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Acreditação hospitalar ONA: o que muda entre os níveis 1, 2 e 3

O hospital conquistou o nível 1 em oito meses de trabalho intenso. Protocolos escritos, fluxos mapeados, comissões constituídas, treinamentos registrados. Dois anos depois, na avaliação para o nível 2, o avaliador fez uma pergunta que não estava na pasta: os indicadores que vocês acompanham mudaram alguma coisa desde a última certificação?

Esse é o degrau onde a maior parte das instituições trava. Entre o nível 1 e os níveis seguintes, a natureza da exigência muda. Deixa de ser “existe processo definido” e passa a ser “existe gestão baseada em resultado”, e a segunda não se conquista escrevendo documento.

O que é a acreditação ONA

A Organização Nacional de Acreditação, criada em 1999, é a principal referência brasileira em certificação de serviços de saúde. Ela desenvolve os padrões reunidos no Manual Brasileiro de Acreditação e coordena a metodologia de avaliação, que é executada por instituições acreditadoras credenciadas, as IACs.

Três características definem o modelo. A adesão é voluntária: não é fiscalização sanitária nem exigência legal. A avaliação é por níveis progressivos, o que é uma particularidade da ONA em relação a outras metodologias. E o método da organização é reconhecido internacionalmente pela ISQua, a sociedade internacional para a qualidade em saúde. A comparação entre a ONA e a acreditação internacional, com o critério para escolher entre elas, está em ONA e Joint Commission, e o panorama geral das metodologias em acreditação hospitalar.

Os três níveis

Os três níveis da acreditação ONANível 1, Acreditado, exige segurança do paciente em todos os processos, com validade de dois anos. Nível 2, Acreditado Pleno, acrescenta gestão integrada entre as áreas, também com dois anos. Nível 3, Acreditado com Excelência, exige cultura de melhoria contínua com resultados demonstrados, com validade de três anos.Nível 1: Acreditadosegurança do paciente em todos os processosvalidade de 2 anosNível 2: Acreditado Plenosegurança mais gestão integrada entre as áreasvalidade de 2 anosNível 3: Acreditado com Excelênciagestão integrada mais cultura de melhoria contínuacom resultados demonstradosvalidade de 3 anos
Figura 1. Os três níveis da acreditação ONA. O que mudam não são só os requisitos: muda o que precisa ser demonstrado com dados.

Nível 1, Acreditado. O foco é segurança. A instituição precisa demonstrar que atende aos padrões de qualidade e segurança em todas as suas áreas, estruturais e assistenciais, com os requisitos essenciais cumpridos. O certificado vale dois anos.

Nível 2, Acreditado Pleno. Mantém a exigência de segurança e acrescenta gestão integrada: os processos deixam de ser avaliados isoladamente e passam a ser avaliados pela forma como se articulam entre as áreas. Certificado também de dois anos.

Nível 3, Acreditado com Excelência. Acrescenta a exigência de excelência em gestão, com cultura de melhoria contínua e maturidade institucional demonstradas. Aqui não basta ter processos integrados: é preciso mostrar que a organização aprende e melhora ao longo do tempo. O certificado vale três anos, e é o único dos três com esse prazo.

Os percentuais mínimos de conformidade exigidos em cada nível são definidos pela ONA e crescem conforme o nível. O que vale reter é a lógica: o nível 1 olha para o que existe, o nível 2 para como as partes se conectam, e o nível 3 para o que os resultados mostram ao longo do tempo.

Por que o degrau do nível 3 é diferente

Documentar processo é trabalhoso e é uma competência que a maioria dos hospitais desenvolve. Demonstrar melhoria contínua é outra coisa, e exige três capacidades que nenhuma pasta contém.

Indicadores com definição operacional estável. Se o critério de contagem mudou no meio do período, a série histórica não sustenta conclusão nenhuma. É o erro mais comum nos painéis apresentados em avaliação: indicadores que mudaram de definição e por isso parecem ter melhorado.

Leitura da variação. Um painel com o valor do mês e a meta ao lado não demonstra melhoria. Demonstra desempenho pontual. A evidência de melhoria é a série no tempo mostrando que o processo mudou de patamar, e é o que uma carta de controle torna visível, separando oscilação normal de mudança real.

Rastro entre mudança e resultado. A instituição precisa conseguir mostrar o que foi alterado no processo, quando, e o que aconteceu com o indicador depois. É o registro de ciclos de melhoria, com a lógica do Modelo de Melhoria: o que queríamos realizar, como saberíamos que a mudança foi uma melhoria, o que testamos e o que aprendemos.

Um serviço que tem essas três coisas chega ao nível 3 com o trabalho que já faz. Um serviço que não tem produz, às vezes, um esforço documental grande e uma avaliação frustrante.

Vale uma observação sobre prazo. Como a certificação tem validade e exige renovação, a instituição que constrói essas três capacidades paga o custo uma vez e colhe em todos os ciclos seguintes. A que prepara documentação para cada avaliação paga o custo inteiro de novo a cada dois ou três anos, e ainda convive, no intervalo, com os mesmos problemas de processo que a certificação deveria ter ajudado a resolver.

