Pular para o conteúdo
Você está aqui: Início / Blog / Deming no Brasil: os dois caminhos pelos quais o método chegou aqui

Deming no Brasil: os dois caminhos pelos quais o método chegou aqui

Pergunte a dez gestores brasileiros o que Deming ensinou e a maioria vai responder “PDCA”. A resposta não está errada, mas está incompleta, e a parte que falta é justamente a que explica por que tanto programa de qualidade no Brasil começou com entusiasmo e terminou em pasta de procedimento.

Deming chegou ao Brasil por dois caminhos diferentes. Um trouxe as ferramentas e o ciclo. O outro trouxe a teoria por trás deles. Entender os dois ajuda a ver o que ainda falta na maioria das empresas.

Como as ideias de Deming chegaram ao Brasil?

Chegaram em duas ondas. A primeira, no fim dos anos 1980 e nos anos 1990, veio pela leitura japonesa da qualidade total (TQC), com o PDCA no centro. A segunda veio pela estatística e pela Ciência da Melhoria: a linhagem Shewhart–Deming–API, que no Brasil passou pela Unicamp e pelo Prof. Ademir Petenate.

A primeira onda: qualidade total e o PDCA

Em 1989, a editora Marques Saraiva lançou em português O método Deming de administração, de Mary Walton — livro resenhado naquele ano pela Revista de Administração de Empresas da FGV. No começo dos anos 1990 vieram o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade (1990) e o Prêmio Nacional da Qualidade, que teve a primeira edição em 1992. Vicente Falconi publicou em 1992 TQC: controle da qualidade total no estilo japonês, que formou uma geração de gerentes.

Foi uma onda importante, e foi pelo Japão. O que chegou foi a versão japonesa do que Deming ensinara lá em 1950: círculos de controle de qualidade, as sete ferramentas e o ciclo PDCA, com o “C” de check. Os 14 pontos de Deming circulavam em palestras, quase sempre lidos como lista de boas intenções.

Dois caminhos de Deming até o Brasil Shewharte Deming Japão, 1950TQC e PDCA Brasil, anos 90ferramentas e ciclo API, EUA, 1984Modelo de Melhoria Unicamp, 1998Ademir Petenate 2011tradução e IHI
Figura 1. O caminho de cima trouxe o ciclo e as ferramentas pela leitura japonesa. O de baixo trouxe a teoria — variação, sistema, conhecimento — pela API e pela Unicamp.

O que se perdeu no caminho japonês

Deming passou a última parte da vida corrigindo justamente essa leitura. Em The New Economics (1993), ele chama de Sistema de Conhecimento Profundo as quatro lentes que sustentam tudo: visão de sistema, entendimento da variação, teoria do conhecimento e psicologia. E prefere “Study” a “Check” no ciclo, porque verificar não é o mesmo que aprender. A diferença está detalhada em PDCA e PDSA.

Sem essas lentes, o PDCA vira cobrança de plano de ação. Um exemplo comum: uma fábrica de 300 funcionários registra 3,1% de refugo em março e 4,4% em abril. A diretoria pede um plano de ação. Seis meses de dados mostram que o refugo oscila entre 2,6% e 4,9% sem nenhuma causa nova — é variação de causa comum. O plano de abril mexe num processo estável e, como Deming mostrou com o experimento do funil, tende a aumentar a variação. É o tipo de erro que a primeira onda não ensinava a enxergar, e que Shewhart já tinha nomeado nos anos 1920.

A segunda onda: estatística, Unicamp e a API

O segundo caminho começou dentro da universidade. No fim dos anos 1980, a IBM procurou o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp, e dali nasceu, no início dos anos 1990, um dos primeiros mestrados profissionais em Qualidade do país, sob a coordenação do Prof. Ademir Petenate. As ideias de Deming eram ensinadas a engenheiros e gestores, mas faltava o “como”.

Esse “como” veio em 1998. A Compaq procurou o Prof. Ademir para estruturar um programa de Seis Sigma, e ele foi aos Estados Unidos e se formou Black Belt com a Associates in Process Improvement (API), o grupo de ex-colaboradores de Deming que criou o Modelo de Melhoria. Clifford Norman e Lloyd Provost, autores do método, vieram depois à Unicamp conduzir a formação de Black Belts em parceria com a Compaq. Nascia o Programa Seis Sigma da Unicamp, no início dos anos 2000.

