Um tipo de curativo não é um tratamento por si só. Também não é uma escolha de preferência pessoal de quem está no plantão, nem um item que se decide pelo que sobrou no almoxarifado. Quando a escolha depende de quem troca o curativo naquele dia, a mesma ferida recebe três coberturas diferentes na mesma semana, e ninguém consegue dizer qual delas ajudou.
O que um tipo de curativo é: uma tecnologia com características físicas próprias (absorção, manutenção de umidade, aderência, ação antimicrobiana), que entra num plano de cuidado definido por avaliação da ferida e por protocolo.
Quais são os tipos de curativos?
Os curativos se dividem em coberturas convencionais (gaze, compressa) e coberturas especiais, que mantêm o meio úmido, absorvem exsudato, protegem ou agem contra microrganismos. A escolha da cobertura, a frequência de troca e a conduta são definidas pela avaliação da ferida feita por profissional habilitado, conforme o protocolo da instituição e as normas do COFEN para o cuidado de feridas. A tabela descreve as categorias, não indica tratamento.
| Categoria | Característica principal |
|---|---|
| Gaze e compressa | Cobertura convencional, de baixo custo; absorve, mas não mantém o meio úmido e pode aderir ao leito |
| Filme transparente | Membrana fina, permeável ao vapor e impermeável à água; permite ver o local |
| Hidrocoloide | Placa que forma gel em contato com o exsudato e mantém o meio úmido |
| Hidrogel | Gel com alta concentração de água; fornece umidade |
| Alginato de cálcio | Fibra derivada de algas, de alta absorção, que vira gel em contato com o exsudato |
| Espuma | Cobertura acolchoada, absorvente, que também protege contra atrito e pressão |
| Carvão ativado | Absorve odor; frequentemente combinado com prata |
| Coberturas com prata ou outros antimicrobianos | Liberam agente antimicrobiano no leito da ferida |
| Ácidos graxos essenciais (AGE) | Óleo usado sobretudo na proteção da pele íntegra |
Onde o curativo termina e começa o cuidado com a ferida
A fronteira importa porque é nela que os serviços erram. O curativo é a última etapa de um processo que começa antes: a avaliação da ferida (tamanho, leito, exsudato, bordas, pele ao redor, sinais de infecção), o registro dessa avaliação e a decisão do plano. Quando o processo pula as duas primeiras etapas e vai direto à cobertura, a escolha vira hábito e a evolução da ferida não é acompanhada. A prevenção das lesões por pressão, que é outra parte da história, está em lesão por pressão, com a avaliação de risco pela escala de Braden.

Como padronizar a escolha e o registro
- Protocolo institucional de feridas, elaborado com enfermeiros especialistas (estomaterapia) e a comissão de curativos, com a relação entre características da ferida e coberturas padronizadas.
- Lista de coberturas padronizadas, em vez de um almoxarifado com tudo: menos itens, mais conhecidos pela equipe.
- Registro com medida (comprimento × largura, ou régua e foto com consentimento) a cada avaliação, para que a evolução seja vista em número.
- Indicadores no tempo: proporção de feridas com avaliação completa registrada; tempo até a primeira avaliação por especialista; e, como equilíbrio, consumo e custo de coberturas.
Mudanças nesse processo podem ser testadas numa unidade antes de expandir, com um ciclo PDSA. Os atos de cada categoria da enfermagem seguem a Lei 7.498/86 e as resoluções do COFEN.
O curativo é a parte visível do cuidado com a ferida, e por isso recebe a maior parte da atenção. O resultado, porém, se decide nas etapas que ninguém vê: a avaliação, o registro e a reavaliação. A partir da cobertura, o problema deixa de ser “qual curativo” e passa a ser “o processo garante que a ferida é avaliada e medida a cada troca?”. Essa é uma pergunta de gestão, ensinada no curso de Lean Healthcare, na introdução ao Lean Healthcare e na formação Green Belt.
Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.
Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.
Da cobertura escolhida no plantão ao processo padronizado. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina a medir e melhorar processos assistenciais como este, com o Modelo de Melhoria e ciclos PDSA.
Perguntas frequentes sobre tipos de curativos
Qual a diferença entre curativo convencional e cobertura especial?
O convencional usa gaze ou compressa e não mantém o meio úmido; as coberturas especiais têm propriedades próprias, como manter umidade, absorver exsudato ou agir contra microrganismos.
Quem pode escolher o tipo de curativo?
A avaliação da ferida e a prescrição da cobertura cabem a profissionais habilitados, conforme a legislação do exercício profissional, as resoluções do COFEN e o protocolo da instituição.
O que é hidrocoloide?
Uma cobertura em placa que forma gel em contato com o exsudato e mantém o meio úmido.
O que é alginato de cálcio?
Uma cobertura de fibras derivadas de algas, com alta capacidade de absorção, que vira gel em contato com o exsudato.
Por que padronizar as coberturas no hospital?
Para que a escolha siga a avaliação da ferida, e não o hábito ou a disponibilidade, e para que a evolução possa ser comparada entre trocas.
Que erro os serviços mais cometem com curativos?
Escolher a cobertura sem avaliação e registro com medida, o que impede saber se a ferida está melhorando. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, trabalha a medição desse processo.