O que costuma travar cada instituição

Indicadores demais, gestão de menos. Painéis com dezenas de indicadores que ninguém usa para decidir. Melhor acompanhar poucos, com definição escrita, lidos no tempo e com dono, do que um mural de números atualizado por obrigação. É o mesmo princípio dos indicadores de segurança do paciente.

Melhoria que depende de campanha. Ganhos obtidos por mutirão antes da avaliação retrocedem depois dela, e a série histórica mostra isso com clareza para quem sabe ler.

Notificação que não vira mudança. O núcleo de segurança do paciente recebe eventos, classifica, arquiva. Sem análise que chegue às condições e sem mudança testada, o ciclo não fecha. E isso depende também da cultura de segurança: onde notificar custa caro, o número de notificações cai e a instituição fica cega.

Equipe sem método. Talvez o mais importante. Um hospital pode contratar consultoria para preparar a documentação, e muitos fazem. Ninguém contrata de fora a capacidade de melhorar processo de forma continuada: ou a equipe interna sabe conduzir, ou o nível 3 vira um esforço que não se sustenta na renovação.

Por onde começar

Independentemente do nível pretendido, três movimentos preparam a instituição melhor do que qualquer esforço documental.

Primeiro, escolher de cinco a oito indicadores que a instituição realmente usa para decidir, escrever a definição operacional de cada um e congelá-la. Segundo, reconstruir a série histórica desses indicadores com a definição congelada, em base mensal, e passar a lê-la no tempo em vez de compará-la com a meta do mês. Terceiro, conduzir dois ou três ciclos de melhoria completos sobre os indicadores que estão piores, registrando o que foi testado, o que se esperava e o que aconteceu.

Esses três movimentos produzem exatamente a evidência que a avaliação procura nos níveis mais altos, e produzem também o que interessa mais que o certificado: processos que funcionam melhor.

Como a preparação se encaixa no trabalho de melhoria

A acreditação não deveria ser um projeto paralelo, com equipe própria e prazo próprio, desconectado da operação. O caminho mais eficiente é o inverso: usar os indicadores que a instituição já acompanha, escolher poucos problemas relevantes, conduzir ciclos de melhoria sobre eles e registrar o que foi feito. A evidência para a avaliação aparece como subproduto do trabalho, e não como preparação para a visita.

É a aplicação do que o Lean Healthcare propõe ao ambiente hospitalar, e é a razão pela qual instituições que já têm cultura de melhoria costumam achar a acreditação menos dolorosa: elas já produzem, na rotina, a evidência que a metodologia pede.

Para a equipe, isso significa dominar o básico do método: definir indicador com precisão, ler variação, testar mudança em escala pequena e verificar resultado no tempo. É o que a formação Green Belt na saúde desenvolve, e é o que transforma preparação para acreditação em gestão de verdade.

O avaliador da abertura não estava sendo rigoroso além da conta. Estava perguntando a única coisa que separa um hospital organizado de um hospital que melhora.


Conteúdo revisado pelo Master Black Belt Marcelo Petenate, estatístico, formado pela Unicamp, mestre pela USP e especialista em Lean Six Sigma e melhoria contínua. Nesta revisão, o foco foi o tipo de evidência exigida em cada nível e a diferença entre documentar processo e demonstrar melhoria com dados no tempo.


A evidência que a acreditação pede é a mesma que a boa gestão produz: indicador definido, mudança testada e resultado lido na série. O White Belt gratuito da EDTI cobre essa base, e o curso de Lean Healthcare aplica o raciocínio aos indicadores assistenciais.

Perguntas frequentes

Quais são os níveis da acreditação ONA?

São três: nível 1, Acreditado, focado em segurança; nível 2, Acreditado Pleno, que acrescenta gestão integrada entre as áreas; e nível 3, Acreditado com Excelência, que exige cultura de melhoria contínua e maturidade institucional demonstradas.

Qual a validade do certificado ONA?

Dois anos para os níveis 1 e 2 e três anos para o nível 3, com avaliações de manutenção durante o período de vigência.

A acreditação ONA é obrigatória?

Não. É voluntária e não substitui as exigências sanitárias legais. Instituições buscam a certificação por segurança assistencial, organização da gestão e reconhecimento de mercado, inclusive em negociações com operadoras.

Quanto tempo leva para conseguir a acreditação?

Depende do ponto de partida da instituição e do nível pretendido. O que mais influencia o prazo não é a documentação, e sim a maturidade da gestão por indicadores: serviços que já acompanham dados no tempo e conduzem melhorias chegam mais rápido.

Preciso de consultoria para conseguir a acreditação?

Consultoria ajuda a organizar a documentação e a preparar a avaliação, e muitas instituições contratam. O que ela não substitui é a capacidade interna de conduzir melhoria com método, que é justamente o que os níveis mais altos exigem demonstrar e o que precisa continuar existindo depois que a consultoria sai.

O que mais reprova hospitais na avaliação?

Nos níveis mais altos, a falta de evidência de melhoria ao longo do tempo: indicadores que mudaram de definição, painéis que mostram desempenho pontual em vez de série histórica, e ganhos obtidos por mutirão que retrocedem depois da avaliação.

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