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Posições cirúrgicas: tipos, riscos e como padronizar a conferência

Um centro cirúrgico com 8 salas que faz 9.000 cirurgias por ano posiciona cerca de 25 pacientes por dia útil, três ou quatro por sala. Cada posicionamento envolve de três a cinco pessoas, leva poucos minutos e acontece com o paciente anestesiado, sem poder dizer que um braço está em tensão ou que um calcanhar apoia direto na mesa. Por ano, são 9.000 vezes em que o resultado depende de um processo que quase nunca é medido.

Quando dá errado, o dano aparece horas ou dias depois, longe da sala: uma lesão por pressão no sacro, uma parestesia no braço, uma dor no ombro que ninguém associa à cirurgia. Por isso o posicionamento costuma ser tratado como habilidade individual da equipe, e não como processo. Este texto apresenta as posições e mostra onde está o processo.

Quais são as posições cirúrgicas?

As posições cirúrgicas mais usadas são o decúbito dorsal (supina), o decúbito ventral (prona), o decúbito lateral, a litotomia (ginecológica), o Trendelenburg, o Trendelenburg reverso, a posição de Fowler ou sentada e a posição de canivete (Kraske). A escolha depende do acesso cirúrgico; a forma de posicionar, proteger e conferir é definida pelo protocolo da instituição, com base em diretrizes como as da SOBECC e da AORN.

Posição Como o paciente fica Uso comum Pontos de atenção descritos nas diretrizes
Decúbito dorsal (supina) De costas, braços ao lado do corpo ou em braçadeiras Cirurgias abdominais, torácicas anteriores, de membros Occipital, escápulas, sacro, calcanhares; abdução excessiva dos braços
Decúbito ventral (prona) De bruços, com apoios no tórax e na pelve Coluna, região posterior Face, olhos, mamas, genitais, joelhos; expansão do tórax
Decúbito lateral De lado, com apoio e coxim axilar Rim, tórax lateral, quadril Orelha, ombro e quadril de apoio, plexo braquial
Litotomia De costas, pernas elevadas e afastadas em perneiras Ginecologia, urologia, proctologia Região poplítea, nervos da perna, tempo de permanência
Trendelenburg Dorsal com a cabeça mais baixa que os pés Cirurgias pélvicas e laparoscópicas baixas Deslizamento na mesa, ombros, pressão na face
Trendelenburg reverso Dorsal com a cabeça mais alta que os pés Cirurgias abdominais altas, cabeça e pescoço Deslizamento em direção aos pés, calcanhares
Fowler / sentada Tronco elevado, quase sentado Ombro, neurocirurgia posterior Sacro, isquiáticos, posição da cabeça
Canivete (Kraske) Prona com o quadril flexionado no ponto mais alto, cabeça e pernas mais baixas Região anorretal Joelhos, tórax, genitais

A tabela descreve as posições e os pontos que as diretrizes destacam. Ela não substitui o protocolo: dispositivos de proteção, tempo de reavaliação e responsabilidades são definidos por cada serviço.

Por que o posicionamento é um processo, e não um gesto

Na mesma sala, o posicionamento de uma colecistectomia por vídeo passa por pelo menos quatro decisões: a posição prevista no mapa cirúrgico, o material de proteção disponível na sala, quem confere cada ponto antes da incisão e o que acontece quando a mesa é inclinada no meio da cirurgia. Se cada uma depende de quem está de plantão, o resultado varia com a escala.

Veja como isso aparece em um caso ilustrativo. Um hospital registrou, em seis meses, 11 notificações de lesão por pressão relacionada ao posicionamento. A primeira leitura foi de falha individual: “faltou cuidado”. A equipe de qualidade fez outra pergunta: em quais cirurgias? Oito das 11 eram de mais de quatro horas em decúbito dorsal com Trendelenburg, e em sete delas o coxim de calcanhar não estava na sala no início do procedimento. O problema não era atenção. Era o kit de posicionamento montado pela CME para cirurgias curtas e usado também nas longas, e a ausência de um momento definido para reavaliar os pontos depois da inclinação da mesa.