Desde então, o Prof. Ademir é o elo da API no Brasil. Coordenou a tradução brasileira de Modelo de Melhoria (Mercado de Letras, 2011), recebeu consultores do grupo no país e é faculty do IHI. O trabalho dele na Unicamp influenciou a definição operacional de melhoria publicada por Langley et al. — reconhecimento documentado pelos próprios autores nas notas do livro. Pela saúde, a mesma linhagem chegou a hospitais brasileiros com o IHI. A trajetória completa está na página do Prof. Ademir Petenate.

As duas ondas lado a lado

Primeira onda (TQC) Segunda onda (Ciência da Melhoria)
Por onde veio Japão, consultorias de qualidade total Estatística, API, Unicamp, IHI
Ciclo PDCA — verificar se o plano foi cumprido PDSA — comparar resultado com predição
Ponto de partida Plano de ação Três perguntas: objetivo, indicador, mudança
Leitura de dados Meta mensal, comparação de dois pontos Dados no tempo, causas comuns e especiais
Onde está forte hoje Indústria, sistemas de gestão, ISO Saúde, projetos de melhoria, Lean Six Sigma com método

As duas não competem: as ferramentas da primeira onda funcionam muito melhor quando entram dentro do método da segunda. É assim que o Green Belt em Lean Six Sigma da Escola EDTI organiza o DMAIC — cada fase responde a uma das três perguntas, e cada mudança passa por ciclos PDSA.

O que isso muda para um gestor brasileiro hoje

Se a sua empresa tem PDCA, metas mensais e plano de ação para todo desvio, ela recebeu a primeira onda. Três sinais de que falta a segunda:

  • o indicador é discutido mês a mês, sem gráfico ao longo do tempo;
  • toda piora gera um plano de ação, mesmo quando nada mudou no processo;
  • mudanças entram em toda a operação de uma vez, sem teste pequeno antes.

Nenhum dos três se resolve com mais uma ferramenta. Resolve-se com a teoria que Deming deixou e com o método que a API construiu sobre ela. A Escola EDTI, fundada por Marcelo e Ademir Petenate, nasceu dessa segunda onda.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi separar o que o Brasil recebeu de Deming pelo Japão do que recebeu pela estatística e pela API.


Ler Deming pelo PDCA é ficar com o ciclo e perder a teoria que faz o ciclo ensinar alguma coisa. Quem quer começar pela segunda onda — dados no tempo, predição, teste pequeno — tem no White Belt gratuito da Escola EDTI o ponto de partida.

Perguntas frequentes sobre Deming no Brasil

Quando as ideias de Deming chegaram ao Brasil?

Ganharam força no fim dos anos 1980 e nos anos 1990, com livros traduzidos, o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade (1990) e o Prêmio Nacional da Qualidade (1992).

O PDCA é de Deming?

Deming ensinou o ciclo de Shewhart no Japão, mas preferia chamá-lo de PDSA, com “Study” no lugar de “Check”. O PDCA é a forma que se popularizou pela qualidade total japonesa.

Quem trouxe o Modelo de Melhoria para o Brasil?

O Prof. Ademir Petenate, da Unicamp, que se formou Black Belt com a Associates in Process Improvement em 1998 e coordenou a tradução brasileira de Modelo de Melhoria em 2011.

Qual a diferença entre a qualidade total japonesa e a Ciência da Melhoria?

A qualidade total trouxe ferramentas e o PDCA; a Ciência da Melhoria acrescenta as três perguntas, a predição antes do teste e a leitura de dados no tempo, com causas comuns e especiais.

Há livros de Deming em português?

Sim. Out of the Crisis foi publicado no Brasil como Saia da Crise, e o livro de Mary Walton sobre o método saiu em português em 1989.

Onde estudar Deming e o Modelo de Melhoria no Brasil?

A Escola EDTI ensina a teoria de Deming e o Modelo de Melhoria dentro da formação em Lean Six Sigma, a partir do White Belt gratuito.

post

Deixe um comentário

Inscreva-se em nossa newsletter

E receba por email novos conteúdos assim que forem publicados!

Desenvolvido por: