, dispositivos metálicos. Nenhuma pergunta sobre medo de espaço fechado, dor para ficar imóvel, necessidade de eliminação antes de um exame longo ou dificuldade de compreender as instruções.

Suponha que 4% dos exames sejam interrompidos por uma dessas razões. No relatório anual, 4% parece pouco. Em escala humana, são 1.200 pessoas por ano, cerca de cinco por dia útil, duas ou três por turno: rostos que a mesma equipe vê toda semana.

Três quadros mostram 1.200 exames interrompidos por ano, cerca de 5 por dia útil e 2 a 3 por turno de 6 horas; abaixo, uma grade de 60 quadrados representa os exames de um turno, com 2 quadrados laranja-escuro (interrompidos) e 1 laranja-claro (o terceiro, que ocorre em parte dos turnos)
Caso fictício: 30.000 exames por ano, 250 dias úteis, dois turnos de 6 horas, 4% interrompidos por necessidade não levantada no acolhimento. Leia da esquerda para a direita: o mesmo percentual, do relatório anual ao turno; a grade mostra o que 2,4 interrupções significam entre 60 pessoas.

Olhar a mesma clínica pelas lentes de Horta muda a pergunta. Medo e claustrofobia são necessidade de segurança, do grupo psicossocial. Não entender a instrução de ficar imóvel é necessidade de comunicação e aprendizagem. Dor para manter a posição é percepção dolorosa; urgência para urinar no meio do exame é eliminação. Todas são necessidades psicobiológicas ou psicossociais que o acolhimento não levantou.

Agora a objeção previsível: acrescentar perguntas atrasa a agenda. Talvez atrase. Mas aqui a teoria deixa de ser suficiente e o método entra. A mudança “perguntar sobre medo e eliminação no acolhimento” é uma hipótese, não uma melhoria garantida. Ela precisa ser testada em pequena escala, num turno, com uma predição escrita antes: quantas interrupções esperamos e quanto tempo a mais o acolhimento vai levar.

Para isso, “necessidade afetada” precisa virar dado contável, com definição operacional: o que conta como interrupção, quem registra e quando. Construir essa medida e lê-la no tempo, em vez de comparar dois números isolados, é o tipo de raciocínio desenvolvido no Green Belt. Sem isso, o novo campo do formulário vira mais uma linha preenchida por obrigação.

Como a teoria de Wanda Horta se liga a outros temas da enfermagem

A teoria fornece o “o quê” observar; outros temas fornecem o “como”. O histórico baseado em necessidades leva aos diagnósticos de enfermagem, que dão nome padronizado à necessidade afetada. Necessidades psicobiológicas como oxigenação e regulação térmica aparecem na rotina de sinais vitais; hidratação e eliminação, no balanço hídrico; integridade cutâneo-mucosa, na escala de Braden. O conjunto está organizado no hub de enfermagem.

Do lado da gestão, a passagem do formulário bem desenhado para um cuidado que de fato acontece é tema de processo: fluxo, desperdício e erro tratados no sistema. É o que estuda o curso de Lean Healthcare; quem quer um primeiro contato pode começar pela Introdução ao Lean Healthcare.

Os três grupos de necessidades e as seis fases, lado a lado

Grupo de necessidades Exemplos Como aparece no caso da clínica de imagem
Psicobiológicas oxigenação, hidratação, eliminação, sono, percepção dolorosa, integridade cutâneo-mucosa dor para ficar imóvel; urgência para urinar durante o exame
Psicossociais segurança, comunicação, aprendizagem, gregária, autoestima, participação medo de espaço fechado; instrução não compreendida
Psicoespirituais religiosidade, filosofia de vida valores que influenciam a aceitação de um procedimento
Processo (6 fases) histórico, diagnóstico, plano assistencial, prescrição, evolução, prognóstico o histórico define o que o acolhimento pergunta

Da teoria ao diagnóstico: o próximo passo

A teoria de Horta responde à pergunta “o que observar no ser humano que cuidamos?”. Ela não responde “como nomear o que encontrei” nem “como saber se o cuidado melhorou”. A primeira resposta está no diagnóstico de enfermagem, que transforma a necessidade afetada em um enunciado padronizado e comparável. A segunda está no método de melhoria, que testa mudanças e mede o efeito no tempo.

Se você fechou esta leitura sabendo os três grupos de necessidades, já tem o vocabulário. O passo seguinte é olhar o impresso de admissão do seu serviço e perguntar quais necessidades ele levanta, quais ignora e o que acontece, em escala de turno, com as que ficam de fora.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


Transformar uma necessidade não levantada em mudança testada e medida no tempo é o conteúdo do curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI.

Perguntas frequentes sobre a teoria de Wanda Horta

Quais são os três níveis de necessidades de Wanda Horta?

Psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais. A classificação vem do padre e médico João Mohana e foi incorporada por Horta à sua teoria.

Em que teoria Wanda Horta se baseou?

Na teoria da motivação humana de Abraham Maslow e na classificação de necessidades de João Mohana, combinadas com a filosofia de enfermagem da própria autora.

Quais são as fases do processo de enfermagem de Wanda Horta?

Seis: histórico de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, plano assistencial, plano de cuidados ou prescrição de enfermagem, evolução e prognóstico de enfermagem.

Qual a diferença entre a teoria de Horta e a pirâmide de Maslow?

Maslow descreve uma hierarquia de motivações. Horta usa essa base, mas organiza as necessidades em três grupos interligados, aplicados ao cuidado de enfermagem, sem exigir que uma camada seja satisfeita antes da outra.

A teoria de Wanda Horta ainda é usada?

Sim. Continua sendo uma das teorias de referência no ensino e na estruturação do histórico de enfermagem no Brasil, e a Resolução Cofen nº 736/2024 exige que o processo de enfermagem tenha um suporte teórico.

A teoria de Wanda Horta é suficiente sozinha?

Não. Ela diz o que observar, mas não como nomear o achado (papel dos diagnósticos de enfermagem) nem como saber se uma mudança no cuidado funcionou. Para isso entra o método de melhoria: predição, teste em pequena escala e medida no tempo.

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