Quatro etapas do posicionamento cirúrgico e as duas falhas do caso ilustrativo: kit incompleto e ausência de reavaliação após inclinar a mesa
Caso ilustrativo: das 11 lesões por posicionamento notificadas em seis meses, 8 ocorreram em cirurgias de mais de quatro horas e 7 sem o material completo na sala. As falhas estavam nas etapas 2 e 4 do processo, não na habilidade de quem posicionou.

Como padronizar a conferência do posicionamento

A padronização não define a técnica de cada posição; isso é do protocolo assistencial. Ela define como o processo acontece sempre do mesmo jeito:

  • Kit por posição e duração, montado a partir do mapa cirúrgico do dia, e não um kit único.
  • Itens de posicionamento na lista de verificação do protocolo de cirurgia segura, conferidos em voz alta antes da incisão.
  • Um gatilho de reavaliação definido pelo serviço (por exemplo, toda mudança de inclinação da mesa), com quem confere.
  • Registro no prontuário da posição, dos dispositivos usados e da avaliação da pele ao final, para que a lesão notificada depois possa ser rastreada ao procedimento.
  • Indicadores no tempo: proporção de cirurgias com conferência completa (processo) e notificações de lesão relacionadas ao posicionamento por mil cirurgias (resultado), plotadas mês a mês.

Cada mudança dessas pode ser testada com um ciclo PDSA em uma sala antes de ir para o centro cirúrgico inteiro. O mesmo raciocínio de fluxo e padronização aparece na instrumentação cirúrgica e nos demais processos do centro cirúrgico.

O que continua acontecendo quando ninguém mede

Sem indicador de processo, as 9.000 vezes por ano continuam dependendo de quem está na sala. Cada lesão é investigada isoladamente, termina em reorientação da equipe e não muda o kit nem o gatilho de reavaliação. O número de notificações oscila de mês para mês e é lido como sorte ou azar. E a subnotificação, comum em lesões que aparecem depois da alta do centro cirúrgico, esconde o tamanho real do problema. A ferramenta para separar acaso de mudança real é o mesmo gráfico de controle usado na indústria; quem quer aprofundar análise e projeto encontra o método na formação Green Belt, e o olhar de fluxo no curso de Lean Healthcare e na introdução ao Lean Healthcare.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.


Transformar o posicionamento em processo medido começa por uma sala, um indicador e um teste. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina esse caminho com o Modelo de Melhoria e ciclos PDSA, para profissionais de saúde que querem melhorar o processo em que trabalham.

Perguntas frequentes sobre posições cirúrgicas

Qual a posição cirúrgica mais utilizada?

O decúbito dorsal (supina), porque dá acesso à maioria das cirurgias abdominais, torácicas anteriores e de membros.

Qual a diferença entre Trendelenburg e Trendelenburg reverso?

No Trendelenburg, a cabeça fica mais baixa que os pés; no reverso, mais alta. A escolha depende da região operada e é feita pela equipe cirúrgica e anestésica.

Quem é responsável pelo posicionamento cirúrgico?

É uma responsabilidade compartilhada entre cirurgião, anestesiologista e enfermagem, conforme o protocolo da instituição. Por isso a conferência em voz alta na lista de verificação é importante.

O que é lesão por posicionamento cirúrgico?

É o dano à pele, aos tecidos ou aos nervos associado à posição e ao tempo de permanência na mesa cirúrgica. É tratado como evento adverso e deve ser notificado ao núcleo de segurança do paciente.

Qual a posição de litotomia?

O paciente fica de costas com as pernas elevadas e afastadas, apoiadas em perneiras. É usada em cirurgias ginecológicas, urológicas e proctológicas.

Que erro as equipes mais cometem com o posicionamento?

Tratar cada lesão como falha individual e não olhar o processo: kit, momento de reavaliação e registro. Aprender a fazer essa leitura é o objetivo do curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI.

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