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Medicina baseada em evidências: o que é e por que a evidência não chega sozinha ao leito

Uma crença comum entre estudantes e profissionais de saúde é a de que, publicada a evidência, o problema está resolvido: basta o médico ler o estudo e aplicar. A crença ignora um dado que a própria pesquisa sobre o tema repete há décadas. Entre a publicação de uma descoberta e o seu uso rotineiro no cuidado passa muito tempo, com frequência citado em torno de 17 anos, e boa parte do conhecimento nunca chega à prática de forma consistente.

A evidência é necessária. Ela não é suficiente. Entre o artigo e o leito há um processo, e é nele que a maior parte se perde.

O que é medicina baseada em evidências?

Medicina baseada em evidências (MBE) é, na definição clássica de David Sackett e colegas publicada no BMJ em 1996, o uso consciencioso, explícito e criterioso da melhor evidência disponível na tomada de decisão sobre o cuidado de cada paciente. A definição integra três elementos: a melhor evidência de pesquisa, a experiência clínica do profissional e os valores e preferências do paciente. Nenhum dos três substitui os outros.

Como a MBE funciona

Formular a pergunta. A estrutura mais usada é a PICO: população (paciente ou problema), intervenção, comparação e desfecho (outcome). Uma pergunta bem formulada define o que buscar.

Buscar a evidência. Em bases de dados (PubMed, LILACS, Cochrane Library) e em diretrizes de sociedades e do Ministério da Saúde.

Avaliar a qualidade. Nem todo estudo pesa igual. A chamada pirâmide de evidências coloca, de modo geral, revisões sistemáticas e metanálises no topo, depois ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte, caso-controle, séries de casos e, na base, opinião de especialistas. Sistemas como o GRADE avaliam também a certeza da evidência e a força da recomendação. Os delineamentos estão explicados em tipos de estudo epidemiológico.

Aplicar ao paciente, combinando a evidência com a avaliação clínica e as preferências da pessoa.

Avaliar o resultado da decisão.

Da evidência ao cuidado: estudo publicado, diretriz, protocolo local, processo no leito e indicador de adesão, com perdas em cada passagem
Esquema ilustrativo: a evidência de um estudo passa por diretriz, protocolo local e processo assistencial antes de chegar a cada paciente. Em cada passagem pode haver perda; as legendas embaixo mostram onde.

MBE e melhoria do cuidado: duas ciências que se completam

A MBE responde à pergunta “o que fazer?”. A ciência da melhoria responde a outra: “como fazer com que isso aconteça para todo paciente, todo dia?”. Um protocolo de sepse baseado em evidência forte não reduz mortalidade se a primeira coleta de lactato depende de quem está no plantão. A diferença entre as duas perguntas é a mesma que a Escola EDTI chama de Tese 3: criar o protocolo não é implementar. Implementação é quando o processo mudou e há indicador de processo mostrando a adesão.

É por isso que programas de qualidade usam as duas juntas: a evidência define o conteúdo do protocolo; os ciclos PDSA testam como fazer o protocolo acontecer na unidade; e o indicador de adesão, lido no tempo, mostra se aconteceu. A base para medir e interpretar dados de saúde está em epidemiologia e em incidência e prevalência.

Volte à crença do início. A evidência publicada não resolve o problema, mas também não é a vilã: ela é o ponto de partida. O que resolve é o trabalho de transformá-la em processo, medir se o processo acontece e corrigir onde ele falha. Para quem trabalha em saúde e quer aprender esse segundo trabalho, o curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina o Modelo de Melhoria aplicado ao cuidado, com predição, teste e leitura de dados no tempo. O olhar de fluxo está também no curso de Lean Healthcare e na introdução ao Lean Healthcare; e a análise estatística de projetos, na formação Green Belt.


Conteúdo escrito e tecnicamente revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua.

Revisão médica: Dra. Flávia Keiko Ichida, médica oftalmologista (CRM-SP 111.925 · RQE 47.907). Método de melhoria sob orientação do Prof. Dr. Ademir Petenate, fundador da Escola EDTI e professor da Unicamp desde 1974.

Perguntas frequentes sobre medicina baseada em evidências

Quem criou a medicina baseada em evidências?

O termo foi difundido por Gordon Guyatt e pelo grupo da Universidade McMaster, no Canadá, no início dos anos 1990; a definição mais citada é de David Sackett e colegas, de 1996.

O que é a pirâmide de evidências?

É uma hierarquia dos tipos de estudo pela força da evidência: revisões sistemáticas e metanálises no topo, depois ensaios randomizados, coortes, caso-controle, séries de casos e opinião de especialistas.

O que é a estratégia PICO?

Uma forma de estruturar a pergunta clínica: população, intervenção, comparação e desfecho.

MBE substitui a experiência clínica?

Não. A definição de Sackett integra evidência, experiência clínica e valores do paciente.

Qual a diferença entre MBE e prática baseada em evidências?

Prática baseada em evidências é o termo mais amplo, usado por todas as profissões de saúde (enfermagem, fisioterapia, farmácia), com a mesma lógica.

A MBE é suficiente para melhorar o cuidado?

Não sozinha: ela define o que fazer, mas a adesão no dia a dia depende de processo e de medição. É o que o curso Fundamentos da Ciência da Melhoria em Saúde, da Escola EDTI, ensina.

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