Três estudos sobre o mesmo tema. No primeiro, pesquisadores entrevistam 2.000 trabalhadores de um município numa única semana e perguntam se fumam e se têm tosse crônica. No segundo, acompanham 2.000 trabalhadores que não têm a doença por dez anos, separados entre fumantes e não fumantes, e contam quem adoece. No terceiro, partem de 300 pessoas com a doença e 600 sem, e investigam quantas fumaram no passado. Qual dos três permite calcular o risco de adoecer de quem fuma?
Só o segundo. A resposta não depende do tema nem do número de pessoas: depende do delineamento, da forma como o estudo foi montado. É o que este guia ensina a reconhecer.
Quais são os tipos de estudo epidemiológico?
Os estudos epidemiológicos se dividem em observacionais, em que o pesquisador observa sem intervir, e experimentais, em que ele atribui a exposição ou a intervenção. Entre os observacionais, há os descritivos (descrevem a frequência e a distribuição de um evento) e os analíticos (testam uma associação entre exposição e desfecho).
| Tipo | Como é montado | Pergunta que responde | Medida típica |
|---|---|---|---|
| Relato e série de casos | Descrição de um ou mais pacientes | O que se observou nesses casos? | Descrição |
| Ecológico | Unidade de análise é o grupo (município, país) | Regiões com mais exposição têm mais desfecho? | Correlação entre taxas |
| Transversal | Exposição e desfecho medidos ao mesmo tempo | Quantos têm a condição agora? | Prevalência |
| Coorte | Parte da exposição e acompanha no tempo até o desfecho | Os expostos adoecem mais? | Incidência, risco relativo |
| Caso-controle | Parte do desfecho e investiga a exposição passada | Os doentes foram mais expostos? | Razão de chances (odds ratio) |
| Ensaio clínico randomizado | O pesquisador sorteia quem recebe a intervenção | A intervenção causa o efeito? | Diferença de risco, risco relativo |
| Revisão sistemática e metanálise | Reúne e combina estudos sobre a mesma pergunta | O que o conjunto dos estudos mostra? | Efeito combinado |

Por que o delineamento importa fora da academia
O delineamento decide o que o estudo pode afirmar. Um estudo transversal mostra prevalência, mas não diz o que veio primeiro. Um caso-controle é rápido e bom para doenças raras, mas depende da memória da exposição. Uma coorte mostra a sequência no tempo e permite calcular incidência, a medida explicada em incidência e prevalência. Só o ensaio randomizado controla, pelo sorteio, os fatores que o pesquisador não conhece. Por isso a hierarquia das evidências, discutida em medicina baseada em evidências, segue o delineamento.
O mesmo raciocínio vale para quem melhora processos de saúde. Comparar a taxa de infecção antes e depois de uma mudança é um estudo antes-depois, um delineamento observacional, sujeito a tudo o que mudou junto no período. É por isso que a ciência da melhoria lê os dados em série temporal, com muitos pontos e com a mudança marcada no tempo, em vez de comparar dois números. A leitura em série aparece em ciclos PDSA e em gráficos de tendência; o contexto da disciplina está no guia de epidemiologia.
O tipo de estudo é a primeira coisa a perguntar a qualquer número de saúde. Antes de discutir o resultado, pergunte como o estudo foi montado: ele parte da exposição ou do desfecho, mede uma vez ou acompanha no tempo, sorteia ou só observa? A resposta diz o quanto o número pode ser cobrado, e é a mesma pergunta que se faz a um indicador do próprio serviço.
Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.
Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.
Ler dados de saúde com o delineamento certo vale também para os indicadores do seu serviço. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina a ler esses dados em série temporal e a testar mudanças com o Modelo de Melhoria. O olhar de fluxo também está no curso de Lean Healthcare e na introdução ao Lean Healthcare, e a estatística aplicada a projetos, na formação Green Belt.
Perguntas frequentes sobre tipos de estudo epidemiológico
Qual a diferença entre estudo de coorte e caso-controle?
A coorte parte da exposição e acompanha no tempo até o desfecho; o caso-controle parte do desfecho (casos e controles) e investiga a exposição no passado.
O que é um estudo transversal?
É o estudo em que exposição e desfecho são medidos no mesmo momento. Ele estima prevalência, mas não estabelece a sequência temporal.
Qual o tipo de estudo com maior nível de evidência?
Revisões sistemáticas com metanálise de ensaios randomizados, seguidas pelos próprios ensaios randomizados.
O que é um estudo ecológico?
Um estudo em que a unidade de análise é um grupo, como municípios ou países, e não o indivíduo. Associações encontradas no grupo podem não valer para as pessoas (falácia ecológica).
Estudo de coorte pode ser retrospectivo?
Sim. Na coorte retrospectiva (ou histórica), a exposição e o desfecho já aconteceram e são reconstruídos a partir de registros, mas o raciocínio continua partindo da exposição.
Onde os tipos de estudo entram na melhoria de processos de saúde?
Na leitura dos próprios indicadores: comparar antes e depois é um delineamento observacional frágil, e a série temporal é mais confiável. O curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina essa leitura.